Faz tempo que jogar na Vila é um pesadelo para os visitantes

Veja os bastidores do Santos no primeiro jogo da final:

Tenho recebido comentários desanimados de sócios do Santos que não conseguiram comprar ingressos para a final de domingo e, por isso, estão pensando seriamente em não serem mais associados do clube. Agora mesmo interrompi a redação deste post para atender ao amigo Ricardo Rangel, sócio do Santos desde 1978, conselheiro suplente nesta gestão, que queria comprar ingressos para ele e seus filhos, mas entrou no site do clube logo que abriram as vendas e, segundo ele, os ingressos já estavam esgotados.

Escolher um estádio que só comporta 14 mil pessoas, das quais menos de 12 mil devem ser santistas, sabendo que o clube tem cerca de 25 mil sócios adimplentes, é uma temeridade. Já que a única vantagem do sócio do Santos é pagar meia entrada nas partidas, não poder assisti-las torna essa associação inútil, alegam eles. A meu ver, porém, a situação não é tão simples e permite análises de vários ângulos, favoráveis ou não à escolha da Vila Belmiro para este jogo. Vejamos alguns:

1 – Somos sócios para ajudar o Santos. Se em algumas partidas nossa ajuda presencial não é necessária, pois seremos bem representados por um estádio lotado empurrando o time, então que nos conformemos. É óbvio que, qualquer que fosse o tamanho do estádio, muitos santistas interessados em ver o jogo ficariam de fora.

2 – Nestes confrontos decisivos, os jogadores e a comissão técnica do Santos têm preferido jogar na Vila Belmiro. Então, cabe a pergunta: historicamente, o Santos tem mesmo uma probabilidade maior de vitória quando manda seus jogos na Vila Belmiro? Mesmo sem fazer todas as pesquisas necessárias, eu diria que sim. Mas é uma diferença mínima para o Pacaembu, por exemplo. Na verdade, nos últimos anos, o Santos tem vencido mais quando manda seus jogos no estádio paulistano.

3 – Se for campeão, o Santos ganhará um prêmio de três milhões de reais. Se jogasse no Pacaembu, ou Morumbi, provavelmente já ganharia esse dinheiro com a renda do jogo, independentemente de conquistar o título ou não. Fica a pergunta: vale a pena perder dinheiro com a arrecadação e descontentar torcedores e sócios pela vantagem teórica – que não representa 10% a mais de chances de vitória – de jogar na Vila Belmiro? Os jogadores e a comissão técnica acham que sim e a diretoria, que também tem o objetivo político de satisfazer o seu curral eleitoral na cidade de Santos, concorda. O presidente Modesto Roma disse que ouviu os torcedores, mas, certamente, se referiu aos torcedores mais próximos dele. Se ouvisse a maioria dos santistas de todo o Brasil, fatalmente a decisão seria outra.

4 – Mesmo endividado, será que o título não pode trazer ao Santos maior visibilidade e maiores possibilidades de conseguir um bom patrocínio? Neste caso, não vale a pena correr o risco de perder dinheiro a curto prazo, mas aumentar a chance de ganhá-lo em maior quantidade em médio e longo prazos? Outra pergunta que se aplica no caso é: há um plano para capitalizar um possível título Paulista e transformá-lo em ações de marketing, ou passará em branco?

5 – Mas um time grande, com uma grande torcida, poderá chegar ao patamar de 100 mil sócios e de arrecadar o mesmo que seus principais rivais jogando em um estádio pequeno? Não está na hora de o Santos trabalhar esse aspecto psicológico de seus atletas para que se sintam em casa em qualquer estádio, desde que sejam incentivados por 90% dos torcedores presentes, como ocorreria se jogasse no Pacaembu ou Morumbi? Ou alguém diria que o Alvinegro Praiano, na época em que realmente era Gigante, se sentiu fora de casa enfrentando o Milan, no Maracanã?

6 – Desprezado pela TV Globo, que tem a sua própria divisão geopolítica do futebol brasileiro, e pelos grandes patrocinadores, que não o vêem como um time de massa (e a própria direção do clube lhes dá boas razões para pensar assim), as opções mais viáveis para o Santos arrecadar o dinheiro suficiente para se manter como time competitivo é conseguir grandes arrecadações e aumentar significativamente seu quadro de sócios, e isso é incompatível com a filosofia de jogar seus grandes jogos na Vila.

7 – Se a decisão definitiva é mandar seus jogos na cidade de Santos, então é evidente que o estádio Urbano Caldeira, neste formato reduzido em que está hoje, não comporta os sonhos de um Santos maior. Ou ele tem de ser bem ampliado, ou o clube deveria buscar uma parceria com os coirmãos Portuguesa Santista e Jabaquara e, principalmente, com a Prefeitura de Santos, para a construção de um grande e moderno estádio municipal, com capacidade de 30 a 40 mil pessoas. Um estádio amplo, mais confortável, com visão total do jogo, melhores condições de estacionamento e segurança, atrairia muito mais torcedores, faria o paulistano voltar a descer a serra para ver jogos de seu time e com isso a média de público beiraria 15 mil pessoas, tirando o Santos do limbo em que se encontra.

8 – Por outro lado, esta decisão de campeonato em casa, com todos os detalhes da organização do espetáculo nas mãos da diretoria do Santos, nos dará uma boa ideia do nível de organização do clube com esta nova gestão. Diante de tanta procura por ingressos, será inadmissível se o estádio não estiver completamente tomado e se todos os ingressos não forem comprovadamente vendidos. Se surgirem entradas nas mãos de cambistas, ou se forem distribuídos ingressos de cortesia para um jogo em que tantos querem pagar para assistir, alguma coisa estará errada, muito errada. Ah, e que não vejamos também aqueles buracos enormes nas cativas, e nem sejamos surpreendidos por uma lista gigante de despesas diversas.

Estádios das decisões do Santos desde 2002

2002 – Brasileiro – Morumbi – campeão
2003 – Libertadores – Morumbi – vice
2004 – Brasileiro – Teixeirão (S.J. do Rio Preto) – campeão
2006 – Paulista – Vila Belmiro – campeão
2007 – Paulista – Morumbi – campeão
2009 – Paulista (1º jogo) – Vila Belmiro – vice
2010 – Paulista – Pacaembu – campeão
2010 – Copa do Brasil (1º jogo) – Vila Belmiro – campeão
2011 – Paulista – Vila Belmiro – campeão
2011 – Libertadores – Pacaembu – campeão
2012 – Paulista – Morumbi – campeão
2012 – Recopa Sul-americana – Pacaembu – campeão
2013 – Paulista – Vila Belmiro – vice
2014 – Paulista – Pacaembu – vice
2015 – Paulista – Vila Belmiro – ……

Agora veja lances da vitória do Sub-15 sobre a Portuguesa Santista, no estádio Ulrico Mursa. Só por estes lances gostei do goleiro, de um zagueirão, de um meia canhotinho e já percebi que o juizão não deu falta clara para o Santos na entrada da área:

E você, acha que a escolha da Vila Belmiro foi acertada?