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Paulo Schiff, ex-presidente do Conselho Deliberativo do Santos na gestão Luis Alvaro Ribeiro/ Odílio Rodrigues, hoje editor do site “Transparência Santista”.

Como tantos santistas, tenho recebido e-mails de um site que se auto-intitula “Transparência Santista”. Seu editor é o jornalista Paulo Schiff, presidente do Conselho Deliberativo na última gestão que dirigiu o Santos. O site tenta explicar que todas as ações da diretoria anterior foram realizadas dentro da maior lisura e não há motivos para desconfiar de ninguém que fez parte dela. Bem, não quero ensinar o Padre Nosso ao vigário, mas se o colega Schiff está mesmo interessado em transmitir credibilidade e mostrar transparência aos santistas, é imprescindível que o site explique, bem explicadinho, as duas mais nebulosas transações de jogadores já feitas na história do Santos: a contratação de Leandro Damião e a venda de Neymar.

O milagre de ter quatro milhões em caixa e gastar dez vezes mais

Se o clube não tinha dinheiro no início de 2014, como o presidente Odílio Rodrigues revelou para dezenas de veículos de comunicação, e se o valor liberado para contratações naquele ano, ainda segundo ele, era de apenas quatro milhões de reais, por que decidiu gastar 41, 6 milhões de reais na contratação do limitado Leandro Damião, que já estava em baixa e era reserva do Internacional?

E por que, em suas entrevistas iniciais sobre o interesse do Santos por Leandro Damião, Odílio insistiu que estava conseguindo um “parceiro” para fechar o negócio? Por que manteve esse mesmo discurso de “parceria” e mesmo em 31 de março de 2014, em entrevista para a Agência Estado, afirmou: “O Santos, como qualquer outro clube, não tem dinheiro para o investimento. Resolvemos trazer o Leandro Damião e buscamos um investidor, que nos permitiu trazê-lo.”

Durante muitos daqueles dias o santista ficou com a ideia de que a Doyen Sports, a “parceira”, estava comprando o jogador e usando o Santos como “barriga de aluguel”. Menos mal que fosse assim, pois seria uma temeridade fechar o negócio nas bases oferecidas pela Doyen – empresa suspeita, que tem sua sede em um paraíso fiscal – como alertaram dirigentes de outros clubes paulistas que já tinham recusado fazer contratos com a tal empresa.

Por que o presidente Odílio entrou nesse negócio de extremo risco, mesmo sabendo que o dinheiro emprestado pela Doyen não seria pago durante o último ano de sua gestão? É uma das perguntas que um site sobre transparência deveria responder. Há um ditado popular que diz: “Dize-me com quem andas, eu te direi quem és”. Se nenhum outro clube consultado quis fazer negócios com a Doyen, por que o Santos aceitou?

Meu caro Paulo Schiff, sabemos muito bem que um banco não é um investidor, mas um emprestador de dinheiro, que não corre nenhum risco no negócio, pois empresta a juros altíssimos e esfola quem não paga. No caso da contratação de Damião, a Doyen agiu simplesmente como um banco. Não foi “parceira” coisíssima alguma. Emprestou o dinheiro a juros de 10% ao ano com correção em euros. Imagine a que valor chegou o montante agora, pois um ano já se passou e o real está sendo vertiginosamente desvalorizado.

Aliás, foi preciso que a Doyen fizesse um comunicado público para esclarecer que não era parceira, que não dividia risco algum na contratação de Leandro Damião, era apenas a empresa que havia emprestado dinheiro ao Santos, mas que esperava recebê-lo com juros e correção. Só depois da divulgação da Doyen é que o presidente Odílio Rodrigues deixou sua versão anterior e explicou melhor como se deu o negócio.

E por que, finalmente, mesmo correndo tamanho risco, mesmo investindo o maior valor já gasto por um clube em uma contratação em toda a história do futebol brasileiro, o Santos concordou em ganhar apenas 20% de um hipotético lucro com a venda do jogador? Que negócio absurdo foi esse, prezado Paulo Schiff, em que um dos lados assume todo o risco e fica só com 20% do lucro?

