Gustavo Henrique
Gustavo Henrique deu as boas-vindas para Rafael Longuine… Mas ninguém se machucou (Foto: Ivan Storti/ Santos FC)


Com a adoção da negociação coletiva dos contratos com a TV, a Espanha abandona o sistema que estava acabando com a competitividade e reduzindo o seu futebol a apenas dois clubes. Porém, mesmo ultrapassado e prejudicial ao esporte, o mesmo sistema é adotado sem muita oposição no Brasil, onde a Rede Globo busca eternizá-lo com a ajuda de políticos e dirigentes interesseiros ou submissos. Está mais do que na hora de se criar a Liga dos Clubes.

Uma das bandeiras que este blog sempre defendeu é a da luta contra a Espanholização, mal que pode acabar com a competitividade do futebol brasileiro. Se até na Espanha estão percebendo o prejuízo que esta política de privilégios causa ao futebol, é inconcebível que ela se mantenha viva e forte no Brasil, onde todos os ovos – maior espaço e maior cota de tevê e patrocínio de estatais, entre outros – são colocados nas mesmas duas cestas.

E das vozes que se erguem contra e a política maquiavélica que segrega a maioria dos grandes clubes brasileiros, uma das mais destacadas é a do santista Tana Blaze, alto executivo na Alemanha que nos dá a honra de ser um assíduo participante deste blog. Tana me enviou um longo e completo artigo sobre o tema, com uma análise profunda da situação e também com sugestões para solucioná-la.

A idéia inicial era publicá-lo em duas ou três partes. Porém, amanhã o Campeonato Brasileiro já se inicia – com o Santos enfrentando o Avaí, em Florianópolis, às 18h30m – e talvez outros assuntos, factuais, tomem a nossa atenção. Assim, neste sábado em que normalmente temos mais tempo, o blog publica o longo mas esclarecedor artigo de Tana Blaze sobre a terrível Espanholização, que com a desculpa dos interesses financeiros imediatos, paradoxalmente condena à morte alguns clubes tradicionais que podem tornar o futebol um espetáculo ainda mais completo.

Tana nos traz a visão de um brasileiro que conhece bem o funcionamento, ou o não funcionamento, do poder e das instituições em nosso País, mas também a visão de um homem com larga vivência no primeiro mundo, em um dos países mais organizados do planeta, que é a Alemanha, atual campeã mundial de futebol. Vale a pena ler e analisar o que ele escreve sobre Espanholização.

Digo mais: se não tiver tempo ou não quiser ler este artigo na íntegra agora, salve-o para ler depois e analisá-lo com carinho. Ele traz informações que você não encontrará em nenhum artigo de jornalistas esportivos, em discursos de dirigentes do nosso futebol ou em projetos de políticos brasileiros sobre a relação entre os clubes e a tevê. Ele mostra claramente as razões que fazem do futebol alemão um sucesso, com clubes poderosos, e do brasileiro, apesar dos novos estádios e do dinheirão da tevê, um fracasso. Bem, já falei demais. Boa leitura:

Basta de espanholização! Uma nova liga para acabar com a injustiça

Por Tana Blaze, da Alemanha

Com o GOLPE desferido pela política através da CBF e pela Rede Globo contra o Clube dos Treze em 2010, houve uma INVERSÃO de poder e de funções: a Globo, de mera fornecedora de serviços televisivos, passou a mandar no futebol brasileiro.

O sistema da Globo de favorecer o Flamengo e o Corinthians e prejudicar a maioria dos demais clubes tem a ambição de ser PERPÉTUO, não havendo, devido ao escalonamento dos contratos individuais com os clubes, previsão de LICITAÇÕES envolvendo emissoras concorrentes. O método consiste em favorecer alguns clubes através da subtração de dinheiro da maioria de todos os clubes, para devolver à maioria o que em países normais lhe deveria pertencer, sob forma de adiantamento de receitas televisivas futuras, submetendo-os à escravidão, à obediência e ao receio de represálias dos devedores.

Com a falta de licitações, não haverá qualquer controle sobre os lucros de publicidade da Globo, que deve reter uma parte descomunal de receitas de publicidade do futebol para os próprios cofres.

Não há mais necessidade de se ser produtivo no futebol brasileiro, tem-se garantido um montante fixo de dinheiro por clientelismo, não importando se o time tenha sido rebaixado e nada conquistado. Este incentivo à incompetência e à ineficiência contribuiu para a implosão da competitividade do futebol brasileiro a nível internacional.

E, favorecendo clubes cariocas e paulistas, a GLOBO SE EMPENHA EM EXCLUIR ESTADOS INTEIROS, como o Rio Grande do Sul, Minas, Bahia e Pernambuco do topo do futebol.

