Antes, veja e ouça isso:
Entrevista de Paul Breitner prevendo o favoritismo da Seleção Alemã

A goleada eterna que a Alemanha impôs ao Brasil não pode ser explicada apenas pela natural superioridade da equipe germânica. Formada há seis anos, com ótimos jogadores, um sistema tático bem definido e dirigida pelo ótimo técnico Joachim Low, os alemães eram favoritos e provavelmente ganhassem mesmo que a Seleção Brasileira fizesse tudo certo e contasse com Neymar e Thiago Silva.

Porém, não só a maneira vexaminosa como o time de Luiz Felipe Scolari se comportou na semifinal, mas tudo o que envolveu a participação do Brasil nessa Copa – dentro ou fora dos estádios – revela, sintomaticamente, sete erros graves que não podem passar em branco. Vamos a eles:

1 – Estratégia Inadequada

A Alemanha já tinha tido sérios problemas com times que jogaram recuados, marcaram forte e souberam atacar sem deixar grandes buracos na defesa. Empatou com Gana (2 a 2) e venceu Argélia, Estados Unidos e França por apenas um gol de diferença. Como tem, teoricamente, melhores jogadores do que os adversários enfrentados pela Alemanha, o Brasil deveria ter optado por um jogo mais amarrado no meio de campo e a possibilidade de decidi-lo em jogadas individuais ou nas decantadas bolas paradas.

Não se sabe o teor dos “conselhos” que Scolari ouviu dos seis jornalistas com quem decidiu conversar separadamente, mas a verdade é que ele surpreendeu ao escalar um time ofensivo contra a Alemanha, e isso se revelou um equívoco fatal. Nada justificaria colocar em campo, ao mesmo tempo, Oscar, Bernard, Hulk e Fred.

O mais aconselhável era optar pelo 4-4-2, ou mesmo 4-5-1, com a possibilidade de o time avançar quando tivesse a bola. Assim, Willian, Paulinho e Ramirez poderiam entrar. Fica ainda a dúvida se valeu a pena manter Fred isolado no meio dos beques alemães o tempo todo.

Mas os enganos começaram na convocação. Com esses jogadores o Brasil ficou sem a opção de atuar sem controavante e acabou, na prática, jogando sem ele, pois Fred não teve com quem tabelar. Seria preciso, no mínimo, mais um meia atacante. Por isso falei em Robinho. Mas poderia ser outro.

2 – Tática precipitada

Mal a saída foi dada e o Brasil foi pra cima da Alemanha, em um misto de nervosismo e coragem descontrolada, angustiado por fazer o primeiro gol. Algumas chances foram criadas, mas o gol não saiu e a Alemanha é que encontrou o seu, aos 10 minutos, após um escanteio em que Muller apareceu livre.

Parece que o plano do Brasil era justamente inaugurar o marcador, para depois especular nos contra-ataques. Quando o adversário é que conseguiu isso, o time se descontrolou. Faltou um líder para por a bola embaixo do braço depois do gol alemão e, apesar do alarido da torcida, recolocar a equipe na busca do equilíbrio que poderia levar à vitória.

Um sintoma do descontrole foi ver David Luiz na área da Alemanha em busca do empate, e continuar por lá mesmo após o adversário retomar a bola. A pressão por ter sido considerado o salvador da pátria, com a ausência de Neymar, fez mal ao grande zagueiro. Deixou o estreante Dante sozinho, sem um esquema eficiente de cobertura. Ficou claro que a Alemanha só precisaria acertar alguns passes para chegar ao segundo gol.

Nesse momento de frenesi pelo empate, não se viu o dedo ou a voz do técnico. Contestado por muitos, o mesmo Scolari que montou seu grupo de jogadores com a intenção de formar nova família, acabou justificando as críticas de quem não entendeu como um técnico que não impediu o rebaixamento do Palmeiras, poderia levar o Brasil a um novo título mundial.

