Profisssionais não têm o direito de desistir

Madrugada em Chicago. O caminho da maratona de domingo, que passará pelas margens do Lago Michigan, está cercado e protegido. Policiais à paisana se espalham pela cidade. Há uma grande preocupação com a segurança por aqui. O atentado na maratona de Boston está na mente das pessoas. Eu? Tenho dormido bem. Mas desta vez acordei de madrugada com as opiniões de Thiago Ribeiro e Cícero, após a derrota por 1 a 0 para o Coritiba, me martelando a cabeça. Não está certo um profissional deixar de ter metas e, muito menos, desistir de uma. Esse é um direito exclusivo do torcedor, daquele que ama o clube sem tirar proveito dele.

Profisssionais do Santos – não só os jogadores, mas todos os envolvidos com o futebol – são pagos e usufruem da melhor estrutura para darem o máximo a cada partida. Se não se sentem capazes, que peçam demissão. Mas jamais digam que desistiram de uma meta difícil, mas plausível, como lutar por uma vaga para a Libertadores.

Se o Náutico, virtualmente rebaixado, ainda luta; se os desesperados Ponte Preta e Criciúma, que venceram ontem, ainda lutam; se São Paulo e Vasco, que também venceram ontem, buscam na vontade um futebol que só a técnica não tem trazido, por que o Santos, há 11 rodadas para o final do Campeonato Brasileiro, pode desistir de alguma coisa?

Criado na cultura de não desistir nunca, confesso que me indigno, às vezes bobamente, com meus amigos e colegas deste blog que dizem jogar a toalha diante das exibições indigentes do Santos. Digo bobamente porque o torcedor tem, sim, todo o direito de deixar de sofrer por algo que não é, ou não deveria ser, tão importante para a sua vida. Há a família, o trabalho, o lazer, as viagens, os bons livros, os momentos com os amigos, que devem ser mais relevantes do que os resultados de um time sobre o qual não temos o menor controle.

Não contratamos, não escalamos, não definimos salários, não buscamos patrocinadores, não somos quem tem de ter uma boa relação com a imprensa e os torcedores. Somos apenas aqueles que dedicam boa parte de seu tempo a se alegrar e se entristecer, a analisar o que pode e o que não pode ser feito para transformar essa banda desafinada do Santos na sinfonia perfeita que já foi um dia.

Falta pouco mais de um quarto do campeonato a ser jogado, e justamente a sua fase decisiva. É tarde para contratações ou para mudanças radicais. Mas sempre é tempo para se ter sangue nas veias e vergonha na cara. Sempre é tempo para dar a vida pelos seus sonhos. E um jogador do Santos, até em respeito aos sonhos alheios, não tem o direito de deixar de te-los, e muito menos de desistir deles.

E você acha que um jogador profissional tem o direito de jogar a toalha?

A eterna busca da sinfonia perfeita

O Santos enfrenta o Coritiba e se prevê desafinadas e contratempos. Mas talvez a imprevisível motivação do momento crie uma harmonia súbita e venha um resultado feliz… Pois o adversário também anda perdendo o ritmo, mesmo quando diante de sua plateia.

Discutimos neste blog, como cativos seguidores do time que jogava futebol como música, as esperançosas possibilidades da volta do milagre. Refleti sobre isso ontem à noite, ao lado de Suzana, no Symphony Center de Chicago, enquanto o maestro italiano Riccardo Muti regia uma orquestra de 23 cordas na obra “Divertimento em Ré Maior”, composta pelo austríaco Wolfgang Mozart em 1772.

Instrumentistas como jamais ouvi, faziam a música fluir em camadas finas, como ondas pelo ar, que corriam paralelas, ou se uniam, para depois se separarem novamente, em perfeita sincronicidade. Para resumir, Mozart está para a música assim como Pelé para o futebol, e a performance de Muti e de seus violinistas emprestavam aos acordes a magia de uma dimensão que só a música, ou a arte, pode nos levar.

Nós, santistas, somos como exigentes ouvintes de Mozart, procurando nos novos tempos as melodias perdidas que um dia nos alumbraram. O nome da orquestra é o mesmo, mas os compositores não são mais da estirpe celestial do genial austríaco e os instrumentistas estão longe do nível de uma Chicago Symphony Orchestra.

Um contratempo intransponível é a força do dinheiro, que tira do Santos seus mais destacados virtuoses tão logo aparecem. Neymar foi o último solista a ir tocar em outras bandas. Nenhum outro talento precoce se avizinha. Restará a esperança de um maestro criativo e talentoso, de um condutor discreto e sublime como Riccardo Muti.

Sim, talvez vivamos em busca de uma utopia, e só temos dois caminhos para nos divertirmos com o futebol sem sermos levados à loucura: o primeiro é o de reconhecer que aquele Santos dos sonhos foi um time único e avassalador, como Mozart, e o mais inteligente é seguir revisitando aqueles jogos, aquelas exibições e aquelas conquistas, como hoje as pessoas vão ao teatro para ouvir peças insuperáveis, compostas há 240 anos.

O segundo é o de ser um torcedor como outro qualquer, imerso nas agruras do presente. Mas mesmo a este torcedor ordinário e às vezes pessimista que somos hoje, não só pelas limitações do Santos, mas pela vulgaridade do futebol brasileiro, mesmo a este torcedor amargurado, receoso de um jogo contra o também limitado e traumatizado Coritiba, restará, sempre, o orgulho de saber que o nosso time já foi e continua sendo o único que produziu a sinfonia perfeita.

E pra você, que apito o Santos vai tocar em Curitiba?