Esse negócio horrível e mal explicado da compra de Leandro Damião continua sangrando o clube até hoje e, infelizmente, deverá continuar a fazê-lo por muito tempo. O valor que o Santos pagou pelo passe de Damião é irreal, totalmente fora de mercado. Além do valor do passe, o Santos concordou em lhe dar salário de 650 mil reais e mais 50 mil reais de auxílio moradia. Ou seja, 700 mil reais por mês de despesas para um jogador que, devido à sua falta de qualidade técnica, se tornou reserva de um garoto de 18 anos (Gabriel) e hoje está emprestado ao Cruzeiro, que lhe paga 400 mil reais por mês – o restante do salário continua sendo pago pelo Santos, que tem essa despesa sem utilizar o jogador.

Como sócios, como torcedores, e, no meu caso, também como jornalista especializado em futebol, dono deste blog voltado para a comunidade santista, e ainda conselheiro eleito do Santos, nós temos a obrigação de saber os detalhes e os porquês desse negócio.

Na pior das hipóteses, o Código de Defesa do Consumidor nos dá o direito de exigir respostas. Somos consumidores da marca Santos, pagamos anuidades e ingressos para os jogos, damos audiência para o time na tevê, nos alegramos ou sofremos com os resultados do Santos, temos o direito, sim, de saber exatamente o que a gestão anterior fez para levar o clube à situação de penúria que vive hoje, após cinco anos de uma administração da qual o senhor foi um dos cabeças, senhor Paulo Schiff.

Mas este, infelizmente, não foi o único caso estrondoso sem explicação realizado no tempo em que o senhor presidia o Conselho Deliberativo do Santos. Estrondoso porque até hoje tem grandes repercussões internacionais. Falo da obscura venda do passe de Neymar, o melhor jogador brasileiro dos últimos tempos, ao Barcelona.

Ser o dono do passe de Neymar e ganhar menos que todos

Como o senhor deve estar sabendo, na Espanha o ministério público solicitou a prisão do presidente do Barcelona, Josep Maria Bartomeu, e do ex-presidente, Sandro Rossell, pelas irregularidades encontradas na contratação de Neymar, em 2013. A pena pedida para Rosell é de sete anos e três meses de detenção, e a de Bartomeu, de três meses. O ministério público espanhol também solicita que o Barcelona seja multado em € 33 milhões (R$ 115,3 milhões). Portanto, a transação foi super nebulosa e precisa ser esclarecida.

Como o Santos, que era o detentor dos direitos do passe de Neymar, fica nessa história toda? Qual é a versão do Santos, tim-tim por tim-tim, para este marcante imbróglio futebolísitico internacional? Por que o Santos, dono do passe de Neymar, foi o que menos recebeu com a transação? Quanto, exatamente, entrou nos cofres do Santos? Alguém mais ganhou comissão nessa transação? Quem e quanto?

Então, veja bem, colega Paulo Schiff, é normal que as pessoas pensem e falem coisas diante de certas circunstâncias. Se estas negociações envolveram fortunas e não foram muito bem explicadas, é compreensível que surjam desconfianças por parte do torcedor, das pessoas comuns, infelizmente acostumadas a tantas falcatruas em nosso País. Um time de futebol é parte importante da vida dessas pessoas, que de uma hora para outra viram o seu clube, de um dos mais ricos do País, se tornar um dos mais pobres. A indignação é normal. A indignação é o estado de ânimo que precede a correção de todas as injustiças.

A desconfiança, no caso, também é natural e necessária. Um investigador de polícia e mesmo um promotor de justiça usam da desconfiança para elaborar perguntas, buscar provas, juntar fatos e estabelecer a verdade. Toda investigação parte de uma desconfiança. Mas ela só persiste se os testemunhos não encaixam, se os fatos não batem. Os que não devem, entretanto, não têm por que temer.

De qualquer forma, se você, colega Paulo Schiff, que eu reputo honesto e bem-intencionado, se dignou a lançar um site com o nome de “Transparência Santista”, é porque admite que há muito da gestão anterior a ser esclarecido. Faço votos de que consiga esclarecer convenientemente ao menos esses dois casos que citei: a compra de Leandro Damião e a venda de Neymar, que, juntos, explicam a maior parte da terrível crise financeira pela qual passa o nosso querido Santos Futebol Clube.

Mesmo sem Robinho, o time sem colete ganhou mais uma no rachão:

Meninos da Escolinha do Santos no Japão visitam o CT Rei Pelé. Eles foram campeões estaduais no Japão vencendo um campeonato com 300 participantes:

E você, acha que houve transparência na gestão Laor/Odílio?