As semifinais do Campeonato Paulista foram uma lástima. Muitos jogos do “Desafio ao Galo”, jogos varzeanos transmitidos pela TV Record, mostravam mais técnica e geravam mais emoção do que as peladas protagonizadas por Santos, São Paulo e Corinthians (excluirei o Mogi Mirim pois acho que o time do Interior foi o que fez mais diante de suas limitações). Fica a pergunta: por que jogadores e técnicos do futebol brasileiro estão ganhando cada vez mais e produzindo um futebol cada vez mais feio e previsível?

Bem, como já foi exaustivamente discutido, um dos motivos é o medo dos técnicos de perderem seus empregos. Fechando o meio-campo com dois, três e até quatro volantes, amarram o jogo, empatam aqui, ganham por um golzinho de diferença ali, evitam derrotas constrangedoras e, com o auxílio de um inesgotável arsenal de desculpas, vão se segurando no cargo.

Outra razão é a falta de interesse do jogador de aprimorar seus fundamentos. Se já ganha bem fazendo o que faz, por que mudar? Quem não sabe cruzar, continuará sem saber faze-lo a vida inteira, assim como o goleiro que não sabe sair do gol, o zagueiro que toma drible fácil, o lateral que não acerta um cruzamento, o atacante de pé murcho, e por aí vai…

Treinar fundamento significa aumentar horas de trabalho à rotina diária, e isso desagrada a maioria dos jogadores e técnicos. Muricy Ramalho, por exemplo, já acha que o time treina demais e por isso arrumou mais um dia de folga na semana para o elenco (que não podia ir ao CT Rei Pelé “apenas para dar uma voltinha no campo”).

Os prejuízos que a escassez de treinamentos faz ao Santos é flagrante. Contra o Mogi Mirim o argentino Montillo, contratado por uma fortuna para ser o companheiro ideal de Neymar, desperdiçou cerca de 80% das bolas que recebeu. Teria sido nervosismo? Difícil imaginar tal causa, já que o rapaz, experiente, tem jogado até pela Seleção da Argentina. Falta de treinamento? Bem provável, pois Montillo já reclamou que gostaria de treinar mais com bola.

O treino tipo “rachão” é prejudicial ao time

Quando vemos as fotos dos treinos do Santos na terça ou sexta-feira, reconhecemos entre os jogadores figuras como Edinho, o preparador físico e outros que quiseram entrar na brincadeira. Que preocupação técnica e tática pode haver em uma pelada jogada por qualquer um e em campo reduzido?

Esse tipo de “treino” não imita a situação real de jogo e não tem nenhuma utilidade no aprimoramento técnico. Ao contrário. Sua disseminação por CTs do país inteiro acabou com uma das armas ofensivas mais poderosas que um time pode ter, que é o chute de fora da área.

Como nesses rachões quem chuta de longe estraga a brincadeira, ninguém arrisca o arremate e o jogo se resume a uma troca de passes curtos até a pequena área adversária. O que é motivo de fartos e belos gols no futebol europeu, no Brasil é uma exceção. Aqui time grande não chuta de fora da área.

Não chuta porque não sabe chutar, e não sabe porque não treina. De que adianta ao Santos ter um jogador que sofre tantas faltas próximas à área, se as cobranças não são convertidas em gol? Será que enquanto estiver machucado, Marcos Assunção não pode ao menos servir como consultor para Neymar e outros candidatos a cobradores de faltas?

Como o campo usado nessas peladas é menor, tudo o que envolve profundidade é prejudicado. Não há e por isso não se aprimora os lançamentos longos, muito menos as reposições de bola do goleiro, que só a empurra para o jogador mais próximo.

Veja Federer, aperfeiçoando o (quase) perfeito

O suíço Roger Federer, todos sabem, é considerado o melhor tenista que já existiu. Ele chega próximo à perfeição em todos os seus golpes e movimentos, mas mesmo assim não descuida dos treinos. O homem está sempre lapidando o que parece não ter mais nenhum defeito. E quando não está jogando, está treinando. Seus rivais seguem a mesma rotina e por isso, quando se enfrentam, mostram uma precisão incrível, proporcionando espetáculos que dão ao espectadores uma sensação de saciedade. Ao contrário do futebol, o público nunca se decepciona quando os astros do tênis estão em quadra.

O tênis ensina que fundamentos imperfeitos têm de ser corrigidos. Se isso fosse levado ao futebol veríamos laterais correndo com a bola infinitas vezes até a linha de fundo e cruzando para trás, até que a porcentagem de acerto fosse satisfatória. Veríamos também jogadores treinando a potência e a direção dos chutes, orientados por especialistas.

Se um tenista profissional precisa aprender todos os efeitos proporcionados pelo contato da raquete com a bola, por que o jogador de futebol pode ficar rico sem aprender a chutar com os chamados “três dedos”, ou de chapa? Este simples detalhe pode fazer uma grande diferença…

Perceba que quando uma manobra ofensiva não consegue alcançar a linha de fundo, ou uma posição favorável para o cruzamento, a bola é recuada até o meio-campo e o ataque é abortado. Se o jogador que estivesse na lateral soubesse bater com a parte de fora do pé (“três dedos” ou similar), poderia cruzar invertido, naquela bola em que uma casquinha do atacante leva muito perigo.

Sem contar que os laterais, ou alas, deveriam ter a capacidade de cruzar com o outro pé, o que evitaria tantos ataques desperdiçados. Dorval era um ponta que cortava pra dentro e batia forte de esquerda. Por isso fez quase 200 gols com a camisa do Santos. Será que é pedir muito a um jogador profissional treinar cruzamentos com o outro pé? Não seria, aliás, uma obrigação?

Para aulas de defesa, o professor basquete

O cestinha e ídolo Oscar Schmidt me disse que só aprendeu a marcar quando jogou na Europa. O basquete é tão minucioso, que a posição dos pés, tronco e braços é fundamental tanto na defesa como no ataque. O técnico chega a corrigir centímetros a mais ou a menos na posição que pode impedir o giro e o arremesso do adversário.

Um dia essa briga milimétrica por posição será estudada e treinada no futebol, pois é inadmissível que ainda hoje defensores não consigam marcar jogadores que estão de costas para ele, ou têm apenas um espaço exíguo para dar o drible, e ainda conseguem fazê-lo. Fico aqui imaginando o que os saudosos Mauro Ramos de Oliveira ou Ramos Delgado não poderiam ensinar aos zagueiros do Santos.

Enfim, chegou o momento em que cada setor do campo precisa de um treinamento técnico específico. Ou melhor: cada jogador, por ter características e necessidades únicas, deveria trabalhar para o aprimoramento de fundamentos particulares. Se Montillo quer treinar mais, que treine, ora (até porque um jogador que demandou tanto investimento merece uma atenção especial).

O comodismo dos técnicos contaminou os jogadores e arrefeceu a busca pelo aprimoramento técnico. Se o chefe não quer, por que os subordinados quererão trabalhar mais? O conceito de que os jogadores são incapazes de se desenvolver está em discursos como os de Muricy Ramalho, sempre pedindo por jogadores prontos, ignorando que os meninos que vêm da base, se bem treinados e orientados, podem muito bem preencher as carências técnicas do Santos.

E para você, o que falta para melhorar o nível técnico do futebol brasileiro?