Como sabem, sou a favor de uma auditoria que passe o Santos a limpo e apure as causas de o clube chegar a esta situação caótica, em que pode perder jogadores importantes por atrasos de salários. Há no momento um consenso de que Luis Alvaro Ribeiro, seu sucessor Odílio Rodrigues e as pessoas que os ajudaram diretamente a dirigir o clube, são responsáveis por este fracasso administrativo. Entretanto, em uma democracia, não se pode negar às partes o direito de defesa.

Recebi o texto abaixo de Pedro Luiz Nunes Conceição, que foi diretor de futebol e membro do Comitê de Gestão do Santos e com quem, por seu comportamento educado e atencioso, sempre tive bom relacionamento, independentemente de concordar ou não com os rumos que o clube estava tomando. Corajoso, pois é preciso coragem para defender a administração de Laor e Odílio neste momento, Pedro Conceição argumenta que o mesmo quadro falimentar foi encontrado pela administração anterior, e sugere que o presidente Modesto Roma reclame menos e trabalhe mais para tirar o Santos desse buraco.

Bem, estas abaixo são as informações e a opinião de Pedro Conceição, que tem o direito de te-la e merece o espaço para divulgá-la. É a velha história: “mesmo que eu não concorde com uma palavra do que disseres, defenderei até a morte o direito de dize-las.” Peço que os meus queridos leitores/comentaristas analisem e comentem as informações e explicações do ex-diretor do Santos.

SANTOS FUTEBOL CLUBE: NOVO PRESIDENTE ASSUME EM GRAVE CRISE FINANCEIRA

Texto de Pedro Luiz Nunes Conceição

Janeiro de 2015,

O novo presidente do Santos acaba de assumir e já encontra o seguinte cenário:

· R$ 42,8 milhões de empréstimos bancários com vencimento no curto prazo;

· R$ 15,6 milhões de empréstimos de mútuo contraídos pelo antigo presidente após a eleição, mesmo sabendo que perdeu nas urnas;

· R$ 6,7 milhões de impostos e taxas atrasados;

· R$ 6,1 milhões de dívida com jogadores;

· R$ 790 mil de atraso junto à fornecedores diversos, incluindo Agências de Turismo, padaria, açougue…

Deste total de R$ 71,9 milhões, o clube precisa imediatamente de R$ 13,7 milhões, considerando salários atrasados, direitos de imagem, impostos e fornecedores.

Já os empréstimos com vencimento no curto prazo precisam ser transformados em longo prazo e ter os juros diminuídos.

A esta altura do texto, o leitor deve imaginar que estou me referindo ao presidente recém empossado, Modesto Roma Junior. Puro engano, pois me refiro ao presidente empossado em dezembro de 2009, Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro.

Aquela diretoria, quando assumiu 5 anos atrás, encontrou este cenário financeiro e, ao invés de ficar acusando a gestão anterior e arranhar a imagem do clube, decidiu soltar uma nota oficial no dia 28 de dezembro de 2009, refutando categoricamente as informações veiculadas por alguns órgãos de imprensa sobre a situação financeira encontrada (o teor desta nota está reproduzida no rodapé do texto).

Esta foi a segunda medida adotada por aquela diretoria.

A primeira foi arregaçar as mangas e trabalhar, contratando rapidamente o técnico Dorival Junior, formando a comissão técnica, iniciando o processo de negociação com jogadores, a despeito da grave situação financeira encontrada. O grupo de gestão não tinha nenhum Mecenas por trás mas tinha crédito e credibilidade na praça, buscou alternativas financeiras que permitiram ao clube respirar e ganhar fôlego, ao invés de ficar se lamentando diariamente, como vem fazendo o presidente Modesto Roma e seu grupo, sempre amparados pelo seu mentor, Marcelo Teixeira , através do veículo de comunicação oficial do ex presidente.

Isto serve para comprovar que a crise financeira do Santos Futebol Clube é histórica, não vem de hoje, assim como é histórica a falência do futebol brasileiro atual, que também não vem de hoje.

Portanto, passou da hora do presidente eleito, Modesto Roma , também arregaçar as mangas, começar a trabalhar e parar de se lamentar.

Ao assumir o clube em dezembro de 2009, a nova diretoria não teve o privilégio de uma transição transparente por parte do ex presidente Marcelo Teixeira. Este, deixou o clube (e por lá não apareceu mais durante os últimos 5 anos) sem cuidar da transição. Computadores estavam todos bloqueados, sem senha de acesso, impedindo que os novos dirigentes tivessem acesso aos bancos, cujas contas estavam ZERADAS. Um mútuo de R$ 15,6 milhões contraído pelo Instituto de Ensino do ex presidente ao final da gestão. Antecipação de cotas de televisão. Nada de patrocínio. Fora o restante da dívida com a família do ex presidente, a dívida direta e a dívida com bancos.

