Em um país em que a imprensa esportiva pede para seus melhores jogadores de futebol irem se aprimorar na Europa; em que a Rede Globo, detentora dos direitos de tevê, privilegia descaradamente um time conhecido por jogar na retranca e não marcar gols; em que os clubes bancam as torcidas organizadas que aterrorizam os estádios, e em que o governo usa dinheiro público para construir estádios no meio do nada, o Campeonato Brasileiro de 2013 só poderia ter sido rudimentar e desinteressante.

Porém, como os deuses do futebol também escrevem certo por linhas tortas, veja quantas lições este nacional não nos deixou. A primeira delas é que dinheiro e fama não garantem o sucesso de clube algum. Enquanto os quatro times que vieram da Série B tiveram boas performances, os atuais campeões do mundo, da Libertadores, e do Brasileiro do ano passado, deram vexame.

Queridinho da Rede Globo, que transmitiu quase todos os seus jogos em canal aberto, o Corinthians, atual campeão mundial, só terminou em décimo-terceiro lugar, teve o segundo pior ataque da competição e em 18 jogos, quase metade dos que realizou, não marcou um mísero gol. Também por isso o ibope do futebol na Globo foi o pior dos últimos tempos.

Campeão da Libertadores, o Atlético Mineiro também se mostrou muito instável e terminou em oitavo lugar. Mas o pior mesmo foi o Fluminense, campeão brasileiro do ano passado, que acabou birrebaixado para a segunda divisão, acompanhado do Vasco, que em 2012 tinha sido um dos melhores do País.

Enquanto isso, dos times que subiram para a Série A, o Atlético Paranaense garantiu vaga na Libertadores, e Vitória e Goiás também lutaram por ela até o final. O único que correu perigo foi o bravo Criciúma que, no entanto, se salvou e deixou Vasco e Fluminense no abismo.

A mesma inversão se viu no mercado de técnicos. Nenhum dos mais famosos fez boa figura. Dorival Junior conseguiu a proeza de rebaixar Fluminense e Vasco no mesmo ano; Vanderlei Luxemburgo também foi demitido de dois clubes, e Muricy Ramalho deixou o Santos à deriva para aceitar menos da metade do salário no São Paulo.

Quem brilhou foi Marcelo Oliveira, do Cruzeiro; Vagner Mancini, do Atlético Paranaense; Enderson Moreira, do Goiás e eu diria que também Jorginho, da Ponte Preta, único time brasileiro que se classificou para a decisão de um torneio internacional este ano.

Sem ser brilhante, nosso Santos ao menos evitou o pior. Depois da goleada vexatória sofrida para o Barcelona, muitos esperavam que o time não se recuperasse mais, afundando na tabela do Brasileiro como um martelo sem cabo. Entretanto, orientado pelo interino Claudinei Oliveira, com alguns veteranos, uns meio famosos e um monte de moleques, o Alvinegro Praiano seguiu aos trancos e barrancos e, devido a três vitórias no final, acabou em sétimo lugar, como o menos ruim dos paulistas, sete pontos à frente de Corinthians e São Paulo.

O ideal agora seria fazer uma depuração no elenco, manter só jogadores com vontade de jogar bola, boa condição física e algum valor de mercado. Aos veteranos com contrato vencendo, nosso mais carinhoso abraço. O Campeonato Paulista só pode ser usado para se montar um bom time para o Brasileiro. Afinal, já são seis anos que o Santos não fica entre os mais bem classificados do nacional.

O curioso é que em 2014 o Brasileiro terá os cinco grandes de São Paulo (sim, eu considero a Portuguesa um grande) e a surpreendente Santa Catarina contará com três representantes: o Criciúma, que não caiu por garra e teimosia; o Chapecoense e o Figueirense.

Depois, teremos dois times do Rio (Flamengo e Botafogo), dois de Minas (Cruzeiro e Atlético), dois do Paraná (Atlético e Coritiba), dois do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional), um de Pernambuco (Sport) e um de Goiás (Goiás).

O único aspecto animador que consegui ver neste Brasileiro foi a superação de alguns clubes menores, que conseguiram ter um desempenho melhor do que muitos que, pela mídia e pela fortuna que arrecadam, jamais poderiam ter sido superados por estes. Isso provou, mais uma vez, que trabalho, competência, criatividade e ousadia conseguem inverter os prognósticos.

Em seguida, publico um artigo muito interessante do pesquisador de futebol José Renato Santiago, enviado gentilmente a este post. Veja que belo estudo fez o Renato:

O incrível desempenho dos Caçulas do Brasileirão de 2013

Por José Renato Santiago

São inúmeros os comentários sobre o nível técnico do campeonato brasileiro da Série A.

Para muitos, um dos piores de todos os tempos.

Algo realmente discutível.

Mas há algo realmente que cabe destacar no campeonato deste ano.

