Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Month: fevereiro 2014 (page 1 of 2)

Poderia ser melhor. Mas também pior. Clássico é assim. Segue o jogo.

No meio da semana vi o São Paulo tomar um sufoco do São Bernardo e por um momento pensei que seria impossível o Santos perder o clássico no Morumbi. Sem ataque, com uma defesa desorganizada, o tricolor é a cara rabugenta do Muricy que o santista conhece bem.

Mas o futebol traz sensações após um jogo ou outro que se desvanecem depois de uma análise mais ponderada. Só sei que neste domingo, enquanto participava de um evento de tênis da Suzana para seus velhos amigos do Payneiras do Morumbi, disse ao Germano, outro santista, que o São Paulo bem poderia ganhar com um jogo defensivo associado a uma bola parada ou um cruzamento para a área.

Sim, confesso que devido às últimas atuações pouco convincentes do Santos e o fato de jogar em sua casa pudesse fazer o São Paulo vencer por 1 a 0, resultado típico do odioso Muricybol. Repeti ao Marcelo, um corintiano fanático que torceria pelo Santos, que como torcedor eu gostaria que o Santos encaixasse alguns contra-ataques e enchesse o gol do Rogério Ceni de bola, mas como jornalista deveria admitir que o São Paulo era favorito, e o resultado mais lógico seria 1 a 0.

A situação de ser um clássico equilibra os jogos desde que Moisés desceu do Monte Sinai com a primeira bola. Lembro-me que disse exatamente isso ao amigo e sócio João Pedro Bara quando ele comemorou ao saber que a Argentina seria o adversário do Brasil nas oitavas da Copa de 1990. Realmente, eles estavam caindo pelas tabelas, tinham perdido na estreia para a Camarões, mas contra o Brasil se defenderam com unhas e dentes e na única jogada em que Maradona e Caniggia apareceram meio livres, saiu o gol que mandou o time de Lazzaroni pra casa.

Assim é o futebol. E os números comprovam. Veja, amigo leitor e amiga leitora, que nos últimos dez anos Santos e São Paulo jogaram 36 vezes e o Santos venceu 16, perdeu 12 e empatou oito. Ou seja, desde 2004 o Santos tem apenas quatro vitórias a mais, além de ter feito um saldo de 12 gols nesse confronto.

Porém, na década anterior, de 1994 a 2004, era o São Paulo quem tinha um saldo cinco vitórias (16 contra 11), mais 10 empates. Arredondando os últimos 20 anos, teremos a vantagem de uma vitória para o time da capital (28 contra 27), mas um saldo de cinco gols favoráveis ao Santos. Ou seja, equilíbrio total.

Por tudo isso, não esperava nada muito diferente do que aconteceu no Morumbi. Imaginava que Leandro Damião pudesse crescer, pois os grandes jogadores crescem justamente nos grandes jogos. Acho, realmente, que ele mostrou presença, personalidade e não fosse a grande defesa de Rogério Ceni, seria o nome mais falado dos programas de segunda-feira.

Também vi Luis Fabiano roubar bolas de Gustavo Henrique. Nunca tive ilusão de que o garoto fosse indriblável, mas ao menos a bola que está sob controle, não pode ser perdida. De qualquer forma, o menino tem crédito.

Assim como tem muito crédito o goleiraço Aranha, o volante Arouca, o guerreiro Alan Santos. Quem está perdendo o crédito, ao menos comigo, é Thiago Ribeiro. Ele já jogou bem melhor do que isso.

No mais, sei que meus colegas de blog talvez tenham notado melhor os jogadores que se destacaram e os que falharam. Confesso que não esperava muito desse jogo e até me surpreendi com a entrega dos atletas. Alguns deram, literalmente, o sangue.

É claro que não gostei do árbitro e nem do nervosismo do técnico Oswaldo Oliveira. Ele pode ter até razão em muitas reclamações, mas, se é expulso, o time perde uma referência importante fora do campo. Portanto, controle-se, professor!

No mais, achei as substituições boas. Rildo e Gabriel podem, sim, brigar por posições no time titular. Mas Gabriel tem de treinar mais o pé direito. Tivesse 20% desse pé e teria feito o gol da vitória. E isso de ele dizer que seu sonho é jogar no Barcelona, só reflete a ausência de endomarketing que existe no Santos. Às vezes dá a impressão de que esses garotos estão todos impregnados. Nenhum foi devidamente orientado para valorizar o lugar onde ganham o pão.

São Paulo 0 x 0 Santos

São Paulo: Rogério Ceni, Paulo Miranda, Rodrigo Caio, Antônio Carlos e Álvaro Pereira; Maicon, Souza, Douglas (Paulo Henrique Ganso) e Pabon; Osvaldo (Ademilson) e Luis Fabiano. Técnico: Muricy Ramalho.
Santos: Aranha, Cicinho, Gustavo Henrique, Neto e Mena; Arouca, Alan Santos (Gabriel) e Cícero; Thiago Ribeiro, Leandro Damião e Geuvânio (Rildo). Técnico: Oswaldo de Oliveira.
Público: Público: 16.337 pagantes. Renda: R$ 429.610,00.
Arbritagem: Rogério Cen…, ou melhor, Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza (SP), auxiliado por Emerson Augusto de Carvalho e Marcelo Carvalho Van Gasse (ambos de SP).
Cartões amarelos: Rodrigo Caio, Álvaro Pereira e Osvaldo (São Paulo); Geuvânio, Neto, Cicinho e Gustavo Henrique (Santos).

Melhores momentos do jogo:
http://youtu.be/yMFvpzbom9M

E pra você, o que este 0 a 0 com o São Paulo significou?


Para se tornar o maior, primeiro é preciso ser o melhor

Logo mais teremos o Santos jogando contra o São Paulo no Morumbi. Vamos assistir, analisar com calma e deixar nossas impressões neste blog. Até mais.


http://www.metrojornal.com.br/nacional/colunistas/numeros-superfaturados-68162

david e golias
David versus Golias, a bíblica vitória do melhor sobre o maior.

Há muitos anos havia uma propaganda dos Postos Atlantic, que dizia: “Quem não é o maior, tem que ser o melhor”. E mostrava como os clientes de seus postos eram tratados com mais atenção do que nos outros. Creio que essa história de limpar os vidros e calibrar os pneus deve ter começado aí. Pois agora, queridos leitores e leitoras, só resta ao Santos ser o melhor, no sentido de o mais eficiente.

E ser o mais eficiente deve implicar também trabalhar mais, dedicar-se mais ao clube. Na minha visita à “Padaria do Carlinhos”, ele me contou que o presidente do Palmeiras, Mustaphá Contursi, enviava umas peruas Kombi antes dos jogos do time no Interior de São Paulo. Esse pessoal das kombis chegava pela manhã nos dias de jogos, armava um churrasco em uma praça central da cidade e transformava ali em um ponto de encontro dos palmeirenses, ou simpatizantes. O Carlinhos acha que o Santos deve fazer algo parecido, aproveitando os jogos no Interior para divulgar o clube e cativar as pessoas.