O Brasil agiu como o pugilista inexperiente, que leva um golpe e, ao invés de provocar o clinche e amarrar a luta para poder respirar e recuperar o raciocínio, parte tresloucadamente para cima do adversário, soltando os braços a esmo. Madura e mais técnica, a Alemanha só precisou se esquivar de alguns golpes e depois soltar os seus, certeiros, e jogar o Brasil na lona.

Provavelmente tão zonzo como seus jogadores, Scolari passou o primeiro tempo inteiro assistindo ao massacre e só foi mexer na equipe na segunda etapa, colocando, tardiamente, Paulinho, Ramirez e Willian no time.

3 – Falta de controle emocional

Em nenhum momento os jogadores brasileiros se mostraram devidamente preparados para disputar uma Copa do Mundo em casa. A choradeira depois da disputa de pênaltis contra o Chile escancarou esse problema.

Scolari tinha dito que ele era o psicólogo da Seleção, mas depois parece ter mudado de idéia e chamado os serviços da profissional Regina Brandão. Todos sabem, porém, que não há preparação psicológica instantânea. Esse é um processo demorado, que exige no mínimo alguns meses.

Em sua entrevista após a acachapante vitória, Joakim Low citou o descontrole dos brasileiros por jogar em casa. Ou seja, aquilo que era para ser uma vantagem, se tornou um problema. E na ânsia de se ver livre do “problema Alemanha” o mais rápido possível, o Brasil não teve calma e inteligência para fazer o único jogo que lhe daria a vitória: um jogo de espera, que seria decidido, aí sim, pela individualidade do jogador brasileiro.

4 – Falta de espírito de equipe

Meu cunhado acaba de me ligar dos Estados Unidos e disse que os brasileiros que assistiram ao jogo lá, disseram que em um nenhum momento esse Brasil jogou como uma equipe. Concordo. Os objetivos pessoais sobrepujaram os coletivos, como já havia acontecido em outras seleções brasileiras fracassadas.

A supervalorização de Neymar foi ruim para a equipe, assim como a vontade de jogadores como Oscar e Hulk de aparecerem mais do que o ex-santista. Lembro-me de que Zito dizia que no Santos não havia inveja de Pelé e que todos compreendiam e aceitavam que o Rei fosse o astro da companhia. Faltou isso nesse Brasil.

As entrevistas lacrimejantes de Júlio César, expondo seus dramas e objetivos pessoais, não ajudaram a fortalecer o sentido de grupo ou ao menos passar uma imagem de tranqüilidade e confiança. Ele repetiu que sua história ainda não estava terminada e, infelizmente, não estava mesmo. Nesta semifinal ele se tornou o goleiro brasileiro que mais sofreu gols em uma Copa do Mundo: 11 (em 1938 o Brasil também sofreu 11 gols, mas foram divididos entre os goleiros Batatais e Valter).

Enquanto isso, o alemão Klose, que com o seu gol se tornou o maior artilheiro em Copas, com 16, nem falou sobre isso em sua entrevista, preferindo ressaltar a unidade do seu time. Por aí se vê a diferença de enfoque: aqui endeusamos pessoas, lá eles valorizam o trabalho de equipe.

5 – Uso político

Fala-se tanto do pernicioso uso do futebol pelos políticos, hábito que tantas vezes impediu o Brasil de ser campeão do mundo – principalmente em 1950, na primeira Copa disputada no País –, mas parece que a lição não foi aprendida. Desta vez a situação foi ainda mais grave, pois o desvio de verba pública para estádios inúteis, reluzentes elefantes brancos, revelou-se escandalosa.

O que fazer agora com as arenas de Brasília, Natal, Pantanal e Manaus? Não há mais como convertê-las em hospitais, escolas, casas populares e outras prioridades que um governo realmente preocupado com seu povo deveria ter. O jeito é engolir o prejuízo e virar o rosto de lado para não ver a gradual deterioração destes templos do populismo autoritário.