As grandes performances dos caçulas, equipes que subiram da Série B para a Série A.

Levantando dados desde 2006, quando 4 equipes passaram a ascender da Série B para a A, algumas curiosidades podem ser notadas.

1. Pela primeira vez que uma equipe vinda da Série B, conquistou vaga para a Taça Libertadores, o Atlético PR.

2. A colocação do Goiás em 2013, (6ª) foi a melhor de um campeão da Série B no ano de seu retorno.

3. A terceira colocação do Atlético PR foi a melhor colocação de uma equipe vinda da Série B.

Atlético-PR – 3ª em 2013

Vitória – 5ª em 2013

Goiás – 6ª em 2013

Avaí – 6ª em 2009

Figueirense – 7ª em 2011

Atlético-MG – 8ª em 2007

Coritiba – 8ª em 2011

Coritiba – 9ª em 2008

Vitória – 10ª em 2008

Corinthians – 10ª em 2009

4. Pela primeira vez, nenhum caçula caiu, já nos outros anos:

América-RN – 2007

Ipatinga – 2008

Portuguesa – 2008

Santo André – 2009

Guarani – 2010

América-MG – 2011

Sport – 2012

5. Caçulas no TOP 10

2013 – 3 (Atlético-PR, Vitória e Goiás)

2008 – 2 (Coritiba e Vitória)

2009 – 2 (Avaí e Corinthians)

2011 – 2 (Figueirense e Coritiba)

2007 – 1 (Atlético-MG)

2010 – nenhum

2013 – nenhum

6. A pontuação dos caçulas de 2013 foi bem superior aos dos outros anos

Atlético-PR – 64 pontos em 2013

Goiás – 59 2013

Vitória – 59 2013

Figueirense – 58 2011

Avaí – 57 2009

Coritiba – 57 2011

Atlético-MG – 55 2007

Coritiba – 53 2008

Vitória – 52 2008

Corinthians – 52 2009

7. A somatória dos pontos dos caçulas de 2013 foi bem superior aos dos outros anos

(Goiás, Criciúma, Atlético-PR e Vitória) 2013 – 228 pontos

(Corinthians, Santo André, Avaí e Barueri) 2009 – 199 pontos

(Coritiba, Figueirense, Bahia e América-MG) 2011 – 198 pontos

(Portuguesa, Náutico, Ponte Preta e Sport) 2012 – 183 pontos

(Coritiba, Ipatinga, Portuguesa e Vitória) 2008 – 178 pontos

(Vasco, Guarani, Ceará e Atlético-GO) 2010 – 175 pontos

(Atlético-MG, Sport, Náutico e América-RN) 2007 – 172 pontos

8. A classificação final dos caçulas de 2013 foi bem superior aos dos outros anos, ao somarmos a colocação final de cada um, devemos considerar que a menor pontuação significa melhor performance

Exemplo, em 2013:

(Goiás, Criciúma, Atlético-PR e Vitória) = (6ª + 16ª + 3ª + 5ª) = 30

(Goiás, Criciúma, Atlético-PR e Vitória) 2013 – 30

(Corinthians, Santo André, Avaí e Barueri) 2009 – 45

(Coritiba, Figueirense, Bahia e América-MG) 2011 – 48

(Atlético-MG, Sport, Náutico e América-RN) 2007 – 57

(Vasco, Guarani, Ceará e Atlético-GO) 2010 – 57

(Coritiba, Ipatinga, Portuguesa e Vitória) 2008 – 58

(Portuguesa, Náutico, Ponte Preta e Sport) 2012 – 59

9. A melhor campanha entre os caçulas nem sempre é do campeão da Série B:

Atlético-MG (1ª Série B 2006) – (8ª Série A 2007)

Coritiba (1ª Série B 2007) – (9ª Série A 2008)

Avaí (3ª Série B 2008) – (6ª Série A 2009)

Vasco (1ª Série B 2009) – (11ª Série A 2010)

Figueirense (2ª Série B 2010) – (7ª Série A 2011)

Náutico (2ª Série B 2011) – (12ª Série A 2012)

Atlético-PR (3ª Série B 2012) – (3ª Série A 2013)

10. Os campeões da Série B jamais foram rebaixados no ano de retorno a Série A

Atlético-MG (1ª Série B 2006) – (8ª Série A 2007)

Coritiba (1ª Série B 2007) – (9ª Série A 2008)

Corinthians (1ª Série B 2008) – (10ª Série A 2009)

Vasco (1ª Série B 2009) – (11ª Série A 2010)

Coritiba (1ª Série B 2010) – (8ª Série A 2011)

Portuguesa (1ª Série B 2011) – (16ª Série A 2012)

Goiás (1ª Série B 2012) – (6ª Série A 2013)

E você, o que achou do Campeonato Brasileiro de 2013?