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As poucas chances de gol do Santos estiveram nos pés de Gabriel, nem sempre no pé certo (Ricardo Saibun/ Divulgação Santos FC)

Falta menos de um minuto para terminar os acréscimos. A bola cai no pé de Cícero, considerado o cérebro do meio-campo do Santos, o que para este time significa que é o único jogador do setor capaz de acertar um passe. Pode ser o último contra-ataque, a derradeira chance de uma vitória improvável. Mas Cícero joga a bola nos pés do adversário e o Santos toma mais um sufoco antes de garantir o zero a zero contra o limitado Coritiba.

Poderia ser pior, previne minha consciência. Claro, perder é sempre mais doloroso do que empatar. “É preciso também ver o mérito do adversário”, grita a Suzana da área de serviço, percebendo, pelo tec-tec do teclado, que já estou escrevendo o texto do jogo. Sim, admito que o Coritiba marcou bem e deu pouco espaço. Mas não consigo ver no time do Paraná uma equipe que almejará neste Brasileiro algo além de se manter na Série A.

Outro, mais atento, argumentará: “Mas Odir, você já disse que nunca dá nota zero a um jogador”. Eu fico admirado com a memória do tal leitor e lhe explico que, realmente, não dou nota zero individualmente, pois mesmo quando falta a técnica, pode sobrar a luta, a garra. E este Santos que empatou no Couto Pereira, ou ao menos a sua defesa, merece o benefício do espírito de luta, em cujo quesito me baseio para dar nota 7, ou 8. Mas a garra é essencial para outros times, historicamente pouco exigentes. Para o santista, que prioriza o futebol, a nota é zero mesmo.

Explico-me melhor: não dou zero para ninguém da defesa, muito menos para o garoto Jubal, mas continuo com o zero coletivo, pois futebol não é esporte de autistas (até o Messi, que parece padecer desse mal, joga para o time).

Se eu quisesse mesmo sacanear, faria um título assim: “Quem foi ver Leandro Damião, viu Zé Love”. Não seria uma inverdade, pois o atacante do Coxa criou bem mais jogadas do que o milionário executivo do ataque santista. Em pensar que a torcida respirou aliviada quando Zé Love partiu e hoje é obrigada a empurrar um bonde ainda maior.

Mas não adianta colocar a culpa em Damião. A verdade é que Geuvânio entrou e nada fez. Individualista e peladeiro, o rapaz não encontrou um lugar no campo e muito menos a bola. Lucas Lima entrou melhor, em substituição a um cada vez mais nulo Thiago Ribeiro, e Stefano Yuri só entrou porque Gabriel ainda parece um garoto no meio dos adultos.

Técnica, Gabriel tem, mas não ganha uma dividida, não protege a bola como se deve e peca na hora de arrematar a gol. Teve três chances e nas três lhe faltou ou habilidade, ou inteligência. Na primeira, tocasse de direita e encobriria o goleiro, mas, como não tem a perna direita, bateu com a esquerda, desequilibrado, e jogou para fora.

Na segunda chance, chutou apressadamente sobre o jogador caído, quando podia deixar a bola rolar mais meio metro e só assim, livre, disparar o tiro. Na terceira, tentou bater de primeira uma bola que permitia a matada antes do chute. Então, meus amigos, apesar de sua boa técnica, não esperemos muito de Gabriel enquanto ele não trabalhar para corrigir seus defeitos.

O problema não é a defesa

O problema maior do Santos não foi a defesa. Ela não é a melhor do Brasil, mas segurou bem o ataque do Coritiba. Aranha mostrou calma nos momentos de perigo; Jubal e David Braz se entenderam e devem ter saído com as cabeças doendo de tanto despachar os centros sobre a área; Émerson se esforçou, mesmo sem cobertura pelo seu lado, e Cicinho foi o mesmo atabalhoado de sempre, mas se segurou, e os volantes Alison e Alan Santos ao menos lutaram como leões.

Não peça, porém, que Alison enfie um passe; ou que Alan Santos faça uma tabela na intermediária adversária. Bem que o adversário lhes dá espaço, pois sabe que de seus erros pode nascer o contra-ataque tão esperado, como ocorreu por duas vezes seguidas no segundo tempo.

O grande motivo de preocupação do Santos tem sido a desincronia do ataque. Leandro Damião e Thiago Ribeiro são jogadores de conclusão, incapazes de segurar a bola na frente. Gabriel é imaturo, ainda não aprendeu a jogar para o time. O único que ainda protege bem a bola é Cícero, mas parece mais preocupado em cavar faltas do que criar jogadas. Então, ocorre que mal a bola é despachada por Aranha ou Jubal, e já volta para a intermediária santista.

Se Oswaldo de Oliveira queria frear o ímpeto ofensivo do time e tornar a defesa mais segura, talvez não tenha conseguido nem uma coisa, nem outra. O Santos passou sufoco em Curitiba e quase não incomodou o adversário. Aquela fome de gol que se viu no início do Paulista parece que é coisa de um passado distante. A bola voltou a ser tocada de lado, sem pressa.

Conclusão: Juninho Paulista está certo

A conclusão que um desempenho desses nos oferece é a de que Juninho Paulista, o presidente do Ituano, está completamente certo quando diz que faltam bons jogadores nos times grandes de São Paulo, e por isso o seu Ituano acabou superando todos eles no Campeonato Paulista.

Hoje os elencos dos times brasileiros se equivalem. A diferença de valores e salários dos jogadores está, geralmente, no poder de argumentação de alguns empresários e na ingenuidade, ou matreirice, de certos dirigentes. Um gringo que visse Coritiba e Santos não diria que o Alvinegro Praiano possui o terceiro elenco mais caro do Brasil.

Este Santos não tem nenhum craque, temos de admitir. O único que demonstra uma categoriazinha a mais, o armador Cícero, no meu time de várzea só teria a vantagem de não pagar a mensalidade. E ouviria berro a toda hora, pois se esconde na hora de decidir os jogos. O craque do time tem também de ser o construtor das vitórias. Para ganhar mais do que os outros, tem de ser mais decisivo. Do jeito que Cícero tem jogado, 120 pilas por mês seria uma fortuna.

Já deu para perceber que mais uma vez o santista está certo ao não se entusiasmar com o time em mais um Campeonato Brasileiro. Veja na enquete aí do lado direito que as opções mais votadas são “meio da tabela” e “escapar do rebaixamento”. Ah se os diretores do Santos tivessem a humildade de sentir o coração dos torcedores. Quantas bobagens não teriam sido evitadas…

O que dói mais é que dava para ter um time rendendo bem acima deste Santos com um investimento beeem menor. Mas não vamos falar de dinheiro, se não perdemos o resto do fim de semana. “Sim, amor, pode deixar, eu sei que o Coritiba teve méritos. Mas que o Santos jogou mal, jogou”.

Veja os melhores momentos de Coritiba 0 x 0 Santos

E você, o que achou do Santos nesse 0 a 0 gelado em Coritiba?