Um prêmio à coragem: 3 a 0 no Bahia

Desta vez, mesmo vencendo por 2 a 0, o Santos não recuou demasiadamente e abdicou de atacar. Ao contrário. Continuou atrapalhando a saída de bola do Bahia e buscando o ataque com consciência. O resultado foi que marcou mais um gol e pela primeira vez em muito tempo ganhou uma partida neste Brasileiro sem passar sufoco no final.

Espero que o jogo tenha convencido o técnico Claudinei Oliveira de que é possível obter mais sucesso jogando no ataque, do que na defesa. Se não tivesse adiantado o seu ataque e marcado a saída de bola do Bahia, dificilmente o Alvinegro Praiano teria conseguido vitória tão elástica.

Os destaques do Santos foram Montillo, que jogou mais avançado; Thiago Ribeiro, que deu passes sensacionais; Cícero, autor de dois gols, e Geuvânio, que pela dedicação, agilidade e ofensividade tem conquistado a torcida.

Alan Santos entrou muito bem e está merecendo um lugar nesse meio-campo. Alison e Arouca que se cuidem. Na defesa, Aranha este bem como sempre. Bruno Peres criou a jogada do primeiro gol e apoiou melhor do que Émerson; Gustavo Henrique, mesmo mais jovem, mostrou-se mais seguro do que Edu Dracena.

O time errou menos passes, ganhou mais bolas divididas, e isso é fundamental para se ter um bom desempenho. É como no tênis: não adianta fazer mais aces e mais winners se o número de erros não forçados é assustador.

Ganhar os quatro jogos que faltam é muito difícil, mas está longe de ser impossível. Os dois em casa não são os maiores problemas. Mas, se jogar longe da torcida com a mesma coragem que demonstra diante dela, quem sabe o Santos não faz mais um de seus pequenos milagres. Não custa nada acreditar.

Ah, ia me esquecendo do público: fantástico, pelas circunstâncias. Quinze para 16 mil pessoas é a lotação completa da Vila Belmiro. E isso em um horário muito cedo para quem enfrenta o trânsito de São Paulo, véspera de feriado e adversário sem grande rivalidade. É óbvio que o Santos tem de jogar, no mínimo, 50% de seus jogos no Pacaembu.

Veja os melhores lances de Santos 3 x 0 Bahia:

http://youtu.be/sA5COatKuf4

O que essa vitória sobre o Bahia representou para você?

Imagens e emoções de uma história inesquecível

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José Carlos Peres, de pé, dando uma aula de história de futebol brasileiro na CBF.

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Dossiê: Exposição para a imprensa carioca no salão nobre do Fluminense.

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Dossiê: Exposição para a imprensa de São Paulo no salão nobre do Palmeiras.

dossie - idolos
Com os ídolos reconhecidos Edu, Ademir da Guia, Roberto e Dorval.

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José Carlos Peres e eu, uma parceria que não desistiu nunca.

Sabe aquele dia em que não há nada melhor do que ir ao estádio ver um jogo de futebol? Se o Santos não jogasse, eu caçaria um jogo pela cidade. Podia ser na Rua Javari ou no Castelinho, lá em Interlagos. Mas o Santos joga, no Pacaembu, contra o Bahia – em uma reedição do confronto que definiu o primeiro campeão brasileiro, em 1959. Não dá para perder.

Thiago Ribeiro e Cicinho, recuperados, devem voltar ao time, assim como Émerson Palmieri, que substituirá Mena, em serviço na Seleção do Chile. Com 45 pontos, o Alvinegro Praiano terá de vencer seus cinco jogos que faltam para sonhar com uma vaga na Liberadores. O Bahia, por sua vez, tem apenas 39 e luta para escapar do rebaixamento.

É dia de jogar sem medo e tentar recuperar a velha fome de gols que embalou a Vila Belmiro em épocas mais felizes. Mas não se pode prever facilidade, pois o Bahia do técnico Cristóvão Borges fará de tudo para voltar para Salvador ao menos com um pontinho.

Parabéns ao Cruzeiro tri! Mas o melhor dos três campeões foi o de 1966

cruzeiro1966

Com uma montagem inteligente, que usou muito do melhor que restou ao desfalcado futebol brasileiro, e dirigido por um técnico simples, direto e eficiente, como Marcelo Oliveira, o Cruzeiro chega ao seu terceiro título brasileiro com toda a justiça. Como já escrevi, é música para meus ouvidos o grito de “tricampeão” dos cruzeirenses, pois significa o triunfo da história real do futebol e a valorização da Taça Brasil, a primeira competição que deu ao seu vencedor o título de campeão brasileiro e representante do Brasil na Copa Libertadores da América.

Tomo a liberdade de reproduzir um trecho do documento que serviu de base para a unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959, no caso uma parte do capítulo que fala da conquista do Cruzeiro em 1966, quando um bando de garotos talentosos de Minas Gerais surrou o meu Santos, então considerado o melhor time do mundo:

A reação de Minas e do Brasil à conquista do time dos garotos de Minas Gerais foi das mais entusiásticas que a imprensa esportiva brasileira já teve. Jornais e revistas trouxeram edições especiais com páginas e páginas sobre os heróis e a recepção que tiveram em Belo Horizonte. Mestres da crônica, como Nélson Rodrigues e Armando Nogueira, saudaram efusivamente os novos campeões brasileiros:

O campo enlameado do Pacaembu consagrou, ontem à noite, o grande campeão do Brasil, o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Natal, e Raul, isto para citar apenas quatro jogadores de uma das melhores equipes que o futebol brasileiro já viu nascer e crescer (Armando Nogueira, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 de dezembro de 1966).

