Minha coluna desta sexta-feira no jornal Metro de Santos também fala sobre técnicos: http://issuu.com/metro_brazil/docs/20131129_br_metro-santos/17?e=3193815/5812939

Xavi
“A chave é onde surge superioridade numérica, a fim de criar espaços em outros setores do campo…”

Na tentativa de ajudar o Santos a derrotar o Barcelona na final do Mundial da Fifa de 2011, o santista radicado na Alemanha e leitor deste blog, Tana Blaze, traduziu uma entrevista do meia Xavi, do Barcelona – na qual este revelava que tipo de marcação complicava mais a vida do Barça – e enviou a carta para a Teisa. Pelo que ocorreu depois, entende-se que Muricy Ramalho não deve ter levado em conta as dicas de Xavi para parar o time espanhol. Leia abaixo a carta de Tana Blaze e, a seguir, as respostas mais reveladoras de Xavi na entrevista para o jornal Süddeutsche Zeitung (SZ), de Munique.

Estou dando essa matéria agora porque, mesmo aparentemente defasada, ela trata de um tema crucial no futebol brasileiro, que é a pouca aplicação tática de nossas equipes. Nossos técnicos, mesmo aqueles considerados com “t” maiúsculo, não se reciclam, não evoluem, não se preocupam com aliar técnica e tática em treinamentos mais científicos e menos acomodados. Esta entrevista de Xavi revela como Pep Guardiola trabalhou para tornar o Barcelona o melhor time do mundo.

Carta de Tana Blaze à Teisa, em 19 de outubro de 2011

No dia 26 de Julho de 2011 o jornal Süddeutsche Zeitung de Munique publicou entrevista com o meio-campista Xavi do Barcelona, que estava na cidade para disputar a Copa Audi.

Ainda entusiasmado com a vitória na final da Champions League sobre o ManchesterU, ocorrida pouco tempo antes da entrevista, Xavi estava à vontade, com a língua solta, deslumbrado e cheio de si, quando diz coisas do tipo que pensa mais rápido que seus marcadores, que faz o Messi jogar e que só 2% das pessoas entendem de futebol. Não é uma dessas entrevistas típicas de jogador com chavões politicamente corretos, sendo por isto interessante como informação.

Revela alguns detalhes sobre o treinamento e o jogo do Barcelona, que por si só não chegam a ser novidade. O interessante é a ênfase dada pelo técnico Pep Guardiola à posse da bola e à superioridade numérica na zona da bola, com Xavi narrando que se necessário corre da esquerda para a direita, tentando sempre reestabelecer a superioridade numérica. Aliás um sistema aplicado pela seleção brasileira que ganhou o Mundial nos Estados Unidos em 1994, na qual havia quase sempre um jogador livre na proximidade para receber a bola e iniciar uma nova jogada em outro setor.

Xavi revela também, que os times que mais dificultam a vida do Barcelona, são os que marcam homem a homem “como soldados”; lembrando também as seleções do Chile e do Paraguai, contra as quais jogou na Copa do Mundo da África do Sul em 2010. O Paraguai chegou a desperdiçar um penalti defendido por Casillas e foi derrotado por 1×0 com gol aos 82 minutos de jogo, perdendo ainda no finalzinho uma grande chance para empatar; poderia ter eliminado a Espanha, futura campeã mundial com o motor do Barcelona em campo, a dupla Xavi e Iniesta.

Embora a entrevista não revele nada de extraordinário, achei por bem traduzi-la e mandar para o Santos FC; talvez um ou outro tiquinho de informação possa ser útil na véspera da Copa do Mundo de Clubes. Como não achei o número da sede do Santos FC, envio via Teisa.

Saudações, Tana Blaze

Entrevista de Xavi ao Süddeutsche Zeitung (SZ) de Munique em 26 de Julho de 2011, na qual descreve o sistema do Barcelona (traduzida do alemão para o português por Tana Blaze)

Xavi Hernández, 31 anos, é considerado como o melhor meio-campista do mundo. Ele não é tão espetacular como o atacante argentino Lionel Messi, mas é o ritmo do seu pé, que cadencia o jogo do Barcelona e da seleção espanhola. Xavi, que nasceu em Terrassa / Catalunha começou a jogar com dez anos no Barcelona, foi treinado na famosa academia do clube de La Masia. Com o Barcelona ganhou o título de campeão espanhol por seis vezes, ganhou três vezes a Liga dos Campeões e com a equipe nacional se tornou campeão europeu (2008) e campeão do mundo (2010). Na terça-feira e quarta-feira o mestre do penúltimo passe jogará com o Barcelona na Copa Audi, em Munique. Eis uma manifestação de entusiasmo pelo Barcelona em forma de entrevista:

SZ: O treinador do Manchester United, Alex Ferguson disse que nunca antes seu time tinha levado tamanha surra.
Xavi: Foi um jogo milagroso. ManU não tinha qualquer chance de nos pressionar! Nós dominamos o jogo inteiro, exceto nos últimos 20 minutos, quando eles tinham algumas opções. Mas nesta fase já não acreditavam mais em si, isto se via em seus rostos, nos seus gestos. Wayne Rooney veio até a mim dizendo: ‘Não podemos fazer nada, nada”. E, ‘hostia’, ver isto acontecer com um time como Manchester, do qual tínhamos um respeito brutal, que já havíamos derrotado dois anos antes numa final da Liga dos Campeões e que procurava a revanche…- ufa!