6 – Ufanismo da mídia

Só houve tanto descaso com a verba pública porque não houve a necessária reação da mídia. Talvez as milionárias verbas de empresas estatais destinadas aos veículos de comunicação tenham arrefecido a imprescindível veia crítica que se espera dos jornalistas, talvez um chá da tarde com a presidente Dilma Roussef tenha influído também, ou até mesmo o papinho com Felipão, mas o certo é que a partir de determinado momento a imprensa vestiu os óculos cor-de-rosa e passou a chamar a Copa de a “a melhor de todos os tempos” e a difundir a falsa idéia de que chegar ao hexa era algo natural.

Aliás, se você teclar “hexa” no Google agora, constatará que o termo aparece 140 milhões de vezes, quase sempre em referência ao título que o Brasil deveria ganhar. Nenhuma voz se ergueu para alertar sobre o provável fracasso. Ninguém queria ser olhado como do contra, ou pé frio, e assim a crônica esportiva mais pareceu um grande departamento de assessoria de imprensa da CBF que em dias normais ela tanto critica.

Engraçado que exatamente isso ocorreu em 1950, quando a primeira Copa foi disputada no Brasil. Muito já se criticou e até se ironizou o otimismo exagerado de nossos companheiros de imprensa há 64 anos, mas agora o mesmíssimo erro foi cometido, e sem as ressalvas de outrora. Em 1950 o Brasil tinha goleado a Espanha por 6 a 1, a Suécia por 7 a 1, e jogava pelo empate com o Uruguai. Era normal que todos já julgassem o time campeão.

Agora a Seleção penou diante de México, Chile e Colômbia, e mesmo assim a palavra “hexa” não saía das manchetes e das bocas dos repórteres e comentaristas. Enfim, a imprensa esportiva brasileira, contaminada pelo corporativismo praticado por um número excessivo de ex-jogadores, perdeu uma boa oportunidade de fazer um trabalho digno.

7 – Falta de planejamento e profissionalismo

Uma coisa está ligada à outra. Refiro-me ao planejamento global do futebol brasileiro, que começa na base, passa pelos clubes profissionais, pelas federações, confederação e, logicamente, desemboca na Seleção.

Há uma filosofia globalizada para o treinamento de infanto-juvenis? Há um trabalho nacional neste sentido, que envolve preparo técnico, físico e tático? Obviamente não. Enquanto isso, os europeus desenvolvem novos métodos, se aperfeiçoam.

Dá para esperar uma mudança substancial no futebol brasileiro com essa CBF? Com essa lei que escraviza o clube a empresários?

Não sei se foi a ausência das Eliminatórias, ou se isso se deve aos amistosos sem sentido, mas o certo é que nesta Copa o Brasil se mostrou menos preparado para o futebol moderno do que equipes como Costa Rica e Estados Unidos, por exemplo.

Quanto ao profissionalismo, ele precisa ser aprimorado não só no trato dos clubes com os jogadores, mas dos clubes com suas fontes de faturamento – publicidade e tevê, principalmente.

Mais uma vez devemos ressaltar a forma como a Bundesliga negocia os direitos de tevê dos clubes: de forma coletiva e levando em conta a meritocracia. Isso mantém a competitividade e dá aos clubes a motivação necessária para se tornarem cada vez mais eficientes.

Enquanto isso, no Brasil, os clubes mais populares, dirigidos com competência ou não, estão garantidos por uma sórdida reversa de mercado que, mais uma vez, obedece ao interesse político-populista.

A Alemanha mudou a estrutura de seu futebol antes de torná-lo o mais rico, competitivo e vitorioso do planeta. Isso não exige só milhões de reais de investimento em estádios. Exige planejamento, criatividade, competência e muiiito trabalho. Será que no futebol brasileiro há gente futebol disposta a pagar este preço, ou tudo continuará como antes desse vexame?

E pra você, por que o Brasil tomou esse chocolate da Alemanha?