O futebol brasileiro será também PREJUDICADO pelo ENFRAQUECIMENTO dos CLUBES MÉDIOS, que no passado se beneficiavam do “passe” e de um diferencial de receitas limitado entre os clubes. Se bem geridos, podiam atingir o nível de topo, sagrarem-se campeões brasileiros, como o Guarani em 1978, formar e manter por certo tempo jogadores de potencial para o benefício da Seleção Brasileira. Como Brandãozinho, Julinho e Djalma Santos foram titulares das Seleções Brasileiras nas Copas do Mundo, como jogadores da Portuguesa, e Oscar e Amaral formaram a zaga titular da Seleção que disputou a Copa do Mundo de 1978 vestindo a camisa da Ponte Preta e do Guarani.

Dois clubes que hibernaram como médios durante duas décadas – o Santos, que depois de 1935 nada havia conquistado, e o Botafogo, que nada havia conseguido depois do título de 1948 -, nos anos 50 lançaram craques que possibilitaram a época de ouro da Seleção e do futebol brasileiro entre 1958 e 1970. O fato de clubes médios bem geridos poderem competir com os mais estabelecidos proporcionava uma concorrência saudável, aumentava o celeiro de craques para a Seleção e fazia o futebol respirar e ser vibrante.

Mas as duas colunas que sustentavam os clubes médios brasileiros ruíram. A instituição do passe caiu no mundo inteiro por divergir dos mais elementares princípios trabalhistas e o fair play financeiro constituído pela diferença limitada de receitas indiretas foi demolido desnecessariamente pelo golpe ganancioso e espanholizador dos políticos e da Rede Globo, da Caixa Econômica Federal, para o grande prejuízo do futebol brasileiro.

1- Debochando dos fundamentos do sucesso e pondo o Brasil na contramão

Há tempos se procurava explicar de forma tangível porque futebol é o esporte mais popular. Um estudo publicado em 2006 pelo Los Alamos National Laboratory (Ben-Naim, Redner, Vazquez) com base em 300.000 partidas de um século inteiro de futebol, basquete, futebol americano, beisebol e hockey providenciou uma pista reveladora, mostrou que os resultados das partidas de futebol foram os mais IMPREVISÍVEIS. Resultado confirmado por vários estudos subsequentes. Estima-se que a IMPREVISIBILIDADE DOS RESULTADOS do futebol seja a principal determinante para o seu teor dramatúrgico e aglutinador de paixões e fê-lo esporte dominante.

Um belo exemplo de imprevisibilidade foi o desempenho mágico da Seleção da Costa Rica na Copa do Mundo de 2014, que por azar não eliminou a Holanda e empolgou o mundo.

Um exemplo negativo de previsibilidade é a Formula Um, com inovações técnicas tornando escuderias quase imbatíveis por anos seguidos, sobrando um espetáculo entediantemente previsível, com audiências em queda livre. O GP da Alemanha de 2015 acaba de ser anulado, caiu demais o interesse no país da Mercedes, da BMW, do Porsche, do Audi, do Schumi e do Vettel.

Enquanto que a Rede Globo e a política brasileira se empenham na contramão para tornar o futebol brasileiro previsível, privilegiando maciçamente o Flamengo e o Corinthians, a Premier League inglesa e a Bundesliga alemã enveredaram pelo caminho oposto, zelando para que o diferencial entre os montantes que clubes recebem em cotas televisivas se mantenha limitado.

Pela mesma razão a UEFA impôs no seu programa de fair play financeiro medida para impedir que clubes, como os dois pertencentes a sheiks, o Manchester City e o PSG, continuem a receber aportes descomunais dos Emirados. A UEFA multou os dois clubes a pagar 60 milhões de euros cada por terem recebido excesso de patrocínio e limitou o plantel a ser inscrito na Champions League a 21 jogadores. Quase 20 clubes foram punidos por excesso de financiamento pela UEFA.

A política auspiciosa da Inglaterra, da Alemanha e da UEFA em comparação com a retrógrada da Espanha e do Brasil, contribui para que os estádios alemães e ingleses tenham lotação MÉDIA quase plena, enquanto que os estádios espanhóis não cheguem a 70%. Na Alemanha se constata o maior público MÉDIO POR PARTIDA do mundo, com 42.600 espectadores sendo que o público médio por jogo do Campeonato Espanhol corresponde a 26.800 espectadores. O torcedor de clube alemão é motivado a ir ao estádio pela probabilidade do seu clube derrubar o Borussia Dortmund ser maior do que a probabilidade de um torcedor espanhol de província ver seu clube ganhar do Real Madrid.

2 – O esvaziamento dos estádios brasileiros devido à concorrência desleal das transmissões gratuitas ao vivo no canal aberto.

Face à comodidade e gratuidade de ver um jogo AO VIVO NO CANAL ABERTO milhares de espectadores no Brasil aumentam a audiência televisiva, ao invés de tomar as penas de ir a um estádio, dinheiro subtraído das bilheterias de centenas de estádios brasileiros para a publicidade televisiva da Globo e redistribuído privilegiadamente a Flamengo e Corinthians. Um jogo apenas transmitido ao vivo no canal aberto pode esvaziar dezenas de estádios em vários estados no mesmo fim de semana. Um torcedor ao assistir na TV um jogo ao vivo gratuitamente, pode esgotar o seu contingente mental e temporal de futebol, não indo mais ao estádio no mesmo fim de semana.

