Timemania - 1

Digo e repito que a Timemania não pode ser negligenciada como indicador de torcidas de futebol no Brasil. O fato de dar ao apostador a opção de escolher o seu “time do coração” faz com que ela se torne a enquete mais abrangente sobre torcidas já feita no País.

Mas não é pesquisa científica, protestam os pragmáticos sistemáticos. E eu concordo. Realmente, é uma enquete que jamais pode ser desprezada, mas não é pesquisa científica. Por isso, neste post, que ofereço aos pesquisadores do Brasil, estagiários, estudantes, desempregados e à própria Caixa Econômica Federal, dou a fórmula, simples, de se transformar a Timemania em pesquisa científica.

Antes de divulgar a “Fórmula Odiriana para transformar a Timemania em Pesquisa Científica’, explicarei porque não se pode desperdiçar a abrangência nacional de uma enquete como esta.

Muitos já disseram que a única maneira de se fazer uma pesquisa fidedigna sobre torcidas de futebol no Brasil, precavendo-se das armadilhas do método científico por amostragem, seria incluir no censo populacional a pergunta sobre um único time de preferência de cada cidadão ou cidadã brasileiros. Só assim saberíamos exatamente o time para o qual cada brasileiro torce, e saberíamos também quantos não torcem para time nenhum. Como isso não foi feito e nem sequer é cogitado, a Timemania é a única oportunidade de se atingir uma abrangência maior, próxima de um censo.

Tenho dito que a Timemania é apostada em 65% das cidades brasileiras, mas descobri que estou sendo muito modesto. Informação da Caixa Econômica Federal de maio de 2008 dizia que havia 8.870 casas lotéricas em 3.499 cidades brasileiras. Como o Brasil tem 5.565 cidades, isso queria dizer que 62,8% dos municípios do País tinham casas lotéricas. Muito bem…
Quantas cidades tinham casas lotéricas em maio de 2008

Informação mais recente, provinda da Caixa em maio de 2014, diz que havia 13.076 casas lotéricas no Brasil, portanto 49% a mais do que em 2008. A matéria não informa quantas cidades a mais passaram a ter lotéricas desde maio de 2008, mas é natural esperar que destas 4.200 casas lotéricas abertas nos últimos seis anos, a metade, ou no mínimo um quarto, tenham como endereço as mais de duas mil cidades brasileiras que não possuíam casas da Caixa Econômica Federal – que, é bom lembrar, são um ótimo negócio, pois funcionam como agências bancárias.
Número de casas lotéricas aumentou quase 50% em seis anos

Então, não seria nenhum exagero imaginar que, hoje, no mínimo 80% das cidades brasileiras têm casas lotéricas e, conseqüentemente, recebem pessoas que anotam o seu “time do coração” na Timemania. Isso é uma quantidade espantosa, inalcançável para qualquer instituto de pesquisa.

Outro detalhe impressionante é que apesar de um número de apostas cada vez maior, a porcentagem de votos em cada time do pelotão de frente não se altera substancialmente de um ano para outro, assim como a posição de cada um dos dez mais votados. Isso prova que é consistência na enquete, ao contrário de outras pesquisas que apresentam resultados disparatados mesmo quando realizadas em intervalos menores de tempo.

Só para dar uma idéia do crescimento no número das apostas, lembro que o Flamengo terminou o ano de 2010 como o time mais votado da Timemania, com 3.848.273 votos. Agora, sua contagem parcial em 2014 já chegou a 6.468.142 votos. O Palmeiras, quinto colocado neste ano de 2014, já tem mais votos do que o Flamengo teve ao final de 2010. E se a porcentagem do rubro-negro em 2010 era de 6,38%, hoje é de 5,07%, apenas 1,31% menos.

Nesses quatro anos e meio a classificação dos dez primeiros pouco foi alterada. Flamengo e Corinthians continuam primeiro e segundo, respectivamente. O Santos era o terceiro em 2010 e o São Paulo, o quarto, hoje trocaram de posições. O Grêmio era o quinto e o Palmeiras, sexto, e também trocaram de posições. Internacional, sétimo, e Vasco da Gama, oitavo, continuam nas mesmas colocações. O Botafogo era o nono e o Cruzeiro, o décimo, e trocaram de posições.
Cheque os resultados e número de apostas na Timemania

E note que de lá para cá foram feitas cerca de 480 milhões de apostas, em milhares de cidades diferentes, por milhares (ou milhões) de pessoas que escolheram seus times dentre 80 times diferentes. Qual seria a possibilidade matemática de que os 10 mais votados continuassem os mesmos desde o início de 2010 até hoje, sabendo-se ainda que a cada ano a contagem é zerada?

Enfim, é evidente que essa abrangência da Timemania precisa ser aproveitada como pesquisa. E como fazer isso? Simples. Depurando os resultados da própria Timemania. É preciso saber quantas apostas cada apostador faz, em média; qual a porcentagem de apostadores que escolhem o seu próprio time como “time do coração” e qual a porcentagem de apostadores que deixam esse encargo para a “surpresinha”. Sabendo-se isso, teremos mais de um milhão de votos “válidos” a cada teste.

Além dessas informações básicas, seria interessante, também, saber a idade do entrevistado, o que serviria para definir as faixas etárias que mais apostam na Timemania. Nem vou incluir a pergunta sobre sexo, pois presumo que o entrevistador consiga distinguir o dito cujo de cada entrevistado sem precisar perguntar. E as cidades das lotéricas serviriam como indicativos de lugar.

Perguntas a serem feitas ao apostador da Timemania

Qual a sua idade?

Quantas apostas você costuma fazer em um teste da Timemania?

Que time você anota como “time do coração”:
( ) O time para qual você torce
( ) Um time qualquer
( ) Deixa a escolha para a surpresinha

Pois bem.A pesquisa é esta. Tem de ser simples, direta, de forma que todos entendam. Com ela saberíamos quantas pessoas efetivamente apostam em cada teste, pois suprimiríamos os volantes dobrados. Saberíamos também quantos votam aleatoriamente e quantos escolhem realmente o time para o qual torcem. Esses dados tabulados com os resultados de cada teste da Timemania seriam suficientes para nos fornecer uma pesquisa ampla e fidedigna.

Quem pode fazer isso? A própria Caixa, ou, o que é mais provável, grupos de estudantes que se proponham a fazer as perguntas nas lotéricas de sua cidade. Garanto que cada entrevista não durará mais do que um minuto. Com alguns grupos de entrevistadores espalhados pelo Brasil, teríamos a melhor pesquisa de torcidas – dentro da faixa etária da Timemania – que já se fez no País.

Se mesmo pesquisas que ouviram duas, três mil pessoas, já devem ser consideradas científicas, então bastaria ouvir 100 apostadores da Timemania em 20 ou 30 cidades brasileiras, espalhadas pelas cinco regiões do País, para termos uma amostragem que, cruzada com as informações dos testes da Timemania, daria uma ideia precisa do volume das maiores torcidas de futebol no Brasil.

O blog está aberto para receber os resultados e divulgá-los, assim como divulgar o nome dos entrevistadores e do professor responsável. Não se perderia muito tempo e poderíamos contribuir para transformar a Timemania em uma pesquisa consistente. O que acham?

E você, não acha possível transformar a Timemania em pesquisa científica?