O decantado caminhão com os produtos oficiais do clube poderia, finalmente, sair dos sonhos e da garagem. Os veteranos teriam uma ocupação remunerada e a marca e as histórias do Santos se espalhariam pelas rodas de futebol do Estado.

É claro que isso dará mais trabalho. Tem gente que não folgará mais no domingo. Mas se não se dedicar um pouco mais do que os outros, o Santos ficará na mesma, e a mesma significa permanecer em uma posição subalterna com relação a muitos de seus concorrentes.

Quem não tem mais torcida, o maior faturamento, o melhor estádio, têm de ser mais criativo, abnegado e, repito, eficiente. É preciso ser governado por pessoas mais competentes e ter em seus cargos principais profissionais de grande capacidade. Um clube como o Santos não poderia ter se transformado em um grande cabidão de empregos, como ocorreu. Não existe mágica. Esta incômoda coadjuvância não será revertida com a fortuna de revelar mais alguns garotos de ouro. Até os deuses do futebol ficam de saco cheio com tanta inoperância e incompetência.

Às vezes acho que o colega Anos60, que se chama Douglas, exagera nas suas críticas à administração do clube, mas, pensando bem, é preciso fazer esse alerta enquanto dá tempo de se tentar alguma coisa. Logo mais a situação será irreversível, pois a distância do Santos para outros adversários mais bem estruturados tenderá a aumentar.

É preciso buscar visibilidade promovendo melhor seus jogos e atuando nos lugares onde o Santos tem grande torcida, nem que seja preciso viajar a cada rodada; é preciso trabalhar incansavelmente em busca de patrocinadores (que negócio é esse de passar um ano sem patrocínio máster?); é preciso pesquisar profunda e cientificamente antes de fazer as contratações.

A cada ano surgirão jogadores de destaque vindos de equipes menores. O clube que melhor pesquisar e melhor atuar para detectá-los e contratá-los, terá uma vantagem enorme. Contratar pela fama é um dos piores erros que uma agremiação em delicada situação financeira pode incorrer. Se o jogador não vingar, o alto investimento paralisará o clube por um bom tempo. Infelizmente, é o que pode acontecer agora no caso de Leandro Damião…

O desafio que se impõe ao Santos neste momento de sua história exige criatividade e trabalho para ser vencido. É preciso determinação para, primeiro, ser o melhor, o mais eficiente, e depois caminhar para ser o maior. O caminho pode ser longo, mas mesmo o mais longo dos caminhos começa com o primeiro passo.

E pra você, o que o Santos deve fazer para ser o melhor?


Uma derrota para se lembrar

Dizem que derrotas miseráveis, como esta que o Santos sofreu para o Penapolense, devem ser esquecidas. Eu já acho que não. Se os erros são esquecidos, voltam a ser cometidos. E se voltar a jogar assim, este Santos não só não brigará por título algum, como decepcionará aqueles que julgavam estar vendo nascer mais um Alvinegro Praiano digno de sua história.

O primeiro grande problema está retratado nesta enquete que o blog mantém aí do lado direito. Veja que 52% dos santistas pediam – e ainda pedem, mas agora inutilmente – que a diretoria desfizesse a compra do passe de Leandro Damião. E a torcida do Santos, em sua maioria, é sábia. Ela já está calejada com negócios mal feitos e percebe de longe quando os homens que dirigem o clube vão fazer mais um.

Uma presidência que não consegue fechar com patrocinador máster, deveria ter a hombridade de não fazer uma dívida de 42 milhões de reais, que será paga pela presidência que a suceder. E, pior ainda, jamais deveria comprometer as finanças já combalidas do clube para trazer um jogador que, qualquer um que enxergue um centímetro de futebol sabe, não tem habilidade, não irá para a Copa e não vale nem 20% do que foi pago por ele. Ou seja, é prejuízo líquido e certo (é claro que eu quero queimar a língua, mas, infelizmente, temo que isso não ocorrerá).

Com Damião, que não tem culpa alguma da incompetência dos dirigentes santistas, o Santos voltou a ser um time previsível, mais lento, que vive jogando a bola na área na esperança de que o novo contratado empurre umazinha para dentro do gol. A jogada de velocidade acabou, os dribles escassearam, com exceção dos que partem dos pés de Geuvânio.

O bom e aguerrido Penapolense, do santista Narciso, entrou disposto a diminuir os espaços e se aproveitar dos erros do Santos. Deu certo. No primeiro erro grave, Leandro Damião, atuando como zagueiro, cometeu pênalti infantil (o que um atacante de 42 milhões faz jogando como beque contra o Penapolense?!). No segundo, Thiago Ribeiro tropeçou na bola ao puxar o contra-ataque e deixou a defesa do Santos com as calças na mão.

Não fossem esses erros, provavelmente o resultado seria outro, pois o Penapolense não teria espaço para seus contra-ataques, mas a verdade é que essa foi uma boa derrota, pois ensinou muito mais do que uma vitória inconvincente faria.

Os laterais Cicinho e Mena apoiaram e defenderam mal, principalmente o primeiro, que abusou do direito de errar (acho que os laterais que atuaram na Copinha merecem a oportunidade de treinar com o time principal). Cícero rebolou mais que a rainha da bateria da X9. Thiago Ribeiro foi nulo, assim como o caríssimo Damião. Até nosso querido Gustavo Henrique dessa vez jogou mais deitado do que em pé e, devido aos carrinhos, acabou expulso.

No meio, Alan Santos apareceu mais do que Arouca, que sumiu. Aranha, de defesas tão seguras em outros jogos, parece que desta vez tinha patas a menos. Oswaldo Oliveira demorou muito para mexer no time. Cicinho, Cícero e Thiago Ribeiro, ou Leandro Damião, deveriam ser substituídos no máximo aos 15 minutos do segundo tempo.

Concordo que a arbitragem não viu impedimento no segundo gol do Penapolense, mas viu em uma jogada legal, em que Neto sairia livre na frente do gol.

Concordo também que Muller é o pior comentarista do mundo para ser escalado em jogos do Santos, pois passa o tempo todo dizendo como o adversário deve fazer para ganhar e acha que todas as marcações da arbitragem devem ser contra o Santos. Ele devia pensar que estava falando apenas para a enorme torcida do Penapolense em todo o Brasil. Que coisa horrível que é o Muller como comentarista! Parece que o fracasso lhe subiu à cabeça.

