O que Odílio não disse

Primeiro, o presidente do Santos, Odílio Rodrigues, afirmou que a Doyen Sports tinha contratado Leandro Damião e o colocado à disposição do Santos. O clube só teria de pagar o salário do jogador. Depois de uma comunicação da Doyen, negando que tivesse qualquer porcentagem no passe do centroavante, Odílio admitiu que a empresa multinacional fez um empréstimo ao clube para o pagamento dos R$ 42 milhões relativos ao passe de Damião. Entretanto, o presidente santista ainda não revelou que além dos R$ 42 milhões, a Doyen emprestou dinheiro para pagar os R$ 7,5 milhões relativos à comissão pelo negócio e outro tanto para quitar os salários atrasados e o décimo-terceiro dos funcionários do clube, o que elevaria o total de empréstimo ao Santos em R$ 75 milhões. Outra informação importante ignorada por Odílio Rodrigues é que Gabriel, o Gabigol, e mais 17 jogadores da base do Santos foram incluidos no contrato de empréstimo como garantia de pagamento. Há alguma imprecisão nesta informação? Com a palavra, o presidente santista, diretores e conselheiros.

A contratação do atacante Leandro Damião, festejada por alguns, criticada por outros, divide a opinião dos santistas. Realmente, há aspectos positivos e negativos nessa negociação. Farei uma rápida explanação sobre eles e ao final gostaria de conhecer sua opinião.

Dívida e incerteza

Se o presidente Odílio Rodrigues já tinha anunciado que o Santos teria menos de R$ 4 milhões para gastar com contratações em 2014, obviamente envolver o clube em uma dívida de R$ 42 milhões, a juros de 1% ao mês, não foi nada sensato (a coisa piora com as informações de que o empréstimo da Doyen foi bem maior, alcançando R$ 75 milhões, e o Santos incluiu 18 jogadores da base como garantia do negócio).

Ainda mais porque, ferindo uma ética administrativa que na verdade os clubes de futebol não costumam ter, essa gestão pode ter passado um senhor mico para a sua sucessora, já que a dívida com a Doyen Sports não será paga em um ano, e provavelmente nem mesmo em quatro anos. Ou seja, além das dívidas anteriores, a gestão eleita no final de 2014 talvez tenha de se virar para pagar mais esta, uma das maiores já contraídas por um clube brasileiro.

Um final feliz para o investimento seria a valorização do jogador e a venda do seu passe com lucro. Mas aí se entraria no campo das imponderabilidades, algo que um clube que pretende ser administrado como uma empresa deve evitar. E a hipótese mais provável é que Damião não se valorize tanto.

Em primeiro lugar, porque seu estado clínico e físico são uma incógnita. O rapaz passou 2013 com problemas persistentes, que o impediram de jogar boa parte das partidas. Isso fez com que perdesse o lugar na Seleção Brasileira.

E depois, porque seu nível técnico nunca foi dos melhores. Em forma, é um centroavante rompedor e oportunista, mas nem isso mostrou no ano passado. Em 48 partidas, marcou 13 gols, média de 0,270 gol por jogo, rendimento similar ao de Thiago Ribeiro, a quem deverá substituir no Santos. Em 26 partidas jogadas em 2013, Ribeiro fez 7 gols, média de 0,269.

Outro agravante é que Leandro Damião depende de um bom trabalho de meio de campo para ter chances para marcar. Hoje o Santos conta com Montillo e Cícero que funcionam como meias, mas nenhum tem sido um grande passador. Aliás, a posição mais carente do time é justamente a meia, e pelo investimento em Damião, é de se supor que o buraco continuará vazio.

Então, para resumir o lado ruim do negócio, chegaremos à conclusão que: 1 –O valor foi muito alto, ainda mais para um clube já endividado; 2 – A chance de recuperar o investimento é pequena, já que Leandro Damião não vem jogando bem e talvez apresente problemas clínicos e físicos; 3 – Técnica e taticamente ele acrescentará muito pouco ao time.

Visibilidade e respeito

Mas há também o lado positivo de uma transferência como esta. O ganho principal é a visibilidade. Por mais passionais e comprometidas que sejam algumas mídias esportivas, a presença no futebol paulista de um jogador que tem se destacado no futebol brasileiro não pode passar em branco. Damião não é craque, mas tem carisma e faz gols, características que podem levá-lo a ídolo dos santistas.

Com a visibilidade aumentam as chances de se conseguir um bom patrocinador máster, o que transformaria a dívida em investimento. Não dá para pedir uma alta verba de patrocínio sem um time de peso, e um nome como Damião pesa bem mais do que Thiago Ribeiro, Willian José Giva e quetais.

Um novo amigo santista, Georgios, lembrou-me ontem que ao montar um time mais forte, o Santos poderá finalmente fazer o jogo de volta com o Barcelona e faturar muito com isso. Confesso que não havia pensado nessa possibilidade, mas ela realmente existe. E se o Barça se recusar, cerca de R$ 10 milhões entrarão nos depauperados cofres da Vila.

Um negócio assim, traz, finalmente, o respeito que um clube grande precisa emanar, sempre, entre seus torcedores e sobre os rivais. Para os santistas do mundo, realizar a maior transação entre clubes na história do futebol brasileiro é mais uma primazia do Alvinegro Praiano que deve ser comemorada.

Há, ainda, para reforçar essa transferência, o fato de que o mercado do futebol não é regido pelas mesmas regras que determinam a vida e o futuro das empresas. O componente paixão é insignificante no frio ambiente corporativo, mas é decisivo no futebol. Sem ele, times não emocionam, não atraem adeptos, não entram para a história.

Sendo assim, percebe-se que o lado positivo da contratação de Leandro Damião está no intangível, no abstrato, no emocional – que, no futebol, podem se transformar, sim, em patrocínios maiores, em mais gente nos estádios, mais espaço na mídia, na atração de novos torcedores e mais respeito dos adversários.

E você, viu mais aspectos positivos ou negativos na contratação de Leandro Damião?