Uma coisa que aprendi há muito tempo – e na única vez que desobedeci a esta máxima me dei muito mal – é que você não pode fazer novas dívidas enquanto não pagar as anteriores. Essa prática de “comprar” primeiro e depois ver como vai pagar, é a raiz de todos os males financeiros do mundo, de simples orçamentos familiares aos de grandes empresas.

Outra coisa que aprendi, ainda no campo das dívidas, é que se há algo que irrita o seu credor é ver você gastando com novas compras sem antes pagar o que lhe deve. O sujeito deve pensar mais ou menos assim: “Quer dizer que para me pagar não tem dinheiro, mas para pagar os outros, tem? Tá bom. Vou deixar de ser bonzinho e encostar esse cara na parede!”

Diante disso, é claro que não posso concordar com as três contratações que a administração de Modesto Roma já fez: as de Chiquinho, Ricardo Oliveira e Elano. Não entendo como se pode gastar um dinheiro que não se tem, e ao mesmo tempo fico imaginando se não foram estas contratações temerárias que despertaram em muitos jogadores o desejo de recorrer à Justiça pelos seus direitos.

Sempre pedimos que os jogadores do Santos retribuam o carinho e a paixão dos torcedores e acho que eles podem e devem fazer isso, mas desde que se sintam respeitados pelo clube. Estas contratações vieram em hora muito ruim e passaram aos jogadores atuais do elenco a mensagem de que eles são menos importantes do que os que estão chegando.

O pior é que, dos contratados, dois estão em franca decadência: o atacante Ricardo Oliveira, que fará 35 anos em maio, está vindo do anônimo Al Wasl, dos Emirados Árabes. Com as chegadas do brasileiro Jucilei e do equatoriano Felipe Caicedo ao time árabe, Oliveira foi dispensado. Será que ele terá pernas e disposição para ser titular de um ataque que contará com Gabriel, Geuvânio e Robinho? Acredito que o mais provável é que fique na reserva. Aliás, mais um reserva oneroso para o Santos.

Quanto ao meia Elano, que em julho completará 34 primaveras, seu retorno à Vila Belmiro é quase um acinte. Depois de sua conturbada passagem pelo clube em 2011-2012, jamais deveria voltar ao Santos. Parado em campo, mas muito agitado fora dele, Elano foi um péssimo exemplo para os jovens e não deixou saudades. Volta agora porque está sem mercado. Vem de uma temporada no Chennaiyin, da Índia.

O terceiro contratado é Chiquinho, misto de lateral e meio-campo, que não interessava ao Fluminense e por isso foi descartado do clube carioca. Com 25 anos, nível técnico mediano, talvez ainda dê um caldo e possa ser aproveitado diante da saída de alguns titulares, mas sua presença não era necessária.

Por fim, outra coisa importante que aprendi sobre dívidas, é que se você as faz, tem de ter um plano para quitá-las. E se o Santos, endividado até o pescoço, ainda está aumentando o buraco com essas contratações, qual é o plano para trazer mais dinheiro para o clube? Eu digo plano concreto, ligado a trabalho e produção, e não a saída manjada de ir pedir adiantamento de cotas à Rede Globo, ou perdão das dívidas ao governo.

Um santistinha de quatro anos que porventura estiver lendo este post imediatamente responderá (sim, santistas de quatro anos já sabem ler): “Ué, seu Odir, é pegar o dinheiro dos jogos e pagar as contas”. Muito bem! Há outras maneiras de um clube arrecadar dinheiro, como patrocínio de camisa, marketing, campanha de associados, mas, reconheço, a mais direta, aquela em que até uma criança de quatro aninhos pensa em primeiro lugar, é a arrecadação dos jogos. Pois bem…

Estou vendo a tabela do Campeonato Paulista e o que constato? Todos os jogos com mando do Santos estão marcados para a Vila Belmiro. O santista de quatro aninhos me lembra que na Vila a média de público é de nove mil pessoas, a pior da Série A do Brasileiro, e que o Santos dá mais público – e renda – quando manda seus jogos em São Paulo ou no Interior. Ele ainda recorda que na Copa do Brasil, os jogadores – alguns desses que estão entrando ou pensando entrar na Justiça para receber os atrasados – pediram para o Santos enfrentar o Cruzeiro na Vila Belmiro e o Santos, além de ser desclassificado, perdeu no mínimo três milhões de reais em arrecadação.

Pois é. Queremos dar um voto de confiança ao presidente Modesto Roma, mas assim fica difícil. Nada mais falou sobre a auditoria prometida, nenhum jogo do Santos no Campeonato Paulista foi marcado para o Pacaembu e, mesmo atolado em dívidas, o clube contrata dois veteranos decadentes e um jogador apenas mediano, mas não consegue colocar em dia os salários dos atuais contratados. O garotinho de quatro anos está balançando a cabeça, desacorçoado. Espero que ele não desista de ser santista.

E você, o que achou das contratações de Modesto Roma?