O Campeonato Paulista é a competição ideal para renovar a equipe, testar garotos, montar um time jovem, ousado e competitivo. Porém, mais uma vez caminhando contra a lógica e contra a vontade da maioria dos santistas, a diretoria do Santos, agora presidida pelo sr. Odílio Rodrigues – que deve entender de medicina, mas de futebol não manja bulhufas – investe o que o clube não tem em Leandro Damião e deixa o técnico Oswaldo de Oliveira numa saia justa tremenda. Como deixar no banco um bond…., quero dizer, um centroavante, tão caro?

Pelo jeito, aqueles dois 5 x 1 seguidos ficarão na nossa memória como lembranças de um time que poderia ter sido, mas não será mais. Quando o marketing escalou Leandro Damião, matou o espírito daquela equipe. Agora quero ver como o clube vai se livrar desse mico.

Os gols de Penapolense 4 x 1 Santos:
http://youtu.be/T0ORpBVAW_c

E você, acha que é cedo para dizer que Leandro Damião é um mico?


Joel Camargo, João Saldanha e as versões da história do futebol

Hoje é a festa na Padaria A Santista, a Padaria do Carlinhos

carlinhos, edmar, chacrinha
Da esquerda para a direita: Carlinhos, o visitante Edmar Junior e Chacrinha, na Padaria A Santista.

É hoje, sábado, 15 de fevereiro, que o Carlinhos organiza a sua festa. Passarei lá pela manhã, mas não poderei ficar devido a um compromisso familiar inadiável. Eternos craques santistas estarão presentes. Se você puder ir, não perca.

Serão vendidas camisetas da “Banda da Padaria A Santista”, com o tema “Deuses do Futebol, Carnaval 2014”, e dos cinco homens do ataque de ouro – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

Anote o endereço da Padaria A Santista: Rua Epitácio Pessoa, 312, canal 5.

Várias empresas estão apoiando a banda. São elas: Grupo Isis, Satel, Embraps, Nelcar Transportes, Terracom, Rede Santista de Postos e EFBS Seafrigo.

Deixarei 18 exemplares do Dossiê para que sejam vendidos e a renda revertida para o evento. Se você estiver por lá nesta manhã, já sai com uma dedicatória.

brasil com 8 do santos
Com oito titulares do Santos (o goleiro Cláudio perdeu a posição por grave contusão no joelho), a Seleção Brasileira dirigida pelo técnico João Saldanha inaugurou o Estádio Batistão, em Aracaju, na noite de 9 de julho de 1969, diante de 45.058 pessoas. Toninho Guerreiro marcou o primeiro gol do estádio e mais outro no transcorrer da partida. O primeiro sergipano a marcar, ironicamente, foi Clodoaldo, da Seleção Brasileira (Vevé fez o primeiro para a Seleção de Sergipe). O Brasil venceu por 8 a 2. A partida foi arbitrada por Armando Marques, considerado o melhor árbitro brasileiro na época. Na foto, a Seleção Brasileira que começou o jogo: Carlos Alberto (Santos), Felix (Fluminense), Djalma Dias (Santos), Clodoaldo (Santos), Joel Camargo (Santos) e Rildo (Santos). Agachados: Jairzinho (Botafogo), Gérson (Botafogo), Toninho Guerreiro (Santos), Pelé (Santos) e Edu (Santos).

Mais detalhes de Seleção Sergipana 2 x Seleção Brasileira 8:

O assunto que está entalado na garganta é Leandro Damião, mas estou engolindo em seco para dar mais tempo ao rapaz. Enquanto isso, gostaria de tocar novamente em um tema crucial para nós, santistas: as versões tendenciosas que a imprensa esportiva e mesmo livros e filmes criam para a história do futebol.

Bem, na verdade não há história sem alguma parcialidade, pois o narrador transmite a sua versão dos fatos. Digo isso só para reforçar o quanto é importante ter pessoas que se preocupam em pesquisar, checar e passar a limpo a rica história do Santos. Sem esses abnegados, teríamos de conviver com uma sistemática distorção dos acontecimentos.

Faço esse preâmbulo para o artigo que se segue, pois ele se refere ao Santos da segunda metade da década de 60, o time-base das “Feras do Saldanha”, um dos grandes esquadrões da história do futebol brasileiro, esquecido deliberadamente mesmo por quem, em livros ou filmes, se dispõe a retratar aquele período do nosso futebol.

Antes de entrar no post, permita-me lembrar só uma piadinha que se contava nos tempos da Guerra Fria, em que as imprensas de Estados Unidos e União Soviética distorciam a realidade para que ela se encaixasse na teoria de superioridade ideológica que pregavam: um norte-americano e um soviético fizeram uma corrida e o norte-americano venceu. Nos Estados Unidos os jornais estamparam: “Americano vence e soviético fica em último.” Na União Soviética, os títulos anunciaram: “Soviético termina em segundo, norte-americano fica em penúltimo.”

odir e joel
Com o grande Joel Camargo, um dos melhores zagueiros da história moderna do futebol (Foto: Aline Floriz)

Semana retrasada estive em Santos e tive a honra e o prazer de entrevistar, para o Museu Pelé, o enigmático Joel Camargo, o “Açucareiro”. 17 anos de futebol, 20 de estiva, e Joel, um dos mais clássicos quartos-zagueiros do futebol, pôde se aposentar em paz. Falamos do Santos e, é claro, das “Feras do Saldanha”, Seleção Brasileira que disputou as Eliminatórias para a Copa do México com seis santistas entre os titulares: Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel Camargo, Rildo, Pelé e Edu. Lembramos fatos que ficam esquecidos na memória do futebol, a não ser quando alguém interessado lembra deles.

“No começo éramos nove; depois, com a mudança de técnico (de João Saldanha para Zagalo), restamos cinco. Quando anunciaram a entrada do Zagalo, eu já sabia que, com ele, eu não iria jogar”, disse-me Joel.

Ele se referia aos nove jogadores santistas chamados por João Saldanha na primeira convocação da Seleção Brasileira, em 6 de fevereiro de 1969. Nela estavam o goleiro Cláudio, os laterais Carlos Alberto Torres e Rildo; os zagueiros Djalma Dias e ele, Joel; o meio-campo Clodoaldo e os atacantes Pelé e Edu. Apenas Negreiros e Manuel Maria, dos titulares do Santos, não foram chamados (Manuel Maria depois figurou em uma lista maior, com 40 nomes).

“Não é segredo para ninguém que o Santos é o melhor time do Brasil”, disse Saldanha no dia em que anunciou os convocados. “E como não temos muito tempo para as Eliminatórias, vamos usar esse entrosamento do Santos para o bem da Seleção”.

E assim o Brasil fez os jogos de ida e volta contra Paraguai, Colômbia e Venezuela, utilizando-se de meia dúzia de santistas entre os titulares. E com esse Santos-Brasil venceu ao Paraguai por 1 a 0, em 31 de agosto de 1969, estabelecendo o recorde oficial de público do Maracanã, com 183.341 pagantes. O gol surgiu após jogada de Edu, que driblou seu marcador e chutou rasteiro, o goleiro rebateu e Pelé entrou de bico para estufar as redes e garantir a presença do Brasil na Copa do México.

