Tinha um amigo do tênis, o criativo Mitnos Kalil, que defendia a tese de que “devemos ter um plano para a sobrevivência, e um para a independência” – ou seja, um plano para pagar as contas e ir vivendo; outro para tirar o pé da lama definitivamente. Se levarmos essa teoria para um clube de futebol, no caso o nosso Santos, veremos que um título paulista faz parte, apenas, do plano de sobreviência.

Sim, um time grande precisa, no mínimo, chegar às finais do Campeonato Paulista. Se os grandes são quatro, que ao menos alcance as semifinais. Ou as quartas, vá lá. Ser desclassificado antes da fase eliminatória seria inadmissível. Mas ganhar ou não o título não muda muito o status.

Veja o Ituano. Campeão! Ótimo. Tudo bem que em três jogos com o Santos, perdeu dois, e terminou sete pontos atrás. Mas soube usar o regulamento e foi campeão, algo maravilhoso para a história do clube! Porém, o que vai acontecer agora com o Ituano? Nada, ou pouco mais do que isso.

Sem cinco titulares, que já estão conversados com outros clubes, jogará a deficitária Série D, e assim iniciará a escalada de mais uma montanha para, quem sabe um dia, chegar à Série A do Brasileiro – na qual só permanecerá se tiver um bom time, um bom patrocínio e uma boa média de público. Enfim, domingo o Ituano conseguiu algo maravilhoso para sua sobrevivência, mas ainda está muito longe de atingir a independência.

De onde virá a independência

O título, além de nos encher de alegria, também mudaria muito pouco nas perspectivas futuras do Santos. A mesma consolidação que se esperava há quatro anos, quando a Resgate assumiu o clube, ainda se espera agora, e a questão não é ganhar mais um título paulista, mas montar uma estrutura e instituir uma gestão capaz de tornar o Santos mais forte, mais sólido, a ponto de lutar por todos os títulos.

Para isso, os dirigentes do Santos não podem mais prevaricar. Chega! Dirigir esse clube é de uma responsabilidade atroz e duvido que não saibam que o que se espera deles é austeridade, competência e, acima de tudo, honestidade absoluta. Que não sejam vaidosos, pois não são nada, já que o poder que momentaneamente têm lhes foi outorgado pelos mesmos santistas que agora não querem ouvir.

Cito Leandro Damião como o último grande exemplo de incompetência dessa diretoria, mas nada tenho contra esse rapaz, a quem considero boa gente, simpático e por quem torcerei desesperadamente a cada vez que entrar em campo. Eu, que nem ligo como devia para o vil metal, me pego desgraçadamente fazendo contas para que um dia o dinheiro investido no desengonçado atacante possa voltar aos maltratados cofres de Vila Belmiro. E perco o humor, pois a possibilidade de que isso aconteça é remota.

Com tantos garotos descobertos e a descobrir, com tanto jogador de potencial escondido por esses recantos do Brasil, a milionária contratação de Leandro Damião, repito, foi um verdadeiro crime de lesa clube. E isso ainda sem ter um patrocinador máster! Meu Deus, quanta falta de visão!

O caminho do Santos para a sua independência passa pelo planejamento meticuloso dos investimentos no futebol, por um plano ousado e trabalhoso para se obter mais visibilidade, mais parceiros, mais sócios e por uma atenção especial a esses parceiros e sócios. Sem conseguir sua auto-sustentação, o Santos continuará, como um cachorrinho, a lamber as mãos do sistema que o apunhala pelas costas.

Os exemplos estão aí, e vêm de centros que antes eram desprezados pelo poder central do futebol brasileiro. Minas Gerais e Rio Grande do Sul têm, hoje, os quatro clubes mais independentemente poderosos do País. Mesmo preteridos pela tevê, eles continuam crescendo e hoje são quase todo o Brasil na Copa Libertadores. Isso é ter mais do que um plano de sobrevivência, é querer mais do que um título estadual. Isso é o que realmente importa.

E pra você, como o Santos conseguirá sua independência?