Ao assumir o clube em dezembro de 2014, Modesto Roma teve o privilégio de uma transição transparente por parte de Odílio Rodrigues. Soube de todas as dificuldades, de todos os números, dos contratos, do real cenário financeiro. A cota de televisão de 2015 foi sim antecipada, com a aprovação do Conselho Deliberativo, mas em compensação ficou para a nova gestão um patrocínio máster da Huawei negociado por R$ 18 milhões (aliás, não dá para entender o que impede o novo presidente de assinar o contrato).

Em dezembro de 2009, o clube faturou algo em torno de R$ 70,4 milhões/ano.

Em dezembro de 2014, o clube faturou algo ao redor de R$ 200 milhões/ano, ou seja, 184% de crescimento em 5 anos.

Da venda de jogadores de 2012 até 2014, uma parte foi destinada para amortizar as dívidas com a família do ex presidente. Os conselheiros do clube sabem disso. A gestão que acaba de deixar o clube fez uma opção: quitar (e quitou) toda a dívida da família Teixeira com os bancos. Restou o parcelamento direto com o ex presidente, ao redor de R$ 480 mil/mês, que ainda irá até agosto de 2017.

Dos 4 grandes clubes paulistas, o Santos foi o único que antecipou as cotas de 2015. Os demais avançaram 2016 e 2017. O Santos tem o menor faturamento entre os 4.

Uma coincidência muito infeliz: no início dos anos 2000, o grupo de Marcelo Teixeira usou a mesma tática que está sendo usada pelo seu “afilhado”, Modesto Roma (o grupo é o mesmo): detonar a gestão anterior, através do vazamento de informações maledicentes para a imprensa e para o Conselho Deliberativo. Chegaram ao ponto de entregar de bandeja o clube à CPI da CBF/Nike, de tal forma que ex dirigentes foram intimados a depor em Brasília, numa exposição pública que afetou bastante a vida de todos os envolvidos (que provaram a sua inocência).

A política no Santos Futebol Clube, como podem ver, não é diferente da praticada na maioria dos outros clubes, rasteira. Uma pena, pois gestão se troca, com o voto do associado, mas caráter não se troca.

Acima estão relatados fatos e contra fatos não há argumentos.

Agora sim, a minha opinião: participei em 3,5 anos do total de 5 anos da gestão e entendo que o que intensificou a crise financeira (que como os fatos acima comprovam, é histórica), foi o clube não estar preparado para a saída do Neymar. O marketing era muito (ou todo) concentrado no atleta, tanto que o clube ficou 2 anos sem o patrocínio máster, deixando de receber no período algo em torno de R$ 36 milhões. Além disso, a crise econômica no país, o advento da Copa do Mundo desde 2013 (com a realização da Copa das Confederações), tudo isto mexeu com o mercado publicitário e o Santos foi um dos primeiros clubes a sentir a dificuldade em renovar o patrocínio máster (seguiram-se na ordem Palmeiras, São Paulo e mais recentemente o Corinthians). Isto impactou diretamente no fluxo de caixa, a gestão não podia deixar de reforçar o time , recorreu ao mercado financeiro, a investidores, à antecipação de cotas, formando, assim, um circulo vicioso.

Quem é ou foi dirigente e participa da vida política do clube, sabe que para o torcedor em geral esta discussão é patética, atinge a imagem do clube e o que importa mesmo é saber se ocorreram conquistas dentro de campo. Neste aspecto, a gestão que acaba de sair também deu a sua rica contribuição para enriquecer ainda mais a galeria de troféus do Santos Futebol Clube. Queiram ou não, foi a gestão mais vitoriosa dentro de campo pós era Pelé.

Portanto, criticas responsáveis, ainda que contundentes, devem ser respeitadas, mas insinuações maldosas e covardes feitas à gestão anterior precisam cessar, como precisa cessar a inércia demonstrada pela atual gestão neste início de mandato.

Está na hora de trabalhar, presidente Modesto Roma Teixeira.

Pedro Luiz Nunes Conceição
(Sócio há 35 anos, conselheiro eleito em 3 mandatos, diretor de futebol 2010/2011 e membro do Comitê de Gestão de 2012 até julho de 2013)

E você, concorda com as explicações do ex-diretor de futebol do Santos?