“Você está no recorde oficial de público do Brasil”, disse a Joel, que, no entanto, se mostrava mais preocupado em falar de Toninho Guerreiro, a maior vítima da mudança de técnico na Seleção. Com a saída de João Saldanha, o presidente da República, Emilio Garrastazu Médici, finalmente realizou o seu sonho ao ver o subserviente Zagalo convocar o atacante Dario, o Dadá Maravilha, sacrificando Toninho Guerreiro, que assim perdeu sua única oportunidade de participar de uma Copa do Mundo.

No livro “João Saldanha, uma vida em jogo”, o autor, André Iki Siqueira, fala sobre o episódio entre o final da página 331 e o começo da 332, reproduzindo as impressões de Saldanha sobre a pressão para cortar Toninho Guerreiro e convocar Dario:

– Quiseram impor o Dario. Ele era de bom nível, mas os meus eram craques. Meu time era uma máquina. Não tinha lugar para ele, não.
E escalar Dario no lugar de quem?
Antonio do Passo e João Havelange, segundo o técnico, apelavam diariamente:
– Pelo amor de Deus, convoque o Dario.
Pois de um dia para o outro, na primeira quinzena de março, o dr. Lídio Toledo cortou da Seleção Toninho Guerreiro, alegando sinusite. Era um atacante que, alguns anos depois, encerraria a carreira com mais de 400 gols.
– Toninho era o trunfo do time, porque se o Pelé ou o Tostão não pudessem jogar, ele entrava que nem uma luva – argumentaria João, que considerava o corte suspeito. – Caramba, eu tenho sinusite desde criança, e nunca me atrapalhou para fazer esporte. E essa sinusite do Toninho é conhecida há dez anos. Mas cortaram o Toninho.

Toninho Guerreiro tinha 27 anos e estava no auge de sua forma quando a Copa de 1970 foi disputada. Meses depois do Mundial, em setembro de 1970, ele seria artilheiro do Campeonato Paulista e conquistaria seu quarto título consecutivo do Estadual (os três anteriores foram pelo Santos). Com mais um, em 1971, Toninho entraria para a história como o único pentacampeão da história do Campeonato Paulista.

Joel sabe que, se dependesse exclusivamente de Saldanha, não só Toninho iria para o México, como ele, Joel, seria o titular da quarta- zaga, ao lado de Brito. Provavelmente Djalma Dias, mais clássico, continuaria titular, em vez do truculento Brito. Joel me diz que se sentiria mais campeão se tivesse jogado. Compreendo sua queixa, mas lhe respondo que ao menos para nós, santistas, ele é tão campeão quanto Piazza, que Zagallo improvisou na quarta-zaga.

O livro e o filme sobre Saldanha: visões diferentes

Assisti, mas não vi no filme “João Saldanha”, documentário produzido a partir do livro escrito por André Ike Siqueira, o mesmo enfoque da vida do notável jornalista esportivo que se percebe nas páginas da obra. As menções a qualquer outro time são reduzidas a quase zero, como se Saldanha não fosse um homem do futebol, e sim exclusivamente do Botafogo. O nome “Santos” não aparece uma única vez, muito menos os de seus jogadores.

O filme se restringe ao Saldanha comunista, brigão-cascateiro e botafoguense. Óbvio que ele se tornou um ídolo da história do Botafogo, mas sua sinceridade o fez produzir uma das frases mais elogiosas ao Alvinegro Praiano, e esperei por ela, ou ao menos pelos conceitos que levaram Saldanha a incluir praticamente o Santos inteiro entre as suas “Feras”. Mas, em vão.

Estou cansado de saber que a história é uma só, mas jamais é contada de uma única maneira. Há sempre o maldito ângulo do observador. Sei que André Ike, o autor do livro “João Saldanha, uma vida em jogo”, é apaixonado pelo personagem João Saldanha, mas se mantém eqüidistante com relação ao Botafogo, pois seu time de coração é o Vasco. Entretanto, Beto Macedo, seu parceiro na direção do filme, é definido pelos amigos como “um grande botafoguense”, o que deve explicar o espaço desmedido dado ao time carioca.

A verdade é que por mais que Santos e Botafogo tenham se unido para dar ao Brasil a conquista definitiva da Jules Rimet, os times de Pelé e Garrincha foram grandes rivais daqueles tempos de ouro do nosso futebol. E torcedor dificilmente elogia o rival.

Por isso, é importante que surjam livros, filmes, exposições, matérias em jornais e revistas que contem a verdadeira história do futebol e do Santos. Este é um dos motivos pelos quais defendo que o marketing do Santos incentive e não penalize autores e editoras que se interessem por produzir obras sobre o clube. Que nessas obras não se invente ou aumente nada, obviamente, mas que não se deixe de lado informações e detalhes essenciais para se entender a real dimensão do Alvinegro Praiano.

Sempre que se fala de “As Feras do Saldanha” é obrigatório lembrar que a maioria delas veio da Vila Belmiro, que 54,5% do time titular do Brasil nas Eliminatórias era composto por jogadores do Santos e que certamente seria assim no México caso Saldanha não fosse substituído por Zagalo, para conforto do governo militar. Acho que não dá para contar a história do polêmico jornalista e do futebol brasileiro daqueles tempos sem lembrar desses… detalhes. Dá?

Cenas pesquisadas por Wesley Miranda de Brasil 1 x 0 Paraguai, o último jogo oficial das Feras do Saldanha, com seis santistas na Seleção. Jogo do recorde oficial de público do Maracanã:

Santos x União Soviética

Por Guilherme Nascimento

Desde as “mal contadas” por que não foram bem contadas até aquelas que “não podem ser bem contadas”…
Uma passagem pouco conhecida é o amistoso contra a URSS em plena guerra fria, em 1962. Reacionários e direitistas de plantão não queriam que o alvinegro enfrentasse a forte União Soviética em solo brasileiro (“não temos relações diplomáticas”, “propaganda comunista” e outras bobagens semelhantes). O amistoso era para ter ocorrido no Maracanã, mas Carlos Lacerda (Governador da GB e golpista de primeira hora em 1º de abril de 64) impediu a apresentação santista por questões evidentemente políticas. Em São Paulo, os dirigentes do chamado “trio de ferro” e em especial Wadih Helou (SCCP) e Laudo Natel (SPFC) faziam coro aos indignados que não admitiam a presença dos vermelhos em nossa pátria. A “lenga-lenga do “joga não joga” durou uns 10 dias, até que o Presidente da FPF (Mendonça Falcão), bateu o martelo: “Tem jogo, e no Pacaembu!”… Desta forma, enfrentando e superando o atraso daqueles que misturam futebol e política (e os direitistas e golpistas de 64), o Alvinegro bailou sobre os soviéticos vencendo por 2×1 e ainda faturou um troféu. Mostrou porque era o campeão Mundial, representou o futebol brasileiro com categoria e evidenciou que os soviéticos podiam ser bons no Bolshoi ou no Sputnik, mas que no futebol tinham muito o que aprender com Pelé e Cia.

