Quando Daniel Alves comeu a banana jogada por um racista espanhol, uma campanha surgiu na mídia social em que pessoas de pele clara comiam bananas. O protesto dizia: se um negro é macaco, todos os homens são, já que todos são iguais. Entendi e concordei imediatamente com a proposta. A luta permanente contra o racismo é a luta contra a intolerância. Hoje à noite saberemos se o Grêmio e os gremistas a entenderam, ou apenas fingiram entender.

Pelos últimos acontecimentos, tenho minhas dúvidas. Felipão, um participante de um programa do Sportv e uma parte da opinião pública gaúcha jogaram a culpa pelo incidente racista justamente na vítima, o goleiro Aranha, que, segundo eles, deveria ter reposto a bola rapidamente em jogo depois de pisado por um jogador do Grêmio, e não ter ligado para a torcida que o chamava de macaco.

Há ofensas e ofensas. Imputar a alguém algum tipo de inferioridade pela cor da pele, assim como pela ideologia, religião e opção sexual, não é um xingamento qualquer. Trata-se de uma visão discriminatória que já levou e ainda leva a humanidade a padecer grandes tragédias. Somos todos de uma mesma e única raça, a humana, desde claros executivos gaúchos a negros pastores da tribo Zulu.

Somos homo sapiens, uma escala evolutiva adiante dos inteligentes, mas violentos chimpanzés. Devíamos estar preocupados em encontrar mais maneiras de viver em harmonia com nossos semelhantes, e não em nos dividirmos em tribos agressoras, que saem à caça dos rivais.

Não somos macacos, mas parecemos ser quando macaqueamos o que os outros fazem. Por exemplo: se cantarmos igual, comemorarmos gols da mesma maneira, desprezarmos os grandes ídolos do futebol brasileiro e idolatrarmos Maradona, estaremos macaqueando os argentinos. Estaremos assumindo o papel de macacos culturais, de pessoas que optaram por agir e pensar como outras, a quem, provavelmente, julgamos mais importantes.

Vivemos em um país abundante de história e cultura, convivemos em meio a uma diversidade de costumes maravilhosa, e é isso que faz a riqueza de um povo. Não precisamos macaquear ninguém. Temos apenas de aprender a conviver com nossos irmãos brasileiros e tirar de cada um o bom e o belo que podem nos dar.

Creio que o incidente com Aranha serviu para que muitos gaúchos e gremistas repensassem a forma como vêem os brasileiros de pele escura. Mas sei que, por outro lado, pode ter recrudescido em alguns o sentimento inexplicável de superioridade que nutrem com relação aos habitantes do País que vivem acima do Trópico de Capricórnio.

Esse negócio de tocar e cantar o hino do Rio Grande do Sul com mais entusiasmo do que o fazem com o Hino Brasileiro é um tipo de protesto perigoso, que estimula o separatismo. Hoje vivo, em Santiago, o Dia da Independência do Chile, e é comovente ver pessoas de todas as classes, cores e origens demonstrarem o sagrado amor pela pátria. Pena que nesse momento nem todos curtam esse amor em um Estado tão importante para a identidade nacional, como o Rio Grande.

O confronto desta noite, em Porto Alegre, colocará novamente esses valores em jogo. Saberemos se o arrependimento da menina e da diretoria do Grêmio foram sinceros, ou apenas da boca pra fora. O Santos será a cobaia para esse teste.

No campo, tudo indica que teremos uma disputa renhida, como sempre ocorre quando esses valorosos adversários se encontram. O Grêmio é favorito, mas não muito. Caso não vacile na defesa, o Alvinegro Praiano poderá voltar do Sul, ao menos, com um empate. Pressinto grande pressão sobre a arbitragem e os santistas. Mas espero que desta vez os limites entre os homens e os macacos sejam respeitados.

E pra você, como será o jogo e o clima desta noite, em Porto Alegre?