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Quem carregará Neymar no colo?

Quando Pelé estava parando, o então presidente do Juventus, José Ferreira Pinto, foi ao programa esportivo de maior audiência da hora do almoço, na TV Tupi, e anunciou um plano que faria o time da Moóca grande, pois herdaria os torcedores do Santos na Capital. Segundo o dirigente, sem Pelé não haveria mais motivo para a cidade de São Paulo ter santistas… Bem, o Rei do Futebol dexou de defender o Santos há 39 anos e hoje o Alvinegro Praiano tem cerca de dois milhões de torcedores na Grande São Paulo, contra alguns pingados do simpático Juventus.

Conto essa história porque ouvi que Thiago Leifert, que já foi mais independente, disse que sem Neymar as Neymarzetes escolherão o Pato para seguir. Sei que para os homens de televisão, como Thiago e seu pai, diretor da Globo, as pessoas são massas que podem ser manobradas pra lá e pra cá. Foi-se um ídolo, cria-se outro. Mas, por mais que a tevê consiga prostituir as pessoas, principalmente em um país de ignorantes, como o Brasil, nem sempre é possível eleger o presidente ou fazer o ídolo que se quer.

O legado de Neymar é insubstituível. Quem aprendeu a gostar dele, aprendeu também a gostar do seu jeito, do seu estilo de vida e da camisa do time que ele vestia (e vestirá hoje à tarde, pela última vez antes de ir para o Barcelona). O garoto surgiu em uma equipe associada à irreverência, à alegria, à juventude, e essa equipe também compôs o ambiente que fez com que se tornasse tão querido, principalmente pelas crianças e adolescentes.

Nada impede, a não ser decisões erradas de sua diretoria, que a imagem do Santos continue associada aos valores que geraram Neymar. Sempre haverá jovens carismáticos que consigam jogar muito bem futebol e acabem idolatrados por isso. Neymar não é o último ídolo do futebol brasileiro e, pelas probabilidades, não será o último a ser revelado pelo Alvinegro Praiano, que já serviu de manjedoura para uma dezena deles.

O Santos estará sempre impregnado nele

A Internet, mais do que qualquer outra mídia, tratará de eternizar Neymar no Santos, como fez com Pelé. A cada vez que garotos e garotas do mundo inteiro quiserem desfrutar dos gols e dos dribles do Menino de Ouro, lá estará ele, com a camisa do time de Pelé, marcando o gol do prêmio Puskas, ou dezenas de outros de linda feitura.

Aqui entre nós, creio que Neymar já produziu suas melhores jogadas na carreira. O duro futebol europeu não lhe permitirá tanto espaço para lances de efeito. O melhor de Neymar estará, definitivamente, ligado a esses anos que passou na Vila Belmiro.

Algo me diz que a experiência na Europa não será tão prazerosa como Neymar e seus conselheiros imaginam. Como já disse, ele deixou de ser um Rei por aqui para se tornar mais um por lá. Em pouco tempo sentirá essa diferença. Vamos ver como reagirá. Espero que o Santos tenha deixado claro que as portas estarão abertas para quando quiser voltar. Ao contrário do que Neymar imagina, o Barcelona é uma paixão, mas o Santos sempre será o verdadeiro amor de sua vida.

Sei que ele foi generoso com o clube nesse episódio, ao contrário de muitos que o cercam. Se dependesse das recomendações alheias, ficaria no Santos mais um ano, até o final da Copa, e sairia sem deixar um centavo para o clube. O “pouco” que o Santos recebeu por se desfazer do jogador mais cobiçado pela Europa ainda se deveu à interferência do próprio Neymar.

Ao se falar de Neymar, se falará do Santos, e só essas aparições, somadas, já representarão muito mais visibilidade do que muitos times do mundo têm. Pelé, Robinho, Neymar… O Santos escreveu uma história de memoráveis Meninos da Vila que não pode ser ignorada por quem realmente aprecia o futebol.

Mas poderia ter sido melhor

Para amigos e pessoas próximas o pai de Neymar confidenciou que não foi ele quem pediu 100% do passe do filho ao final do contrato, em 2014. Ele se contentaria com menos, mas já que o Santos ofereceu, ele aceitou, claro. Esse péssimo acordo passou a pressionar o clube, que realmente passou a correr o risco de ficar de mãos abanando ao final do contrato.

O torcedor santista deve se perguntar, com razão, por que Neymar foi negociado por um valor menor do que o oferecido a outros jogadores, menos conceituados, se ele era o craque mais cobiçado por clubes europeus. Está certo que recebeu seis propostas e escolheu a do clube que mais gosta, mas mesmo assim imaginava-se que as ofertas fossem maiores. Que eu saiba, nenhuma chegou a 100 milhões de euros, como a do Chelsea há dois anos.