10/12/1962 Santos FC 2×1 URSS – 1978
L: Pacaembu – São Paulo (SP)
D: 2ª feira
C: Amistoso
R: Cr$ 9.469.500,00
P: 27.839
A: João Etzel Filho
G: Coutinho 34′ e Pelé 78′ – Valery 12′
SFC: Laércio, Mauro e Zé Carlos; Dalmo, Calvet e Zito; Dorval, Lima, Coutinho, Pelé e Pepe (Tite)
Tecnico: Lula
Uniforme: Camisas brancas
URSS: Kotrikadze; Gnodi, Mexey e Danilov; Stanislaw e Vassily; Oleg, Vicot, Yuri (Kanievsky), Anatole (Sabo) e Valery.
Técnico: Solovjev

Minha coluna no Jornal Metro desta sexta-feira:
http://metrojornal.com.br/nacional/colunistas/mico-damiao-66104

Que outras histórias mal contadas sobre o Santos você conhece?


Da Olimpíada de Inverno à decadência do futebol de clube brasileiro

Por Tana Blaze, da Alemanha

1 – Rejeição popular nos países alpinos ao COI e o legado de Ricardo Teixeira

Munique, a capital da Baviera, junto com três outros municípios bávaros na região dos Alpes pretendia candidatar-se novamente para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, tendo ótimas chances de ser escolhida. Munique seria a primeira cidade do mundo a ter sediado jogos olímpicos de verão (1972) e de inverno (2022), um efeito de imagem espetacular. Tanto o prefeito de Munique, reeleito ao cargo durante 20 anos seguidos, como personalidades esportivas estavam eufóricas e otimistas, apoiando o projeto. Dinheiro não teria sido problema.

Mesmo assim haviam surgido movimentos de oposição na população contra a candidatura olímpica, o que levou o governo da Baviera a realizar um plebiscito em 10 de novembro de 2013 nos quatro municípios em questão. A derrota da candidatura olímpica em cada um dos quatro municípios foi surpreendente num país que tem uma tradição olímpica e de medalhas muito forte.

Foram varias as razões para a rejeição, uma delas a imagem negativa do COI-Comitê Olímpico Internacional, com uma historia de corrupção, também por parte dos delegados de outros países, considerados indesejados, exigindo investimentos milionários das cidades anfitriãs e impondo contratos que beneficiam primordialmente os patrocinadores. Tudo isto irrita os cidadãos, mesmo havendo dinheiro publico suficiente para organizar os jogos nestas condições.

Já anteriormente em março de 2013 os eleitores do Cantão de Grisões (St. Moritz e Davos) na Suíça e da capital austríaca Viena haviam vetado em plebiscitos respectivamente as candidaturas para dos jogos olímpicos de inverno de 2022 e de verão de 2028.

Embora a FIFA não tenha nada a ver com jogos olímpicos, curiosamente na analise da imprensa alemã sobre o veto dos cidadãos à candidatura de Munique, o nome dela apareceu em alguns artigos ao lado do COI. A população parece associar a historia de corrupção nas duas entidades e as escolhas muito patrulhadas de Sochi e Catar em boa parte por razões alheias ao esporte, que sediarão olimpíadas de inverno e uma copa do mundo.

A reputação da FIFA foi arruinada principalmente por dois brasileiros, o presidente Havelange e o membro do Comitê Executivo até março de 2012, seu genro Ricardo Teixeira, quando no tramite da insolvência da ISL- International Sport and Leisures foi desvendado que Havelange e Teixeira tinham auferido para os seus bolsos propinas num total de vários milhões de Francos Suíços.

O nome de Ricardo Teixeira saiu inúmeras vezes em jornais europeus nos últimos anos quase sempre associado a desmandos. Escrevia o prestigioso Süddeutsche Zeitung alemão em 9 de agosto de 2011: ”Funcionário da FIFA Ricardo Teixeira intocável, autoconfiante, corrupto“, “Metade do lucro é seu, perdas estão a cargo da CBF…” e “Dez anos atrás, o relatório de 1129 paginas da ultima investigação da Câmara de Deputados e do Senado, atestou ser a CBF de Teixeira um lugar criminoso, onde dominam a anarquia, a incompetência e desonestidade. Ao funcionário mafioso Teixeira foram dedicadas 536 páginas com dúzias de desmandos, desde a falsificação de contratos até a especulação cambial com dinheiro da CBF, cujos lucros ele próprio tinha embolsado.”

O igualmente prestigioso The Times inglês num artigo sobre a FIFA de 15 de julho de 2012: “He (Havelange) and his former son-in-law, Ricardo Teixeira, exploited their powerful positions in world football to benefit from mammoth bribes” (beneficiaram de subornos-mamute).

O Le Figaro francês define: “le football brésilien, structurellement gangréné par la violence des supporteurs et la corruption de ses dirigeants.“ (18/6/2013). Como se constata, as federações brasileiras estão fazendo o que podem para contribuir para a imagem do Brasil no mundo.

Com o pagamento de uma multa de 2,5 milhões de francos Ricardo Teixeira escapou de um processo na Suíça (The Telegraph 12/07/ 2012) e se tiver sido culpado apenas de uma fração dos desmandos que lhe foram imputados ao longo de três décadas, restaria questionar porque no Brasil todos os processos contra ele foram trancados ou arquivados, como pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região no Rio de Janeiro em Março de 2012, e porque nenhum juiz tentou evitar a sua saída do Brasil, fato que inevitavelmente suscita especulações.

Uma das especulações seria que Ricardo Teixeira permaneceu imune, para que os direitos de imagem do Brasileirão fossem vendidos para a Globo, passo fundamental para promover a distribuição arbitraria de centenas de milhões de reais televisivos.

As anomalias na distribuição do dinheiro dos patrocínios pela Globo parecem não se limitar apenas à espanholização favorecendo o Flamengo e Corinthians. Tome-se como exemplo o Botafogo, que no seu balanço de 31 de dezembro de 2012 mostra um patrimônio liquido de 574 milhões de reais negativos financiados por 401 milhões de reais de adiantamentos de receitas televisivas. Se tomássemos como base a receita televisiva de 48 milhões de reais auferida em 2012, o Fogão teria torrado a sua receita televisiva de oito anos vindouros e teria que sobreviver nos próximos anos essencialmente das bilheterias de jogos, como o da 2° rodada contra o Santos em Volta Redonda com 1.186 pagantes. Não consta se por detrás da Globo há um avalista da dívida botafoguense, mas é evidente que a dívida terá que ser perdoada ao Botafogo, não havendo possibilidade sequer de pagar juros de mercado sobre ela. O não pagamento de juros significaria uma subvenção anual suplementar de no mínimo de 30 milhões de reais anuais.

