Dívidas a curto prazo chegam a R$ 190 milhões

De acordo com o balanço financeiro publicado pelo Santos nesta quinta-feira, no ano passado o futebol deu um prejuízo de R$ 58,955 milhões ao clube, o patrimônio líquido chegou a R$ 203 milhões negativos e as dívidas de curto prazo chegaram a R$ 190 milhões ao final de 2014, fim da administração de Odílio Rodrigues.

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Robinho e a Bola, por Ivan Storti (Santos FC)

“O feijão e o sonho” é o título do livro mais conhecido do escritor brasileiro Orígenes Lessa (Lençóis Paulista, SP, 12 de julho de 1903 — Rio de Janeiro, 13 de julho de 1986). Dono de raro talento para as letras, Orígenes trabalhou como jornalista, publicitário, romancista e se tornou membro da Academia Brasileira de Letras. Homem de convicções claras, foi preso na Revolução de 1932 e ficou encarcerado na Ilha Grande. No livro “O feijão e o sonho” ele conta o dilema do poeta Campos Lara, dividido entre seguir o seu dom artístico ou priorizar o sustento da família. Creio que o nosso Santos Futebol Clube sempre viveu essa mesma inquietação, o que se torna mais evidente em momentos como este, da final do Campeonato Paulista.

Não recrimino quem se deixa levar pelo sonho. Eu mesmo, tão calmo e racional para quase tudo na vida, fico com as mãos geladas durante os jogos decisivos do nosso Santos. Uma vitória, um título, lavam a alma, mesmo que sejam no humilde Paulistinha.

Sim, porque nós, santistas, talvez mais do que os outros torcedores, somos românticos, vivemos um sonho e, muitos de nós, não queremos acordar dele. Levar uma decisão de campeonato para a Vila é seguir sonho antigo, bem antigo; acreditar que o adversário se amedrontará por pisar no sagrado gramado do Urbano Caldeira é uma ilusão que já virou pesadelo várias vezes; confiar que os mesmos jogadores santistas que preferem jogar na Vila também escolherão continuar no Santos mesmo que o salário oferecido pelo clube seja muito menor do que a proposta de outros, é outro sonho.

Estou apenas constatando, mas nem posso criticar essa visão das coisas, pois também sou um santista romântico sonhador. Talvez por isso tenha dedicado tanto tempo da minha vida a escrever livros e estudar essa vida feérica do Santos e de seus grandes jogadores. Acredito que a atração pela fantasia que representa os grandes feitos do nosso time ainda tenha o dom de cativar pessoas, de atraí-las para o nosso lado. Mas talvez eu esteja errado, não sei.

Lembro-me que discordei quando Marcelo Teixeira aceitou que os dois jogos da final do Campeonato Brasileiro de 2002 fossem no Morumbi, com torcida dividida. Como o Santos havia vencido bem as partidas eliminatórias na Vila Belmiro, por que arriscar as duas partidas no Morumbi, contra um adversário poderoso e popular? Pois assim foi feito, e os Meninos ganharam os dois jogos, com um público de 74 mil pessoas na segunda partida – a maior parte delas, santistas. Eu estava errado, ainda bem. De lá para cá, não deixei de ser sonhador, mas tento manter os pés no chão.

Antes, como o mesmo Marcelo Teixeira na presidência, o Santos levou a decisão do Rio-São Paulo de 1999 para o Morumbi, contra o Vasco, e o time perdeu por 2 a 1 diante de 32 mil pessoas. No mesmo Morumbi, em 2003, jogou a final da Libertadores contra o Boca Juniors, e perdeu por 3 a 1, mas assistido por 74 mil pessoas, e em 2007, na decisão do Paulista, também fez os dois jogos da final no Morumbi, e foi campeão depois de perder a primeira partida por 2 a 0 e vencer a segunda pelo mesmo placar, com 32 mil pessoas no primeiro jogo e 59 mil no segundo (lembro-me que nesta segunda partida, para a qual eu nem tinha comprado ingresso, cheguei quando o jogo já tinha começado, passei minha carteirinha de sócio na catraca e entrei, rápido e sem nenhum problema). Lembro tudo isso para mostrar que Marcelo Teixeira não era tão provinciano como alguns fazem questão de dizer. Ele também sabia que saco vazio não para em pé.

Assim como o imortal Orígenes Lessa teve de conciliar o trabalho de publicitário com o de escritor, para sustentar a família e, ao mesmo tempo, não permitir que seus sonhos morressem – drama com a qual convivo desde sempre, aliás – o Santos precisa encontrar um meio termo entre não perder a fantasia e continuar a crescer.


Este é o genial Orígenes Lessa. Respeito com o mestre.

Mas a realidade é dura e impõe necessidades às vezes incompreensíveis para um romântico. Veja que enquanto Corinthians e Palmeiras já batem na casa dos 100 mil sócios, o Santos não conseguiu 1.000 novos associados em 2015 e, pelo que lemos e ouvimos, está perdendo muitos deles com essa decisão de excluir a maioria da decisão de um título. E se compararmos arrecadações, patrocínios e verba de tevê, perceberemos tudo o que nosso coração reluta em aceitar.

Nosso time se apequena e se volta para a sua cidade, para o seu bairro, para os seus amigos de bar e sua turminha do tamboréu no canal X, diante da barraquinha Y. Neste caso, nem é possível dizer que segue o seu sonho, pois, como ensinou o visionário Athié Jorge Cury, o sonho do Santos tem o tamanho da Terra.

Reveja a bela matéria do Globoesporte sobre a última vez em que o Santos ganhou um título para um público superior a 40 mil pessoas. Exatamente 59.063 torcedores viram o emocionante Santos 2 x 0 São Caetano, no Morumbi, em 6 de maio de 2007.

E pra você, como transformar os sonhos do Santos em realidade?