Entendo os santistas que já jogaram a toalha. A maioria das pessoas, diante de uma grande dificuldade, entrega os pontos mesmo antes de lutar. É natural do ser humano e é por isso que de uma competição com 20 clubes, poucos almejam o título e só um será campeão. Desculpem-me, mas sou diferente. Gosto da dificuldade. Ela me força a ser melhor, me faz crescer. E o futebol é, para mim, mais um instrumento para exercitar esse eterno desafio interior.

Lembro-me dos saudosos tempos das peladas no campo do Diamante de Cidade Dutra, bem em frente de casa. Se havia um número ímpar de jogadores, eu fazia questão que o meu time ficasse com um a menos. Que graça teria ganhar o jogo com um a mais? E na hora de escolher, preferia como companheiros aqueles que davam o sangue, eram solidários e encaravam marcar gols, ou marcar o adversário, com a mesma disposição. Assim, sempre ao lado do mano Marcos, fiquei um ano sem perder no Diamante.

E um dia apareceu por lá o amigo Juarez, que começou com a gente, mas àquela altura já era jogador profissional do Juventus. Ficamos em times opostos e a lógica dizia que o meu perderia. Mas o jogo seguiu disputado até o final, quando roubei a bola do Juarez, que saia driblando de sua defesa, penetrei e fuzilei o goleiro, marcando o gol da vitória. Que sensação!

O mesmo espírito levo para o tênis e o xadrez, modalidades em que sempre preferi enfrentar oponentes teoricamente mais fortes. Primeiro porque eles nos obrigam a subir de nível, a dar o máximo que temos e, às vezes, descobrir em nós mesmos forças que desconhecíamos. E depois, é claro, porque vencê-los proporciona uma sensação de realização e felicidade incomparáveis.

Se eu fosse um jogador deste Santos que domingo enfrenta o Corinthians em busca do tetracampeonato paulista, estaria radiante e ansioso pela oportunidade de, diante de minha torcida, realizar um momento que ficará marcado na história do clube. Não estaria tão empolgado se o adversário fosse uma equipe de menor expressão, que tivéssemos a obrigação de vencer. Mas é o atual campeão do mundo, com alguns jogadores que estão entre os melhores do País, como este grande meia chamado Paulinho. Então, a grandeza do rival torna o desafio ainda maior, e é este desafio que deve empolgar os santistas que apreciam a competição, o verdadeiro espírito do esporte.

Não poderia haver adversário, local e nem circunstância melhores para coroar o tetracampeonato do Glorioso Alvinegro Praiano. Feche os olhos e veja o palco armado para o grande espetáculo, sinta a torcida, a tensão no ar, os times entrando em campo, o hino, imagine a bola rolando e o nosso Santos, como nos seus momentos mais marcantes, buscando o gol com determinação…

Um jogo como esse é o que separa os homens dos meninos, os craques dos jogadores comuns, os profissionais dos amadores. Por momentos assim é que crianças sonham ser jogadores de futebol, os técnicos imaginam suas táticas, os jornalistas estudam (ou deveriam estudar) e os torcedores se afligem antecipadamente. Este é o duelo esperado, o jogo tão aguardado. Nenhuma incerteza pode atrapalhar a cabeça do gladiador ao entrar na arena. É o momento em que ele se transforma no seu próprio Deus.

Por isso, todos os santistas – os que vão adentrar o campo de luta e os que ficarão de fora, com o coração aos pulos – devem agradecer esta rara oportunidade. Um tetracampeonato do Estadual mais disputado do País não teria o mesmo valor se fosse decidido em outras circunstâncias e diante de um adversário menos importante. Até a descrença de alguns faz parte do quadro dramático que cerca o espetáculo. Na verdade, é por momentos assim que amamos o futebol.

Reveja o dia em que, mesmo desfalcado e desacreditado, o Santos realizou a maior virada na história dos Campeonatos Brasileiros:

E você, com que espírito está esperando o grande jogo?