Tome-se o Flamengo que em 31 de dezembro 2012 mostra no seu exigível receitas a realizar totalizando 839 milhões de reais. A nota explicativa não está disponível, mas é provável que o grosso sejam adiantamentos de receitas televisivas dos anos futuros por parte da Globo. Se fossem imputadas taxas de mercado sobre o seu exigível superior a um bilhão, o Fla teria que pagar juros anuais de 100 milhões de reais. Quem paga? Quem perdoa? À custa de quem?

Parece provável que clubes paulistas, gaúchos e mineiros verão minoradas as suas receitas televisivas no futuro em relação ao que seria possível, para que a Globo possa compensar o risco dos adiantamentos-mamute concedidos aos clubes cariocas, perdoando dividas, facilitando nos juros ou por outros favorecimentos.

A estratégia da Globo parece ser enriquecer dois clubes para a espanholização, salvar os clubes cariocas completamente falidos, e manter a maioria dos outros clubes bem mais eficientes na UTI para que dependam de seus adiantamentos e não tenham força de se desatar dos contratos longos e fundar uma liga soberana e independente. Como veremos, a vitima deste sistema é a qualidade do futebol de clube brasileiro.

2 – Os desmandos e as irregularidades da CBF, FPF e do STJD

Não chega ser surpresa ver o que acontece no dia a dia nas Federações, que foram durante 23 anos a escola do Ricardo Teixeira. Na memória recente santista, os desmandos e irregularidades das federações foram quase cotidianas.

Seja convocando jogadores santistas em partidas de campeonato e poupando os de outros times, como o Paulinho do Corinthians. O Sr Marco Polo del Nero não impediu que o Santos, um clube a ele federado, fosse obrigado a jogar contra o Palmeiras no Brasileirão no dia 10 de julho de 2011 sem 6 jogadores convocados, Neymar, Ganso e Elano, para a Copa America e Danilo, Alex Sandro e Alan Patrick para o Mundial Sub-20, contra o e perdesse consequentemente por 3×0. Este jogo foi apenas um entre vários, algo inconcebível e com consequências legais na Europa.

Seja permitindo em abril de 2012 a antecipação relâmpago do jogo pela Libertadores contra o Bolívar em La Paz para 4 dias antes de um clássico mata-mata para cansar o Santos a 3800 metros de altura e com dois dias de viagem e ao mesmo tempo descansar o São Paulo, permitindo a anulação do jogo do São Paulo 4 dias antes do dito clássico, num campo em que a chuva havia parado 40 minutos antes do inicio da partida e os rodos estavam escondidos, o pessoal se recusando a enxugar o campo, conforme relatou o observador da FPF José de Assis Aragão. Mas as poças de agua devidamente fotografadas e as federações não exigiram jogar a partida em 24 horas, como prevê o regulamento. Esta coincidência incrível de inciativas ou omissões das Federações ficará nos anais esportivos, também porque o Santos acabou goleando o São Paulo. A bola puniu.

Seja não permitindo o convidado Santos a jogar a Copa Audi do Bayern, mas depois deixando o São Paulo. Seja marcando dois jogos do Santos da Copinha e no Paulista no mesmo horário. Seja tentando banir a torcida do Santos na final da Copinha de 2014 ao Tobogã. Não sabemos se foi irregularidade, mas calculem a probabilidade para que o campeão da Copa Brasil Sub-20, o Santos, e o vice Criciúma, entre 104 times sorteados para 26 (!) grupos, parem no mesmo grupo. Sabendo-se que um só time poderia avançar, estando assim decretado que um dois favoritos ao titulo fosse eliminado no inicio da competição.

Neste contexto também não é surpresa ver os auditores STJD achando que o regulamento de uma entidade brasileira de direito privado, como o da CBF, não estaria sujeito às leis brasileiras e à constituição brasileira. Uma Lei Federal em vigor há 10 anos exigindo explicitamente a publicidade para as punições da justiça desportiva não se aplicaria ao tribunal deles e ao regulamento da CBF.

Não poucas viradas de mesa do STJD e de seus órgãos precursores foram baseadas na retirada ou não de pontos ou anulação ou não de resultados. Retiram-se pontos que não prejudicam um São Paulo, como no caso Sandro Hiroshi, para salvar um Botafogo do descenso. Retiram-se pontos da Portuguesa e para manter as aparências também do Flamengo, algo que não prejudica o clube da Gávea, para salvar o Fluminense. Rebaixar mais de um clube carioca além do Vasco, algo que não pode acontecer. Aliás, salvo de forma irregular na Séria A pela terceira vez.

O advogado que defendeu o Gama em 1999, Paulo Goyaz, indicou como fator decisivo para a vitória do Gama contra a CBF e o STJD na Justiça Comum, a tirada do processo do Rio de Janeiro: “a CBF sempre costuma tentar decidir suas questões jurídicas em tribunais do Rio de Janeiro. Com o Gama, chegou a conseguir, por meio do Botafogo, derrubar liminar do clube no judiciário carioca. ”Houve um conflito de competência e o STJ acabou definindo que o tribunal do Distrito Federal é que tinha competência, assim a CBF perdeu.” (UOL,29 /12/2013).

3 – A confusão dos campos e os julgamentos dos STJD

Podemos considerar que a Portuguesa foi o time mais prejudicado quanto aos impedimentos, porque existe uma pesquisa abrangente baseada nos 380 jogos do campeonato, que mostra que em termos de impedimentos mal marcados no Brasileirão de 2013 o Corinthians foi o mais beneficiado e a Portuguesa a mais prejudicada. Especificamente a defesa do Corinthians foi beneficiada por 19 impedimentos adversários marcados de forma errada e a da Portuguesa por apenas 8. Ao mesmo tempo 15 ataques da Portuguesa foram interrompidos pela marcação equivocada de impedimento, sendo o ataque do Corinthians foi prejudicado apenas 9 vezes. (Globo, 21/12/2013).

Ao todo 10 ações de ofensa ou desrespeito de jogadores contra juízes, incluindo a do Héverton, foram registradas nos relatos oficiais dos 380 jogos do Brasileirão de 2013. Destas, o STJD absolveu ou advertiu cinco jogadores sem qualquer suspensão puniu um jogador com suspensão de uma partida e puniu quatro jogadores com suspensão de dois jogos (Willie do Vasco, Felipe Jorge do Flu, Gilberto e Héverton da Lusa).

O jogador Héverton, foi punido com dois jogos porque contra o Bahia se dirigiu ao arbitro dizendo: “porra, caral…, você é um merda, está com medo dos caras! Só isso de acréscimo?” Em comparação, um dos jogadores apenas advertido sem ser suspenso, o Willians do Internacional, após ter recebido cartão amarelo no jogo contra o Santos, atingiu um adversário com carrinho, matando um ataque promissor. Vendo o cartão vermelho disse ao arbitro: “vai tomar no seu c…”.

