Ele é a maior preocupação dos jogadores e dos técnicos adversários. Mesmo quando não faz gols ou jogadas espetaculares, sua participação costuma ser importante (ontem sofreu a falta que gerou a cobrança de Marcos Assunção e a cabeçada de Durval que marcou o único gol contra o Joinville). Mas Neymar, para se aprimorar como jogador, precisa aprender a jogar mais para e com o time.

Contei seis bolas perdidas por ele no segundo tempo, quase todas gerando contra-ataques ao adversário. Em todas as situações poderia ter passado antes para um companheiro, mas preferiu a jogada individual, como se estivesse ansioso para provar a si mesmo que continua sendo o Neymar de sempre.

Não o recrimino. Apenas tento entende-lo… e acho que consigo. Pode rir, mas nos meus tempos de peladeiro um dia achei que poderia driblar quem quisesse e quantos quisesse. Tinha alguma habilidade, um certo jogo de cintura e um bom arranque. Imaginei que, com a bola dominada, sempre levaria vantagem sobre um marcador estático, que logicamente levaria algum tempo para sair da inércia. Teoricamente talvez eu até estivesse certo, mas a realidade do futebol é diferente.

Se o outro time percebe que você é um driblador inveterado, logo terá dois ou três no seu encalço, além de as entradas se tornarem mais ríspidas. Foi o que percebi nesse dia que quis dar uma de Garrincha, além de ouvir o seguinte comentário de um colega mais experiente e visivelmente desanimado com minha postura: “É uma pena. Se ele quisesse, poderia jogar bem”.

Se jogasse assim na Europa, iria para a reserva

Nosso Menino de Ouro está agindo como se todos os outros jogadores do Santos tivessem a obrigação de lhe dar a bola, mas ele não precisasse entregá-la a ninguém. Essa postura não seria tolerada em um clube europeu e lá, provavelmente, ele já estaria na reserva de algum jogador mais solidário e participativo (é só ver o que acontece com jogadores tipo Denilson, Robinho, Lucas, cujo individualismo é endeusado aqui e execrado na Europa).

Por mais habilidade que um jogador tenha, dar o passe para um companheiro livre será sempre mais inteligente e eficaz do que tentar driblar três jogadores no canto do campo. O melhor exemplo para este caso é sempre Pelé. Rei do Futebol, ele sabia valorizar quem jogava ao seu lado e não foi à toa que todos os atacantes do Santos dos anos 60 foram convocados para a Seleção Brasileira.

Sim, Pelé fez mais de mil gols com a camisa do Santos, mas Pepe e Coutinho ficaram na casa dos 400 e Dorval chegou perto dos 200. O ataque inteiro se favorecia com as habilidades do melhor jogador de todos os tempos. Pelé nunca driblou para trás e nem fez questão de dar chapéu no meio de campo. Era extremamente objetivo e essa é uma qualidade que alguns atacantes jovens da geração do Youtube estão perdendo, pois hoje um drible inútil é mais visto no mundo do que um gol.

Resta ao craque perceber qual a melhor jogada para cada momento. E às vezes a melhor opção é ceder, generosamente, a glória de um gol a um companheiro. Bem, talvez Neymar seja jovem demais para adquirir essa visão superior do jogo de futebol. Essa sabedoria costuma vir com o tempo e por isso o Pelé da Copa de 70 deu mais assistências do que marcou gols. Aconselho Neymar, se tiver tempo, a rever os lances de Pelé naquele Mundial.

Liderança de Marcos Assunção foi decisiva

O volante Renê Junior é ótimo marcador e sua substituição, ainda no primeiro tempo, acabaria permitindo mais oportunidades ao Joinville. Mas eu entendi Muricy Ramalho. Renê tinha levado o cartão amarelo e caminhava para o vermelho. Por outro lado, Assunção poderia dar um pouco mais de calma e precisão ao toque de bola no meio de campo, além de cobrar as faltas que vinham sendo desperdiçadas.

Não entendo porque o pobre do Cícero fica ao lado da bola em toda cobrança de falta, já que Neymar nunca deixa ele bater. Mas a entrada de Assunção fez com que um especialista assumisse as cobranças e isso acabou dando resultado aos 37 minutos do segundo tempo, com o gol de Durval.

Sei das limitações físicas de Marcos Assunção, mas fiquei estranhamente otimista depois do jogo contra o Joinville, pois percebi que a experiência, a visão de jogo e as cobranças magistrais de falta do velho mestre e eterno Menino da Vila ainda poderão ser muito úteis ao Santos. O Alvinegro Praiano está precisando de alguém que o faça se sentir novamente um time.

O que você acha do espirito de equipe do Santos?