Repare que no primeiro gol santista havia seis jogadores do Santos na área e nove do adversário. Isso é que é ir pra cima pra decidir a partida.

Nos jogos contra Mogi Mirim e Red Bull foi a mesma coisa: o Santos atacou para valer apenas no início dos tempos, e depois recuou, abdicou da posse de bola e ficou especulando contra-ataques ou bolas espirradas após chutões para a frente.

O time não perdeu, mas o torcedor se sentiu frustrado. O santista se acostumou a ver o Santos no ataque, principalmente quando enfrenta times pequenos. Essa postura intencionalmente defensiva parece um tipo de trapaça com o espectador, como se o Santos não tivesse nenhuma responsabilidade com a chamada qualidade do espetáculo.

Já analisamos aqui a difícil situação financeira do clube e suas possibilidades de faturamento. Confirmo minha opinião – abalizada por tantos leitores deste blog – de que só mesmo uma grande campanha para turbinar o seu quadro de associados pode tornar o Santos competitivo, já que nos outros quesitos, como cotas de tevê, patrocínio máster e arrecadações ele está bem atrás de seus principais concorrentes.

Mas uma campanha para atrair associados, assim como a busca por maiores arrecadações e melhores possibilidades de se obter patrocínio passa pelo fascínio que o time exerce em seu torcedor e no universo do futebol. Mesmo perdendo, o Santos já foi muito mais empolgante quando jogava pra frente e parecia tocado pela vontade irresistível de fazer gols.

Nem é preciso pensar muito para se lembrar qual o último jogo que fez o santista ir pra casa com a alma lavada. Sim, a goleada de 5 a 1, fora o baile, sobre o time que pouco mais de um ano antes tinha sido campeão do mundo. No final do Paulista, perdeu para o Ituano, mas aquela goleada marcou mais do que a decisão do título.

Se há um torcedor que adora ver goleada é o santista. Por isso, ele se amofina, se exaspera e perde a razão quando vê o seu time, preguiçosamente, voltar para a defesa depois de marcar um mísero gol. Tudo bem que outros times ganhem até títulos mundiais assim jogando assim, por uma bola, mas o Santos sempre foi diferente, sempre quis mais, por que se mediocrizar agora?

É o técnico que manda, ou os jogadores que decidem?

Será que é o Enderson Moreira que manda o time recuar? Será que foi ele que pediu isso domingo, em São José do Rio Preto, diante do regular, mas limitado Red Bull? Não acredito.

Como este filme nós já vimos várias vezes antes, temo que esse comportamento, mais do que uma decisão tática do treinador, seja adotado pelos jogadores do Santos como uma forma de obter a vitória, ou segurar o empate, sem correr maiores riscos físicos.

Sabe-se que o jogador que sofre mais faltas e se machuca mais é o que tem a bola. Ele também se expõe mais do ponto de vista técnico, pois precisa criar jogadas, enquanto seu adversário receberá urras da platéia se simplesmente chutar a bola para fora. Destruir é bem mais fácil do que construir, obviamente.

Mas o Santos só tem alguma fama até hoje e só impõe respeito porque se especializou em construir jogadas de ataque. E isso começa com a organização que vem desde a defesa, a troca precisa dos passes, as deslocações, dribles, tabelas e os bons arremates a gol. Tudo isso está faltando ao time, porém.

Diante do Mogi Mirim o ataque santista nada fez. Diante do Red Bull, venceu com um gol contra e um pênalti que caiu do céu. Não dá para se contentar com um rendimento ofensivo desses. E não dá para esperar que o Santos só jogue como um Leão do Mar na Vila Belmiro. O campo, a grama, as dimensões, são as mesmas. E domingo quase a totalidade da torcida era santista. Ficar atrás contra o Red Bull chega a ser constrangedor.

Nesta quarta-feira, às 22 horas, provavelmente diante apenas de sua torcida – como quer o promotor de justiça Roberto Senise Lisboa –, em um clássico com tevê aberta, provavelmente o rendimento do time será outro. Mas por que os jogadores só deixam para jogar futebol de verdade em casa e nos grandes jogos?

Enderson tem de ter coragem mexer no e com o time

Com tantos jogadores jovens para serem testados neste Campeonato Paulista, encher o time com veteranos não é inteligente e diminui a velocidade da equipe. Talvez esta seja a razão do precavido comportamento tático do time, pois a mesma velocidade que se usa para atacar, é necessária para recompor a defesa. Pode ser também o decantado cansaço de início de temporada. Mas será que só os santistas estão cansados?

Como muitos leitores deste blog têm dito insistentemente, e com razão, o Santos é o tipo de time em que se há dois jogadores de nível técnico equivalente para uma posição, e um deles é um Menino da Vila, então não há o que pensar. O garoto deve ter a preferência. Até porque costuma ser patrimônio do clube.

É evidente que Daniel Guedes na lateral-direita, Caju na lateral-esquerda, Gustavo Henrique na zaga, Alison no meio, Geuvânio e Gabriel no ataque são imprescindíveis para remoçar e dar vitalidade e velocidade ao time. Eu ainda testaria Lucas Crispim no meio, pois acho que o garoto vai emplacar.

Está mais do que na hora de escolher um jogo e botar a molecada em campo. Se der errado, paciência, mas é isso que o torcedor quer ver. Essa impotência ofensiva do time, com jogadores dispersos na frente à espera de um chutão do David Braz, é muito pouco para o time que mais gols marcou na história do futebol.

E para você: o Santos recua porque o adversário ataca, ou o adversário ataca porque o Santos recua?