Conclui-se que para o STJD mandar um arbitro “tomar no c…” não é ofensa para suspensão, apenas para advertência, mas achar que o arbitro “é um merda” leva a suspensão de dois jogos. Se fosse confrontando com a comparação destes dois julgamentos, o STJD iria justificá-los com os seus chavões sem nexo, como o da “comparação descontextualizada”.

Então injustiças berrantes do STJD a todos os níveis. O Flu e o Cruzeiro escalam jogadores impedidos em jogos que valem pontos e um titulo de campeão e seus pontos são mantidos. Mas a Portuguesa escala um jogador impedido num jogo que nada valia e pontos são tirados para que seja rebaixada.

4 – Como o sistema da Globo e as injustiças esportivas debilitam o futebol de clube brasileiro

Voltando do picadinho ao macroeconômico, exemplificaríamos que a força econômica dos Estados Unidos está para a do Brasil, como a do futebol de clube europeu está para o futebol de clube brasileiro. O que separou os Estados Unidos e o futebol de clube europeu do Brasil foi primordialmente a justiça, na qual os irmãos do norte tendem a confiar, apesar de muitas deficiências e erros. Uma justiça forte que ao longo das décadas garantiu que os melhores e mais eficientes se impusessem dentro das normas da lei e servissem de motor e exemplo para o progresso, sendo a falência e o descenso dos ineficientes aceita como fato saneador.

Foram lendárias as batalhas dos Estados Unidos contra os trustes, desde o desmantelamento da Standard Oil até as imposições à Microsoft de para que browsers e outros aplicativos de empresas concorrentes pudessem sem rodados na sua plataforma. Quem no rastro do episodio Netscape viu o homem mais rico do mundo, Bill Gates, entrando nos tribunais como capitalista feroz, para finalmente sair dos tribunais gaguejando, com a sua plataforma aberta e como maior filantropo da atualidade, tem ideia do que é uma justiça potente.

Enquanto que alhures se detonam trustes, no futebol brasileiro segundo a opinião de muitos, se implantou o truste da Globo que concentra numa só mão o poder esportivo, o dinheiro e a (in) justiça desportiva. A CBF teria passado a funcionar como mero departamento da Globo, o que o grande jogador Alex definiu da seguinte forma: “A CBF cuida apenas da Seleção Brasileira. Quem realmente cuida do futebol brasileiro é a Globo”(Lancenet 9/8/2013).

A recente iniciativa da CBF para obter a promessa dos clubes de não irem à justiça comum, foi justificada pelo presidente do Atlético Mineiro Alexandre Kalil com “tem muito dinheiro envolvido… Daqui para frente, os 20 clubes não aceitarão demanda de torcida… temos um contrato a cumprir. Não falo de contratinho, é na casa do bilhão“ (Lancenet 06/02/2014). Trocado em miúdos, o clubes teriam obedecido, temendo por suas receitas televisivas (interpretação que os presidentes evidentemente vão negar). Renuncia-se ao direito de qualquer cidadão brasileiro de recorrer à justiça comum para não ser lesado na distribuição do dinheiro televisivo. Cheira a abuso de truste.

Ninguém controla quanto a Globo aufere em publicidade do futebol ou qual a porcentagem que ela repassa aos clubes. O faturamento televisivo dos grandes brasileiros é baixo quando comparado com a Premier League, a Bundesliga e a NFL (futebol americano, anualmente 11 bilhões de dólares anuais).

A distribuição ocorre de forma arbitraria de acordo com o que a Globo considera ser o tamanho da torcida. Cria-se uma situação estática, com clubes de torcida supostamente grande sendo privilegiados nas transmissões ao vivo o que por sua vez é gera mais torcida, não havendo qualquer premiação da eficiência esportiva. Para dos clubes privilegiados não há necessidade de melhorias, porque o dinheiro televisivo e os favorecimentos das entidades esportivas são garantidos. Neste sistema a decadência da competitividade do futebol é certa. Não se impõe os melhores, mas os protegidos. O conta-gotas de favorecimentos, acumulados ao longo dos anos, solapa a qualidade do futebol de clubes e torna imensa a distancia para o hemisfério norte.

A eficiência em termos de custos-benefícios da Portuguesa no Brasileirão de 2103, que apesar do apito pouco favorável, conquistou o oitavo lugar por saldo de gols, não é premiada, é punida, o clube já perdeu alguns de seus melhores jogadores.

A fraqueza do futebol de clube no Brasil ficou escancarada nos três últimos confrontos entre os campeões brasileiros e africanos, nos quais os clubes brasileiros foram amplamente dominados. O Corinthians sufocado durante todo o segundo tempo, venceu a partida contra o Al Ahly por sorte. O Internacional e o Atlético Mineiro perderam feio para o Mazembe e Raja Casablanca.

Torna-se evidente a débâcle esportiva do sistema da Globo, com o estado atual do Corinthians, privilegiado também pelos milhões da Caixa Econômica. O time oscilou na zona descenso do Brasileirão de 2013. Nos 38 jogos do Brasileirão de 2013 obteve doze empates de 0x0 e doze resultados de 1×0 ou 0x1. Agora se mostra como um dos piores entre 18 times do Paulista.

Os estádios estão vazios, torcedores temendo as organizadas. As audiências televisivas caindo. Com a tirada de pontos da Portuguesa dezenas de internautas de nível cancelaram o pay per view. Está se promovendo a miserabilização do futebol de clube brasileiro.

5 – Uma separação de poderes necessária para ressuscitar o futebol de clube

Será que os grandes clubes brasileiros não privilegiados querem mesmo ficar levando desvantagem neste sistema? E eventualmente ficarem através de receitas reduzidas financiando a falência de outros clubes? Parecem não saber que nas federações de direito privado, como as estaduais e a CBF, quem manda são os clubes federados e não o inverso. Um mal-entendido que possivelmente se deve ao fato que nas federações estaduais os presidentes são eleitos por uma maioria de clubes pequenos, que em numero superam os grandes. E na CBF as federações estaduais superam os grandes clubes, configuração que deixa os clubes grandes sempre em minoria e dá poder irrestrito às federações.

Mas se os grandes clubes quisessem, poderiam fundar uma nova federação independente e soberana, na qual eles mandam, com uma distribuição transparente dos milhões de publicidade e com sede numa das muitas cidades com justiça mais confiável, como por exemplo, Curitiba. Senão uma nova federação, pelo menos uma liga de clubes de primeira e segunda divisão que decidiria a venda e repartição dos direitos de imagem na base de critérios pré-estabelecidos.

