A estratégia de um grupo político, principalmente em países de terceiro mundo, sempre se valeu do binômio pão-e-circo. O futebol, esporte de enorme interesse popular, sempre foi usado para agradar e anestesiar as massas. Assim, o sistema trata de favorecer os clubes de maior apelo entre as chamadas classes sofridas e operárias. O Santos incomodava esse sistema, pois não era um time de capital, não tinha grande torcida, mas apresentava o melhor futebol, era a base da Seleção Brasileira e possuía o maior ídolo do esporte, o incomparável Pelé. Em torno do Santos se formou um grupo de torcedores diferentes, que adoravam o belo, o estético, e por isso eram mais independentes e exigentes. Diversas vezes se anunciou que os “populares” Flamengo e Corinthians, com a ajuda de empresários e a simpatia do governo, tinham conseguido uma fortuna para tirar Pelé do Santos. Um outro clube talvez tivesse se rendido ao dinheiro e à pressão da mídia e do poder e se desfeito do Rei do Futebol. Porém, o Alvinegro da Vila Belmiro era dirigido por Athié Jorge Cury, um homem de visão e muita personalidade. Ele jamais se deixou seduzir pelas ofertas milionárias dos clubes brasileiros ou estrangeiros. O santista deve a ele o orgulho de ter tido o melhor jogador de todos os tempos por 18 anos consecutivos!

Veja a resposta curta e grossa do presidente do Santos, Athié Jorge Cury, à proposta do Flamengo, que em 1969 ofereceu dois bilhões de cruzeiros pelo passe de Pelé:

A visão de um homem nasce com ele, ou é fruto de uma época? Penso nisso porque há 68 anos, quando as viagens de avião eram raras, um presidente do Santos resolveu levar o time, de navio, para uma excursão desbravadora de três meses pelo Norte e Nordeste do País. O Santos fez 15 jogos contra os grandes de Recife, Natal, Fortaleza, São Luis e Belém e voltou invicto, em um de seus primeiros gestos históricos de grandeza.

Athié Jorge Cury, presidente do Santos de 27 de fevereiro de 1945 a 28 de fevereiro de 1971, que a partir de 1959 levou o Alvinegro Praiano para viajar pelos cinco continentes, ficaria acabrunhado de ouvir, hoje, em pleno século XXI, um candidato à presidência do clube dizer que o Santos não precisa jogar fora da Vila Belmiro.

Nascido em Itu, em 1º de agosto de 1904, Athié se formou em Economia pelo colégio Mackenzie, em São Paulo, foi trabalhar no rico mercado do café, em Santos, e se tornou um dos melhores goleiros da história do Alvinegro Praiano, titular do time do final de 1927 a 1933, cinco vezes vice-campeão paulista. Ingressou na política, que o levaria até o cargo de deputado federal, e aos 40 anos tornou-se presidente do Santos.

Vivia-se uma época em que Santos, então segunda cidade mais populosa do Estado (hoje é a 12ª), era um centro de vanguardistas, revolucionários e visionários (muitos deles exilados nos tempos da ditadura militar, a partir de meados da década de 1960, quando a cidade perdeu boa parte de sua rebeldia). Athié era o exemplo de um líder que enxergava além do seu tempo. Em novembro de 1946 levou o Santos, de navio, para uma excursão ao Norte/Nordeste e em fevereiro de 1947 trouxe o time de volta, invicto, depois de 15 partidas, em um feito inédito entre os clubes brasileiros.

Também decidiu que o Santos não venderia mais seus principais jogadores e que passaria a jogar buscando o título das competições. Mesmo antes de ser bicampeão paulista em 1955 e 56, tinha sido vice-campeão em 1948 e 1950. Com ele o Santos começou a pensar grande.

Quando teve de decidir onde jogar os jogos decisivos da Libertadores e do Mundial Interclubes de 1962 e 63, optou pelo Maracanã, pois sabia que no Rio de Janeiro a torcida ficaria cem por cento ao lado do Santos, ao contrário do Pacaembu, onde os torcedores rivais seriam capazes de ir ao estádio apenas para secar o Alvinegro Praiano.

Em uma época em que nem se ouvia falar em marketing, Athié não poderia ter sido mais feliz nessa decisão arrojada, pois os dois jogos contra o Milan, em 1963, bateram os recordes de público de um jogo internacional interclubes no Brasil, com cerca de 200 mil pessoas cada um.

Naquela época a torcida do Santos não lotaria o Pacaembu, e isso também influiu para que ele se decidisse pelo Maracanã. Se fosse hoje, Athié não precisaria ir tão longe para contar com o calor de santistas apaixonados. Nascido em Itu, estudante em São Paulo, Athié amou Santos e nela viveu e morreu. Fez muito pelo Santos sem precisar algemá-lo à Vila Belmiro. Era um homem sem amarras. Sua inteligência não tinha limites geográficos. E assim espalhou a paixão pelo Santos entre milhões de torcedores pelo mundo afora.

O homem tinham sensibilidade e visão para apostar nos jovens; apoiar a permanência do ofensivo técnico Lula por 13 anos à frente da equipe; jamais aceitar qualquer conversa sobre a possibilidade de vender Pelé; acreditar nos jovens e levar o Santos para viajar pelo mundo durante três meses ao ano. Até hoje essas sementes dão frutos. E os santistas de Santos, a maioria tão visionários quanto ele, o entendiam e apoiavam.

Mas o grande líder também cometeu seus pecados. Decidiu pela compra do caríssimo Parque Balneário Hotel, apostando na volta do jogo ao Brasil. Mas o jogo não voltou e o clube não teve como pagar o investimento, entrando em profunda crise financeira. Em sua gestão também ocorreram casos suspeitos de desaparecimento de dinheiro, como a da mala que sumiu na viagem da Europa para cá.

Athié deixou de ser presidente do Santos em 1971, e com ele também se foram as maiores glórias do time. Não construiu o maior estádio do mundo e nem aumentou substancialmente o patrimônio físico do clube, mas por 15 anos manteve na Vila Belmiro um dos melhores times do planeta, que venceu todas as competições que disputou, encantou platéias em dezenas de países e chegou a ter oito jogadores titulares na Seleção Brasileira. Eu não disse convocados, disse ti-tu-la-res!

Homens como Athié já provaram que é possível construir um futuro moderno, ousado e grandioso para o Santos. Estivesse vivo hoje – ele que morreu em 1° de dezembro de 1992, aos 88 anos –, acho que nem responderia a quem quisesse saber qual é o destino do Santos. Apenas apontaria um mapa mundi e sorriria.

Você não acha que o Santos precisa de um presidente visionário, como Athié?