SZ: Como se atinge tal perfeição?
Xavi: Treinando-a. Trabalhando nela todos os dias. Claro, existem coisas que simplesmente não se pode atingir com treinos, o talento por exemplo. Não dá. E nós temos naturalmente uma serie de jogadores que trazem um monte de qualidades natas. Mas Pep (treinador Josep Guardiola / nota da redação), nos proporcionou uma outra vantagem, porque através dele nós conhecemos a razão de cada ação. O porquê!

SZ: O porquê?
Xavi: Sim. Há muitas equipes que jogam muito bem, mas não sabem porquê. Onde tudo acontece por acaso. Por que defendemos arremessos laterais de tal forma e não de outra? Por que batemos escanteios curtos e não longos? Por que nos movemos para um lado do campo para terminar a jogada que está sendo feita no outro lado do campo? Por que fazemos pressão para recuperar a bola numa zona de dez metros? Pep explica isto. E ele o faz com muita didática.

SZ: Foi este o porquê da final contra o Manchester?
Xavi: A chave de tudo é sempre a questão aonde surgem situações de superioridade numérica, a fim de criar espaços em outros setores do campo (introduzido na tradução), Pep nos diz antes de cada jogo: “Hoje, a superioridade numérica vai ocorrer aqui ou ali ou lá”. E ele quase sempre acerta a mosca.

SZ: Antes do jogo?
Xavi: Sim. Ele fica planejando o dia inteiro. Sua máquina funciona 24 horas. Então ele está dois lances adiante de todos. Na realidade fomos surpreendidos apenas por Hércules Alicante um ano atrás, no dia da abertura da última temporada. Eles abarrotaram o centro do campo e deixaram as laterais do campo livres. Nós solucionamos isto muito mal. E perdemos.

SZ: Como foi contra o Manchester?
Xavi: Eles tinham uma linha defensiva de quatro homens, tivemos três atacantes; eles tiveram dois volantes e Rooney, nós tivemos Iniesta, Xavi, Busquets – e Messi, que caía de volta ao meio-campo para produzir situações de quatro contra três. E então começou. Toque, toque, toque (toque de bola, toque de bola, toque de bola, acrescentado pela redação), até surgir uma jogada de ataque. Isto às vezes pode durar meia hora, e para isso precisamos de jogadores que não perdem a bola, que são brilhantes. Você se lembra de nosso primeiro gol contra o Manchester?

SZ: O gol de Pedro após seu passe de trivela? Depois de você poder conduzir a bola 20, 30 metros sem ser marcado?
Xavi: Quando recebi a bola perto do círculo central e me virei, pensei, ‘hostia’, estou sozinho aqui! Os defensores não saem! Eles simplesmente não saem! E por que? Porque os defensores têm, digamos assim, respeito do Villa, Pedro e sobretudo do Messi, a ponto de não se atreverem a deixar suas posições.

SZ: O ex-atacante do Liverpool Michael Robinson, um dos maiores especialistas de futebol da televisão espanhola, lhe atesta de ter junto com o Barcelona democratizado o futebol: Ninguém nunca vai novamente enxotar um adolescente, porque ele é pequeno ou franzino demais.
Xavi: Isto tem algo de verdade. Alguns anos atrás, os jogadores como eu eram ameaçados de extinção, porque meias tinham que ter uma altura de 1,8 metros e ser fortes fisicamente. O meu futuro foi questionado. Não faz três anos, que as pessoas diziam, que Andrés Iniesta e eu não poderíamos jogar juntos. E agora? Todos concordam que somos a chave para o sucesso desta equipe. Felizmente, o futebol ainda é um esporte no qual o talento está acima da força pura. E eu digo isso não porque eu sou um jogador tecnicamente dotado.

SZ: Então por quê?
Xavi: Porque é uma bênção para o esporte, para o espetáculo para o público. E porque eu sou um romântico. Quando eu vejo um cara que mata uma bola que cai de 30 metros de altura com um simples toque, eu digo: `hostia!‘ Isso é talento! O mais simples é uma equipe fechar atrás com oito jogadores, uma situação em que qualquer pessoa pode jogar, até o meu irmão que não está em forma. O difícil é acertar três passes em seqüência. Passar a bola quatro vezes em seguida com toques únicos. É isto que importa.