Seria importante uma justiça esportiva independente das Federações e Ligas, com redução do numero de julgamentos através do aumento de punições automáticas e redução da possibilidade de efeitos suspensivos. Julgamentos ocorreriam apenas se houver contestação da sumula das partidas com base em provas vídeo ou testemunhas ou por inciativa da promotoria nos casos de transgressões graves, justificando penas maiores que o padrão. Regulamento de futebol deveria ser como regulamento de transito, as punições deveriam constar em tabela, nas quais poderiam ser diferenciadas por tipo. Gestos obscenos, insulto, cada tipo de ofensa levando a uma punição padrão. Não haveria necessidade de contextualizações por parte de auditores numa primeira instancia.

Os atuais presidentes de clubes, muitos responsáveis pela destruição do Clube do Treze e eventualmente envolvidos com o sistema atual, devem ser empecilhos para a formação de uma nova liga. Por esta razão quaisquer estudos deveriam ser iniciados por grupos externos à administração dos clubes em contato direto com as grandes ligas americanas e europeias e com as redes televisivas. A Globo poderá até ganhar por licitação, mas segundo as regras da nova liga.

Se o sistema não for reformado, o futebol de clube brasileiro continuará minado pela distribuição arbitraria e intransparente de milhões televisivos para o ralo da ineficiência e debilitado por injustiças das suas federações, cujo odor continuará exalando através de seus funcionários e aos plebiscitos nos Alpes.

A cidade do futebol

odir
José Luis e seu pai, Eladio, do “Pepe & Sale”: amor pelo Santos que veio de longe (Foto: Marcos Vasconcelos).

Um primo do Carlinhos chegou à padaria e, depois de conversar um pouco com ele, veio me pedir o número da conta do Dorval. Não tinha comigo e pedi para ele entrar no meu blog e procurar logo na primeira página. Agora repito aqui, para facilitar:

Dorval Rodrigues. Banco: Bradesco. Agência: 0093-0. Conta: 0091840-7. CPF: 130371068-40.

Pouco depois o Carlinhos passou pela mesa que eu dividia com a Suzana para avisar que ele e o primo iriam depositar um determinado valor para engrossar o presente do Dorval, que no dia 26 faz 79 anos. Ele nem precisava, pois no sábado que vem vai fazer uma festa para o ataque dos sonhos – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe – com venda de camisetas em benefício de uma entidade beneficente. E ainda este mês fará outra festa para festejar o aniversário dos ídolos aniversariantes do mês.

Carlinhos é o diretor de relações públicas que o Santos não tem, é o símbolo da generosidade santista, alguém que faz as coisas por amor ao time, sua paixão desde pequenininho. Sua preferência certamente afasta da Padaria A Santista torcedores de outros clubes, mas ele não se importa: ali é um ponto de encontro de “escolhidos”. Fim de papo.

Que outro bar do Brasil pode reunir, na mesma mesa, jogadores do quilate de Coutinho, Edu, Joel Camargo, Clodoaldo? Seria o mesmo que, em um bar da Alemanha, Beckenbauer, Uwe Seeler, Breitner e Overath se reunirem para tomar umas cervejas e lembrar histórias saborosas de um tempo em que a bola era tratada com muito mais carinho.

Santos está repleta de lugares que cultuam o Time dos Sonhos. Saindo da “padaria do Carlinhos”, na rua Epitácio Pessoa, 312, canal 5, fui com a Suzana para o Centro Santista de Tênis, na rua Dr. Armando Sales de Oliveira, 195, no Boqueirão, e bem em frente às quadras encontramos o “Sale & Pepe”, um restaurante e pizzaria que chama a atenção pela decoração totalmente voltada para o nosso time. Quadros, uma camisa autografada por Pelé e até uma bela prancha com o símbolo do Santos decoram o salão.

Quis conhecer o proprietário e dar-lhe um Dossiê de presente. Soube que o responsável pela decoração é José Luis Balboa, mas quem semeou o amor pelo Santos na família foi seu pai, Eladio Balboa, um espanhol que desembarcou em Santos em 15 de outubro de 1955, dia em que o Santos pré-Pelé fez um grande exibição pelo Torneio Rio-São Paulo e encantou definitivamente o imigrante recém-chegado.

Seu Eladio estava no Pacaembu quando o Santos venceu ao Palmeiras por 7 a 6, no jogo em que, segundo ele, era a despedida do palmeirense Mazzola do Brasil, pois iria para a Itália. Viu muito jogador bom e diz que precisa só de 20 minutos de observação para dizer se um jovem jogará bem. Geuvânio, por exemplo, ele diz que será bom. Também acha que Leandro Damião vai vingar no Santos.

Para seu Eladio, quem não sabe bater de trivela, não será um bom jogador, pois sem usar efeitos é difícil acertar alguns passes. Concordo plenamente com ele. Será que não ensinam mais efeitos nas escolinhas? Na várzea, todo mundo sabia bater com efeito, que a gente chamava de “rosca”, ou “biscoito”.

Quem dará o primeiro passo?

Olho Santos do alto de um edifício à beira-mar. Vejo a praia repleta, no fim da tarde de sábado, tomada por campos de futebol. Sei que lá, assim como nas ruas, espremidas no fundo das valas entre os prédios, imperam as camisas do Alvinegro Praiano, a paixão de mais da metade das 400 mil pessoas que moram na maior cidade litorânea do Brasil que não é capital.

Lembro-me de que a cidade do Porto tem menos habitantes do que Santos, mas mantém a média de 30 mil pessoas a cada jogo do Porto. Se Santos tivesse ao menos 15 mil espectadores de média, na Vila Belmiro, teria muito mais possibilidades de mercado. Fico pensando o que seria preciso para se atingir isso.

Ingressos mais baratos, promoções, bilheterias para o jogo instaladas na praia, ônibus das cidades vizinhas direto para a Vila Belmiro, ônibus de São Paulo saindo pela manhã, com lanche a bordo e direito à visita ao Memorial das Conquistas, ou almoço com os ídolos, ou direito a um brinde, ou… Sei lá quantas coisas podem ser feitas, o que não é possível é não fazer nada para levar o santista à Vila Belmiro.

Carlinhos acha que com o rodízio maior entre Pacaembu e Vila Belmiro, o público da Vila vai aumentar, pois “o torcedor não aguenta pagar 40 reais por semana”. E sugere que o Santos faça eventos em cada cidade do Interior em que for jogar. A ideia é antiga, mas ainda não saiu do papel. Está na hora de se dar o primeiro passo.

Fico imaginando se, assim como a Flórida é o paraíso das academias de tênis, a ponto de atrair jovens de todo o mundo, a Baixada Santista, a partir do próprio Santos, não poderia ser o maior reduto de ensino de futebol no mundo. Mestres não faltam e apaixonados por futebol também não. Falta apenas alguém, ou uma empresa de visão, para iniciar a caminhada.

E para você, o que Santos deve fazer para se tornar a cidade do futebol?


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