Este texto foi escrito pouco antes da notícia da ida de Cícero para o Fluminense. Parece ultrapassado, portanto, mas, mesmo assim, aborda aspectos atuais, que merecem nossa consideração.

Cícero jogará ou não contra o Bahia? Enquanto o jogador, seu empresário Eduardo Uram e a diretoria do Santos decidem se vale  a pena jogar nesta quinta-feira e perder a chance de se transferir para outro clube brasileiro, o Glorioso Alvinegro Praiano se prepara para um jogo pode colocá-lo bem próximo da zona de rebaixamento. Quem é culpado por esta situação bizarra? Como entender o que está acontecendo?

Para sermos justos, tentemos ver, primeiro, o lado do jogador. O que o está levando a autorizar seu empresário a procurar desesperadamente outros clubes? Sabe-se que Uram já ofereceu o jogador para Fluminense, Cruzeiro e Corinthians, sem sucesso. Por que adotar essa estratégia que desvaloriza o atleta?

Cícero está com os salários atrasados? Será que o motivo de querer sair do Santos tem a ver com a recusa do clube em aumentar-lhe os vencimentos para 500 mil mensais? Será que ganhar 350, ou 400 mil por mês, não são suficientes? Pode um jogador como Cícero mostrar-se tão inconformado com a questão salarial, mesmo jogando um futebol apenas um pouco acima da média?

Será que o fato de ter sido escolhido o melhor jogador do não tão importante Campeonato Paulista fez Cícero se julgar um novo astro do empobrecido futebol brasileiro? Ou ele quer sair porque se sente pouco querido, e até hostilizado pela torcida? Bem, todas essas questões apenas Cícero e Eduardo Uram podem responder.

À diretoria do Santos eu perguntaria se não há no contrato com o jogador alguma cláusula que proteja o clube dessa remuneração sem trabalho. Sim, pois se recebe 400 mil reais por mês, e se faz o máximo oito jogos a cada 30 dias, Cícero, grosso modo, ganha 50 mil reais por partida. Quem ressarcirá o clube desses pagamentos sem reciprocidade?

E há ainda, o lado do torcedor, aquele que, repito, é o que realmente sofre e se angustia pelo clube. Como entender que um jogador que era um eterna reserva do São Paulo e que ganhou respeito, notoriedade e aumento salarial no Santos hoje trate o clube com tamanho desdém? O que ocorre com o Santos que dificilmente é valorizado por seus jogadores?

Ou devemos acreditar que finalmente a direção do Santos percebeu que é preciso fazer reduções drásticas de despesas, ou o clube falirá? Se for isso, provavelmente queira se livrar de Cícero de qualquer jeito, como deveria se livrar de Leandro Damião. Será que os jogadores de maiores salários terão mesmo de ir embora e o Glorioso Alvinegro Praiano dependerá de seus Meninos e de alguns veteranos para evitar a vergonha do descenso?

Uma Liga poderia dar um jeito nisso

Considero o caso de Cícero apenas mais um que demonstra o situação caótica pela qual passa o futebol brasileiro. Se houve um dia em que os jogadores eram escravos dos clubes, hoje, ao menos quando se trata de jogadores de algum destaque, a situação se inverteu.

Sem alterar a relação trabalhista dos clubes com os jogadores – o que significa alterar a Lei Pelé -, casos como o de Cícero continuarão a indignar o torcedor.  E sem ajustar os padrões salariais à realidade econômica do nosso futebol, nossos grandes clubes prosseguirão pagando salários irreais a jogadores apenas medianos, que não garantem boas plateias nos estádios, nem bom ibope na tevê e, consequentemente, também não atraem patrocinadores. Por esse círculo vicioso, percebe-se que ou os clubes pagam menos para seus atletas, ou trilharão o caminho que os levará à inadimplência.

Enquanto s grandes clubes do Brasil não se unirem em uma Liga Nacional que regularize o mercado profissional do futebol brasileiro e, entre outras providências, estipule tetos salariais para jogadores e técnicos e democratize a distribuição das cotas de tevê, a ordem que preponderará será a velha: “Quem puder mais, chore menos”.

Cícero e seu empresário estão apenas seguindo esta máxima. Na pior das hipóteses, já têm garantido o ótimo salário do Santos, além de um ou dois jogos de folga. Sinceridade? Não acreditava que encontrassem um clube brasileiro disposto a pagar o que recebem do Santos. O Fluminense pagará? Espero que sim. Mas, sinceramente, acho que Cícero não vale tudo isso. Nunca valeu.

E você, acha que Cícero deveria mesmo ir embora?