Na verdade, hoje a Europa passa por grave crise financeira e isso se reflete no futebol. Neymar está saindo de um país em crescimento, no qual ainda poderia faturar muito mais em publicidade, para um país em crise social e econômica. Espero que seus assessores tenham lhe prevenido sobre isso.

Por outro lado, é evidente que os riscos de ter seus salários atrasados no Barcelona serão bem menores do que no Santos. Certamente esses últimos atrasos, negados pela diretoria, diminuíram seu interesse de continuar no clube. E aí chegamos no xis da questão: até que ponto a incompetência da diretoria do Santos influiu para que o clube perdesse, com apenas 22 anos e às vésperas de uma Copa jogada no Brasil, o seu maior ídolo depois de Pelé?

Por mais boa vontade que se tenha, não dá para eximir os dirigentes santistas de culpa nesse caso. Além de um contrato estapafúrdio com o jogador, que não preservava nenhum direito ao clube, não deram a Neymar companheiros à altura e nem um sistema de jogo que privilegiasse o ataque, os gols e as dancinhas… Com o sistema defensivista do técnico Muricy Ramalho o Menino de Ouro parou de sorrir e dançar. Virou um alvo fixo, sozinho, na frente, à mercê da sanha impune dos defensores adversários.

Os companheiros do time mágico do primeiro semestre de 2010 foram embora, um a um: Wesley, André, Robinho, Madson, Ganso… André voltou, mas fora de forma, como se jamais tivesse jogado futebol. O meia Montillo, que veio para o lugar de Ganso, restou como a última tentativa de dar ao Menino de Ouro um parceiro genial, mas o argentino, contratado por um dinheiro que o clube nem tinha, até agora foi apenas uma pálida figura daquele que explodiu no Cruzeiro.

A problemática gestão financeira do clube também apressou as coisas. O inchaço da folha salarial, a falta de planejamento e a incapacidade de fechar com um patrocinador master tornou impossível manter Neymar. A impressão que se tem é que a diretoria do Santos foi pega de surpresa. Não pretendia se desfazer do craque solitário agora, mas a premência de dinheiro a obrigou a isso.

Outra questão é a incapacidade do clube de prever o desfecho do caso. Qualquer criança a milhares de quilômetros da Vila Belmiro percebia que a saída de Neymar para a Europa era questão de tempo. Jornalistas que mais parecem assessores de imprensa de clubes europeus repetiam diariamente a ladainha de que seria melhor para o jogador do Santos abandonar esse lixo de futebol que temos aqui e se misturar ao luxo dos futebolistas do velho continente. Um dia, até pela insistência, venceriam, e venceram…

Para muitos, a saída de Neymar do Santos cai como uma luva no projeto em marcha de espanholização do nosso futebol. De fato. Sem Neymar o Santos voltou a ser um time comum. Mais ou menos grande como os mais ou menos grandes times brasileiros, mas sem nenhum diferencial. Voltou a ser um time à procura desse diferencial, que tinha, mas deixou sair voando pela janela.

E se a perda do bilhete premiado era iminente, o clube já deveria estar preparando um substituto para Neymar. Um atacante jovem e habilidoso deveria estar ganhando espaço no time. Giva? Victor Andrade? Gabriel? Neilton? Não sei, mas algum deles, ou todos, deveriam estar tendo suas chances, pois por eles passa o futuro do Santos.

Se o professor onisciente decidiu que nenhum desses serve, então o clube deveria ter ido atrás de uma contratação com essas características. Ao sentir que perderia Zico, o Flamengo contratou e preparou o jovem Bebeto, vindo da Bahia, e por alguns anos o torcedor rubro-negro manteve o seu nível de satisfação bem alto. O Santos, ingênuo e arrogante, agiu como se não houvesse amanhã.

Assim como todo bom profissional mantém seu prestígio e enriquece seu currículo ao cumprir metas, sugiro às pessoas que dirigem o Santos que estabeleçam a meta de, nesse um ano e meio que falta para terminar esse mandato, devolvam ao clube jogadores do nível de Neymar e Ganso – que receberam graciosamente da última gestão – e também o atávico DNA ofensivo, morto aos poucos por Muricy.

Bem, a vida segue. Logo mais tem Santos e Flamengo no Mané Garrincha, o mais belo e caro elefante branco que o governo federal produziu para o futebol. Estou ansioso para ver Gabriel, se é que Muricy não o colocará no time apenas nos últimos minutos. Dizem que o garoto pode ser um novo Neymar, mas seu passe pertence ao empresário Wagner Ribeiro e já está em uma lista prioritária do Barcelona.

Enfim, nosso futebol continua vivendo o círculo vicioso que termina sempre com os ídolos indo embora para o exterior. Os áureos tempos dos anos 1950 e 1960, quando todos os grandes craques permaneciam por aqui, ao invés de engrandecidos e usados como exemplo, são esquecidos e pouco respeitados. A pergunta que o caso Neymar deixa no ar é: quando o futebol brasileiro voltará a ser live?

E pra você, o que Neymar deixa ao Santos?