Brasil x Alemanha – a emoção contra a perfeição

Alemães são pragmáticos, organizados, equilibrados, eficientes. Sua seleção de futebol espelha isso. O time brasileiro não tem essas qualidades e, por isso, no campo estrito da técnica e da tática, não pode ser considerado favorito nesta semifinal. Entretanto, os grandes momentos do futebol exigem outros componentes e a emoção é o mais importante deles. E essa emotividade, que tanto pode fazer tremer as pernas nos momentos decisivos, como adicionar uma energia extra e uma determinação inesperada às jogadas, convive com o brasileiro. E se torna mais intensa em momentos como este, em que um estádio e um país clamam pela vitória. Por isso, o que veremos em luta não serão apenas dois times, ou duas escolas, mas dois temperamentos, dois carácteres, duas formas de viver e sentir o futebol.

Tristeza, este é o sentimento que ainda me envolve e certamente me acompanhará por muitos dias. Imagino o tamanho da amargura do nosso eterno Menino da Vila e a desolação de milhões de pessoas que o adoram. A verdade é que uma Copa no Brasil sem Neymar não é uma Copa completa.

O que eu sempre temi, aconteceu. O garoto caçado a cada jogo, que ao invés de ser protegido, como todo craque deveria ser – ainda mais em nossos tempos áridos de beleza e criatividade no futebol –, era desrespeitado e ironizado por muitos, finalmente foi tirado de campo. E justamente em uma Copa do Mundo, o momento de sonho, tão aguardado por todo jogador.

Que me perdoe o colombiano Zuñiga, mas arremessar-se, joelho à frente, contra as costas de um adversário parado e desprevenido, não me pareceu acidental. O joelho fez a função de um aríete, concentrando a pressão e partindo a terceira vértebra lombar do jogador brasileiro, que ficará, no mínimo, três semanas longe da bola.

Esta agressão seria punida severamente mesmo no violento e permissivo futebol norte-americano, aquele que se joga com as mãos e no qual os atacantes costumam ser esmagados. No entanto, passou em branco para o árbitro espanhol Carlos Velasco Carballo. Uma pena que, mesmo atuando em casa, o Brasil tenha sido vítima constante das arbitragens indecifráveis da Fifa.

Mas, dizem, há sempre um desígnio nos acontecimentos, mesmo nos mais desalentadores. Qual seria o interesse divino por trás dessa contusão do eterno Menino da Vila? Fazer seus inimigos gratuitos, esses sarcásticos, invejosos e mentirosos que pupulam pelo País, reverem suas gritantes mediocridades? Ou dar um descanso e poupar Neymar do grande desastre que está por vir?

Sim, pois agora o Brasil não é mais favorito, se é que em algum momento tenha sido, e nem merecerá dos adversários o mesmo temor. Talvez, se o espírito de David Luiz se espalhar pelo grupo, o título ainda venha, mas a verdade é que outras equipes estão jogando melhor e mostrando mais personalidade do que a brasileira.

E será que o Brasil merece mesmo ganhar essa Copa, depois de tantas lambanças na administração da verba pública destinada ao evento? De tamanho uso político de uma festa que deveria ser estritamente popular? E será que outro contendor não terá reunido mais méritos para erguer a taça?

Por outro lado, a ausência do grande craque da Seleção pode dar a seus companheiros a oportunidade de provar que formam um time de alto nível, mesmo sem ele. Porém, mesmo que o título venha, não será mais a mesma coisa, assim como a conquista da Copa do Chile, sem Pelé, não teve o mesmo brilho e encanto da glória obtida em campos suecos, quatro anos antes.

A dor de Neymar feriu a todos que gostam de futebol. Um pouco Garrincha, um pouco Pelé e muito Neymar, gosto de lembrar dele como o menino que surgiu no Santos com o uniforme bailando no corpo, e que, ao lado de Madson e Paulo Henrique Ganso, ouviu, humildemente, os conselhos da Suzana na festa de encerramento do Campeonato Paulista de 2009.

“Vocês são muito bons. Continuem assim, com essa alegria de jogar futebol”, insistia minha mulher, acostumada a educar adolescentes pelo esporte, aos jovens e sorridentes talentos santistas. Nos olhos de Neymar via-se a alma pura de um garoto sem maldade. Guardei essa imagem. Prefiro pensar nele assim, sem os milhões do Barcelona, sem o seu numeroso staff, sem os seus empresários, sem ser a personagem de nove entre dez comerciais do momento. O Neymar sozinho, o menino que só quer ser feliz jogando futebol.

Por este menino que está dentro de Neymar sempre torcerei. E se a consagração não pôde vir nesta Copa, que seja na próxima. Pelé sofreu com contusões nos Mundiais da Suécia, Chile e Inglaterra, mas aos 29 anos e oito meses ressurgiu com toda a majestade no México. Neymar tem, no mínimo, mais duas Copas para brilhar. Que assim seja!

E você, o que sente pela ausência de Neymar na Copa?