muricy

Derrubar o técnico Muricy Ramalho? Não creio. Ele não quer sair antes do final do contrato e a diretoria, presidida por Luis Álvaro, que é seu fã, não quer demiti-lo. Ao contrário. Parece satisfeita com o seu trabalho. O que o torcedor pode fazer? Abaixo assinado? Manifestação em reunião do conselho? Já houve e não mudou nada. Protestos no estádio? Esqueça. As torcidas organizadas estão comprometidas com essa diretoria. A maior esperança de mudança no estilo de jogo do Santos depende unicamente da cabeça de Muricy. E do seu coração…

Por isso, uso este artigo para fazer um apelo direto ao treinador, pedindo-lhe que permita que sua alma de menino assuma o controle de suas ações. Dispa-se desse velho rabugento que quer tomar o seu corpo e sua mente, Muricy. Volte à sua infância, quando, aos 13 anos, atraiu 20 mil pessoas ao campo do Nacional para vê-lo atuar em uma final do campeonato Dente de Leite.

Lembre-se que você fez a primeira partida entre os profissionais do São Paulo aos 15 anos e chegou a ser considerado pela imprensa como um dos “sucessores de Pelé”. Baixinho e franzino, foi sendo lançado aos poucos, mas em 1975, aos 19 anos, fez uma ótima temporada e foi escolhido como a revelação do Campeonato Paulista. A fama e a fortuna do futebol pareciam se oferecer a você, lembra?

Mas nem tudo são flores para um garoto talentoso e de gênio forte, como você era. Na decisão do Paulista de 1975, contra a Portuguesa, você deu uma entrada dura no meia Dicá e foi expulso pelo árbitro Dulcidio Wanderley Boschilia, colocando em risco o título que o São Paulo acabou conquistando na disputa de pênaltis. Desconsolado, você nem quis ver o resto do jogo e foi chorar no vestiário, lembra? Mas a torcida, reconhecendo seu valor, carregou-o nos braços e cantou o seu nome durante as comemorações. Garotos que vêm da base do clube e se destacam são muito amados pela torcida. Naquele dia você percebeu isso.

Hoje os garotos podem usar o cabelo como querem, mas em 1976, quando você tinha 20 anos, seus cabelos compridos incomodavam o técnico José Poy, que chegou a afastá-lo dos treinos por 10 dias, em uma tentativa de forçá-lo a adotar um corte mais tradicional. Porém, teimoso como é até hoje, você continuou cabeludo, voltou ao time marcando gols e, cheio de moral, decidiu que nunca mais usaria o cabelo curto.

Seu nome era tido como certo para a Copa de 1978, na Argentina, mas 1976 foi um ano ruim para o São Paulo e seu futebol também foi prejudicado pela má campanha do time. Ainda havia tempo para causar uma boa impressão até o Mundial, mas naquele fatídico 18 de maio de 1977, na final do primeiro turno do Campeonato Paulista, você torceu gravemente o joelho e ficou mais de um ano sem jogar, voltando apenas em 4 de junho de 1978, três dias depois do início da Copa da Argentina.

Sei que deixar de ser convocado para aquele Mundial foi sua maior frustração na carreira. Como você queria, aos 22 anos, estar na reserva de seu ídolo Zico! Mas, além de não ir à Copa, sua própria condição de jogador do São Paulo vinha sendo contestada, pois você voltou diferente, com receio de entrar nas divididas, lembra?

Nesse período o Santos tentou contratá-lo, mas o São Paulo pediu um valor considerado muito alto. Seu último jogo pelo São Paulo ocorreu em 25 de julho de 1979, pelo Campeonato Paulista, em uma derrota por 2 a 0 para o Guarani, no Pacaembu, em que você entrou no segundo tempo. Cinco dias depois o São Paulo vendeu seu passe para o Puebla, do México, por 100 mil dólares.