SZ: Passes diretos são a chave do jogo?
Xavi: Você se lembra do Hugo Sánchez? Muitos antigos defensores dizem hoje: No Hugo Sanchez eu nem conseguia dar um pontapé. Numa temporada marcou 38 gols todos com chutes de primeira sem matar a bola! (acréscimo do tradutor) O que quero dizer: não há defesa contra o jogo direto. Você pode me marcar. Mas a bola vem para os meus pés, e, pum, já passei para um outro. Como se defender contra o toque direto? Impossível! Pode se defender contra ações individuais. Dribles.

SZ:Houve quem dificultasse o jogo do Barcelona?
Xavi: Sim, com marcação homem a homem. Os russos e ucranianos são os mais irritantes. Como soldados. Ou, Paraguai e Chile na Copa do Mundo. Mesmo assim continua valendo: quanto mais direto for o jogo, maior dificuldade o adversário terá em se defender.

SZ: Como vocês treinam isto no Barça?
Xavi: Tanto faz se o treino for de força, velocidade ou condicionamento. Cada unidade de treinamento começa com o “Rondo”, uma forma de jogo em que você, se perder a bola, tem que ir ao meio – um treinamento mental bestial. E sempre termina com uma forma de jogo em que se deve manter a posse da bola. Jogos de posicionamento, nos quais que se deve pensar rápido, onde se pode tocar na bola apenas uma vez. Num espaço confinado. Sem tempo para pensar em perder a bola. E ninguém perde. Ninguém. Às vezes, digo a Pep: “deveríamos filmar nosso treino. É melhor do que qualquer jogo. Muito melhor.

SZ: Quando se avalia as estatísticas dos jogos do Barça, chama atenção que um quarto dos seus passes são feitos a Messi e Iniesta, e que um terço dos passes de Messi, Iniesta, Daniel Alves e Busquets, são feitos a você. Isto corresponde a uma orientação?
Xavi: Não Se eu tiver a bola, tento avançar. Quando percebo, oh, o Messi não tocou na bola por cinco minutos, penso: isso não pode ser! Não deve ser. Onde está ele? (Xavi olha para a esquerda e direita), até encontrá-lo. Então pego o Messi e digo”(Xavi faz um movimento de chamada com a mão): vem, vem. Vem aqui, venha perto de mim, comece a jogar”… Ele é atacante, atacantes desligam as vezes. Como se estivessem ‘off’. Muitas vezes ele está apenas chateado porque não recebe a bola com freqüência suficiente, ou porque sofre marcação cerrada. Mas se ele, em seguida, volta para nós no meio-campo, fica novamente feliz. Ele aprecia isto, porque ali pode tocar na bola uma vez, duas, três vezes, e então inicia uma jogada de ataque… esse cara é uma bomba. Eu nunca vi um jogador que sequer chegasse a seu nível Eu não quero atingir os Pelés e Maradonas, nem mesmo os Di Stefanos e Cruyffs. Dos quais eu nunca vi dez jogos em série. Mas aqui, Messi é o melhor do mundo. Em todos os jogos!

SZ: Mas no campo você mesmo é o rei da posse da bola.
Xavi: Se não estiver em constante contato com a bola, me falta algo. Eu estou sempre indo para o lugar onde a bola está, para ajudar um colega, para produzir superioridade numérica. Se eu estou no lado direito e Andres Iniesta e Abidal com seus respectivos marcadores estiverem no lado esquerdo, apresso-me para me juntar a eles e provocar uma situação de três contra dois.

SZ: Como você consegue manter sempre a visão de jogo, mesmo sendo permanentemente pressionado de todos os lados?
Xavi: É o instinto de sobrevivência. Eu não tenho físico privilegiado, então tenho que pensar rápido. No futebol existem dois tipos de velocidade. Por um lado, a velocidade de execução da ação, como a tem Messi, que faz tudo a 100 por hora, ou Cristiano Ronaldo. E depois há a velocidade mental. Alguns têm na cabeça um” top” de 80, outros de 200 km / h. Eu tento chegar perto dos 200. Isso significa, acima de tudo, saber sempre onde você está no campo. Saber o que você faz com a bola antes de recebê-la: Você aprende isso no Barça desde pequeno. Se um adversário vier em minha direção, é em 99 por cento dos casos mais forte do que eu. A minha única chance é pensar rápido. Fazer um passe, um movimento, me livrar da marcação, uma finta, deixar o adversário correr para o vazio… Este tipo de velocidade hoje quase vale mais do que a velocidade pura física.

Para você, o que falta aos técnicos brasileiros para se equipararem a um Pep Guardiola?