Depois da vergonha e da frustração da Copa do Mundo, nenhum acontecimento teve a importância e a transcendência da vitória de anteontem. Por outro lado, não foi só a beleza da partida, ou seu dramatismo incomparável. É preciso destacar o nobre feito épico que torna inesquecível o feito do Cruzeiro. Não tenhamos medo de fazer a sóbria justiça: aí está, repito, o maior time do mundo (Nelson Rodrigues, Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1966).

A importância desse feito para o orgulho nacional, ferido na Inglaterra, foi descrita assim pela revista O Cruzeiro, a mais lida do País, em editorial de sua edição de 24 de dezembro de 1966, escrito por João Martins:

Com o gesto olímpico de vitória, Piazza, o jovem capitão da equipe do Cruzeiro, de Minas gerais, traz grandes esperanças ao coração de todos os torcedores brasileiros. Uma nova geração de craques está florescendo. O nosso futebol mostra que o seu poder de renovação ainda existe, e disso o time de Tostão deu uma prova das mais convincentes nas duas categóricas partidas que disputou contra o todo-poderoso esquadrão de Pelé, nas finais da Taça Brasil. Os estádios voltam a fremir, no clamor das multidões empolgadas diante da fibra e do malabarismo dos antigos e dos recentes ídolos. O grande título que o time mineiro conquistou tem, assim, uma significação mais ampla e um sabor de renascimento. Demonstra, mais do que tudo, que o nosso maior esporte não se estagnou nem se abateu. E justifica, plenamente, a recepção triunfal que os campeões brasileiros de 66 receberam na volta a Belo Horizonte e que divulgamos na detalhada reportagem que fecha esta edição. São os novos valores que despontam, para que, junto aos astros já consagrados, o nosso futebol volte a ocupar o lugar que lhe pertence no esporte mundial.

O título do Cruzeiro mostrou que o futebol brasileiro não se restringia mais aos grandes times de São Paulo e Rio de Janeiro, além de uma ou outra aparição de clubes nordestinos. Minas Gerais e Rio Grande do Sul tinham estrutura, poder econômico e equipes à altura dos melhores do País. Essa constatação acabaria gerando, no ano seguinte, a primeira edição do Torneio Roberto Gomes Pedrosa ampliado, ou Robertão, que deixaria de ter apenas times de Rio de Janeiro e São Paulo.

O Cruzeiro, uma verdadeira Seleção

A seguir transcrevo as fichas técnicas dos jogos finais da Taça Brasil de 1966 entre Santos e Cruzeiro. Perceba o nível dos jogadores das duas equipes e constate que o Cruzeiro jamais repetiria um elenco de tanto brilho:

Primeiro jogo
30/11/1966
Cruzeiro 6, Santos 2, Mineirão, Belo Horizonte
Cruzeiro: Raul, Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Piazza e Dirceu Lopes; Natal, Evaldo, Tostão e Hilton Oliveira. Técnico: Aírton Moreira.
Santos: Gylmar; Carlos Alberto, Mauro, Oberdã e Zé Carlos; Zito e Lima; Dorval, Toninho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.
Gols: Gols: Zé Carlos (contra) a um minuto de jogo, Natal aos 5, Dirceu Lopes aos 20 e aos 39 e Tostão aos 42 minutos do primeiro tempo; Toninho aos 6 e aos 9 e Dirceu Lopes aos 27 minutos do segundo.
Árbitro: Armando Marques
Expulsões: Procópio e Pelé.
Renda: Cr$ 222.314.600,00 (recorde).
Público: 77.325.

Segundo jogo
07/12/1966
Santos 2, Cruzeiro 3, Pacaembu, São Paulo
Santos: Cláudio, Lima, Haroldo, Oberdã e Zé Carlos; Zito e Mengálvio; Amauri (Dorval), Toninho, Pelé e Edu. Técnico: Lula.
Cruzeiro: Raul, Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Piazza e Dirceu Lopes; Natal, Evaldo, Tostão e Hilton Oliveira. Técnico: Aírton Moreira.
Gols: Pelé aos 23 e Toninho aos 25 minutos do primeiro tempo; Tostão aos 18, Dirceu Lopes aos 28 e Natal aos 44 minutos do segundo.
Árbitro: Armando Marques.
Renda: Cr$ 65.142.000,00.
Público estimado: 30.000 pessoas.
Como campeão nacional de 1966, o Cruzeiro foi o único representante brasileiro da Libertadores de 1967. Na verdade, em 1967 a Conmebol abriu mais uma vaga por país na Taça Libertadores da América. Assim, o Santos, como vice-campeão nacional de 1966, poderia ter participado da competição. Porém, em comum acordo com a CBD, o clube paulista resolveu ausentar-se da competição sul-americana.

E hoje, contra o Bahia, o que você espera do Santos?