No México você sofreu contusões seguidas e raras vezes repetiu o futebol atrevido e técnico de sua adolescência e início de juventude. No final de 1985, ao completar 30 anos, você decidiu deixar de ser jogador e iniciou sua carreira de técnico, orientando o próprio Puebla.

Em 1994 você voltou ao São Paulo, mas como auxiliar técnico de Telê Santana, com quem aprendeu muito, principalmente “a simplicidade, o sentido de comando e o trabalho individual com os jogadores”, conforme você mesmo revelaria anos depois.

Agora, aos 57 anos, você é um profissional famoso, rico e realizado. O que o destino lhe tirou como jogador, lhe deu como técnico. São nada menos do que 16 títulos, entre eles quatro Brasileiros e uma Libertadores. E veja que curioso: você que foi um menino-prodígio, que viveu toda a glória e todo o dissabor que pode afetar um garoto que se aventura no mundo turbulento do futebol, agora pode ajudar outros garotos a alcançar o sonho que fugiu de suas mãos (ou pés).

Não foi por acaso que “Meninos para Sempre” virou o slogan do Centenário do Santos. O Alvinegro Praiano se orgulha por revelar jogadores, por ter a paciência e o carinho necessários para permitir que o talento e a personalidade desses garotos nasçam, cresçam e se solidifiquem. E você, Muricy, é a pessoa mais importante para eles, pois é quem pode lhes dar a oportunidade de ser um jogador profissional de futebol, de jogar no time que foi de Pelé, Zito, Pagão e tantos outros craques.

Quanto você os está ajudando?

No ano passado, quando, por falta de jogadores experientes, Victor Andrade foi lançado no time – e chegou até a fazer gols – , ele disse que você o estava ajudando, com conselhos. Sorridente, como sempre, o garoto disse que que você parecia bravo, mas no fundo era um bom cara, preocupado com ele. Só que de lá para cá o rapaz nunca mais foi escalado e nem mesmo entrou no decorrer das partidas. Que tipo de ajuda é essa, Muricy?

Lembro de Victor Andrade porque, se um dia Neymar for embora, e parece que um dia irá, quem está sendo preparado para ser o novo Menino da Vila? Victor? Gabriel? Giva? Mesmo que você ache que nenhum deles está pronto, não vale a pena investir tempo e trabalho nesses meninos?

Não podemos nos esquecer, ainda, de que há o aspecto financeiro. Por que o clube precisa pagar salários altíssimos a jogadores que em campo estão rendendo muito pouco, se o Santos acaba de ser campeão com seu time sub-20? Será que dessa garotada não se pode tirar jogadores que supram a falta de experiência com energia e vontade?

Você não acha, Muricy, que se um time é campeão paulista sub-20 e também da disputada Taça São Paulo de Futebol Junior, é porque tem jogadores que podem se tornar bons profissionais? Você não acha que, seguindo o que o mestre Telê Santana lhe ensinou, esses meninos não merecem um trabalho individualizado?

Lembro-me bem de suas atuações em 1975, Muricy, e tenho certeza de que, não fosse a contusão muito grave, você teria feito história como jogador do São Paulo e da Seleção Brasileira. Sinto muito mesmo pela interrupção de seu sonho – e devo lhe confessar que eu também queria ter sido um jogador de futebol, mas aos 15 anos já tinha quebrado duas vezes a perna e o médico sugeriu que eu me dedicasse a um esporte menos violento.

Bem, mas a vida segue. O destino tem planos para nós que às vezes parecem difíceis de serem compreendidos. Mas é só parar um pouco e pensar. E sentir… Ou você acha que foi apenas por acaso que o time dos “Meninos para Sempre” o convidou? O que esse trabalho no Santos significa para a sua vida? Apenas mais alguns títulos e muito dinheiro? Ou uma oportunidade de mudar a sua forma de ver o futebol, de despertar o menino cabeludo e irreverente que ainda mora em você?

Acho que o Muricy ainda pode ajudar muito os Meninos. E você?