Olha que ideia legal. Eu aprovo. E você?
Arquitetos sugerem que estádios elefantes brancos se tornem casas para sem teto

hipnose
Olhe fixamente para o centro dessa figura. Sinta um sono suave chegando mansamente…

Vendo os jogadores do Santos passarem por eles, sujos, amarfanhados, exaustos, mas tranqüilos, expressão de dever cumprido no rosto, dois seguranças do clube confessam seu espanto à meia voz, na porta do vestiário do estádio de Volta Redonda:

– O que deu nesses caras hoje, hein?

– Sei lá, parecia que estavam tomados. Nunca vi jogando tanto assim.

– Viu aquele gol do Gabriel? E aquele do Lucas Lima? E o do Diogo? E parece que queriam mais. Em vez de segurar a bola, o time ia pra cima… Caramba…

– É, meter 5 a 1 no Fluminense aqui em Volta Redonda e ainda terminar buscando o sexto…

– Parecia que estavam com o diabo no corpo.

– É, uma coisa estranha mesmo. O que será que o novo técnico falou pra turma, hein?

– Sei lá. O cara é muito estranho. Se fechou só com os jogadores no vestiário e proibiu que dessem entrevistas antes e depois do jogo.

– E agora vai se fechar de novo com os caras. Quer ficar sozinho com o time. Nem o presidente pode entrar. Ninguém.

– Estranho, nunca vi um técnico fazer isso.

– É, mas deu certo, não deu? O Santos sempre fazia um jogo modorrento fora de casa, parecia ter medo até da sombra, mas hoje foi pra cima, mandou na partida, fez os gols e podia fazer mais. Só pode ser coisa desse técnico novo.

O bate-papo é interrompido quando os seguranças pressentem a aproximação de um homem alto, de ombros largos, pisando firme em sua direção. O homem pálido se aproxima, volta o olhar penetrante para eles e ordena:

– Todos os jogadores já estão no vestiário. Falarei com eles agora. Não deixem que ninguém entre. Obrigado.

Os seguranças obedecem sem titubear. Um deles ainda cochicha:

– Como ele sabia que todos os jogadores já tinham chegado?

A porta é trancada por dentro. O homem, que veste um sobretudo preto, se coloca no centro do ambiente, rodeado pelos bancos, onde os jogadores esperam, sentados e quietos.

– Atenção – diz ele em tom alto e grave.

Quando se certifica de que todos os olhares estão voltados para ele, ergue as duas mãos e bate duas palmas bem alto.

Os jogadores reagem com um arrepio, como se tivessem despertado de um longo sono, ou sonho.

– Parabéns pela bela vitória – diz o homem, com voz soturna.

Os jogadores se olham. Arouca, um dos mais velhos, cria coragem e pergunta:

– Ãhhhh… Nós… nós ganhamos, professor? De quanto?

– 5 a 1. E poderia ter sido mais…

– Jo-jogamos na Vila, professor? – pergunta Geuvânio.

– Não, em Volta Redonda, mando de jogo do Fluminense.

Os jogadores se olham, incrédulos. O técnico arremata:

– Mas jogaram como se estivessem na Vila, porque eu pedi.

Do lado de fora do vestiário, dois dirigentes santistas, felizes com a goleada, mas aborrecidos por não poderem entrar, comentam:

– Bem que me disseram que esse técnico ia fazer milagres.

– De onde ele veio?

– Romênia, região da Transilvânia.

– Ah, e como é que o Santos chegou até ele?

– Indicação. Uma fonte segura me disse que só ele faria esse time jogar como o Santos de Pelé, tanto dentro como fora de casa.

– Você já conhecia ele?

– Não, mas na Transilvânia é muito conhecido. Mora num castelo. Trabalha no futebol por prazer. Por isso aceitou ganhar um terço do Oswaldinho.

– Ah, que louco… E o que falam dele lá?

– Que pode tirar o máximo de cada jogador, que com ele os jogadores não têm preguiça nem medo… E, como vimos hoje, sempre jogam pela vitória, dentro ou fora de casa.

– Caramba, então o sujeito é um mágico?

– Quase isso. Lá ele é conhecido como O Hipnotizador.