Hoje se joga em Volta Redonda e Macaé e não mais no Maracanã. Joga-se à noite depois de terminar a novela, com os torcedores desistindo de ir ao estádio, devido à labuta do dia seguinte e aos perigos das ruas na madrugada. O Campeonato Carioca de 2014 teve média inferior a 3.000 espectadores por jogo.

As transmissões ao vivo no canal aberto não foram invenção da Globo, já existiam anteriormente, só que até o fim dos anos sessenta não eram tão predatórias para os estádios, porque não havia infraestrutura para se transmitir um jogo ao vivo para diversos estados e em 1970 apenas 27% das residências brasileiras possuíam televisores. Os jovens espectadores que nos anos setenta enchiam os estádios porventura continuavam a fazê-lo, até que a idade arrefeceu seus hábitos. As novas gerações não incorporaram mais o hábito de ir ao estádio, preferem ver futebol da poltrona.

Além de fazer concorrência aos estádios, a Globo transmite jogos quase exclusivamente do Flamengo e do Corinthians no canal aberto, o que representa mais um repasse milionário a estes dois clubes, consistindo do tempo de exposição na mídia e do consequente fomento para o aumento da torcida.

3 – As transmissões televisivas na Inglaterra e Alemanha

NÃO HÁ TRANSMISSÕES AO VIVO DE JOGOS NO ABERTO da Bundesliga e da Premier League, exceto dois jogos de abertura de turno e returno da Bundesliga, portanto não há concorrência gratuita aos jogos nos estádios na Alemanha e na Inglaterra. Na Alemanha as partidas são somente transmitidas ao vivo na TV PAGA SKY com cerca de 3,54 milhões de espectadores por rodada em 2013-14.

A menos de duas horas após o término dos jogos da Bundesliga, o CANAL ABERTO ARD transmite a resenha “Sportschau” com os MELHORES MOMENTOS de todos os jogos. Na temporada de 2013-14 as edições da resenha do sábado com sete jogos e do domingo com os dois jogos restantes da rodada, foram vistas em média por respectivamente 5,14 e 3,5 milhões de espectadores. No mesmo sábado as 23:30 horas passa outra resenha de 80 minutos no CANAL ABERTO ZDF em formato diferente “Das aktuelle Sportstudio”, assistida em média por 2,14 milhões de espectadores, elevando o número de espectadores MÉDIO das 34 rodadas de fim de semana nos canais abertos para mais de 10 milhões.

O carro chefe da “Sportschau” é a edição do sábado, que se inicia às 18:00 horas e nos primeiros 30-40 minutos transmite jogos da terceira e segunda divisão. Nos jogos da primeira divisão atinge 23,6% de mercado, uma média de 5,14 milhões de espectadores. O sucesso desta resenha se deve ao seu horário praticamente constante há 55 anos (é como horário de missa), à narração imparcial, à inclusão de todos os lances polêmicos, ao tempo de exposição praticamente igual para cada jogo e time e dramaturgia crescentes durante o programa, direcionada para as lutas pelo título, vagas nos campeonatos europeus e contra o descenso. Sobretudo a resenha congrega todas as torcidas, ao invés de se concentrar em duas torcidas, o que seria o caso na transmissão de um jogo.

A simples soma das audiências dos programas em 2013-14 resulta numa média de 14 milhões de telespectadores por rodada. Não sabemos a que ponto esta soma é inflada pela contagem múltipla de espectadores que assistem mais de um programa, mas de qualquer forma a transmissão televisiva da Bundesliga capta um número considerável de telespectadores, talvez no mínimo 15% da população do país de 81 milhões de habitantes.

O modelo alemão PROVA que além da LOTAÇÃO PLENA dos estádios e da EQUIDADE no TEMPO DE EXPOSIÇÃO TELEVISIVA para cada clube na tv aberta, é possível conseguir uma audiência substancialmente maior com resenhas de melhores momentos do que com transmissões de jogos ao vivo no aberto.

Algumas partidas da Champions League e da Copa da Alemanha são transmitidas ao vivo no aberto, porque são realizadas no meio da semana, não concorrendo com a ocupação dos estádios nos jogos da Bundesliga, efetuados via de regra nos fins de semana. O jogo pela quartas de finais da Copa da Alemanha entre Bayern e Bayer Leverkusen de 8 de Abril de 2015, transmitido ao vivo no aberto, teve audiência com pico de 10,2 milhões de espectadores.

4 – A discussão errada entre submissos sobre o “tamanho de torcidas”

Quem disse que o “tamanho de torcida” deva servir de critério para a distribuição de cotas televisivas, a não ser os que desejam beneficiar alguns clubes? Choca a discussão entre submissos sobre as mazelas do IBOPE, quando deveria valer o simples princípio de que “tamanho da torcida” não tem importância para a distribuição de cotas, como na Inglaterra, Alemanha e na Champions League.

A submissão dos cartolas brasileiros é exemplificada pela declaração recente do presidente do Grêmio, Bozzan, que integra a Comissão da CBF, de “não ser contra que os dois times de maiores torcidas recebam mais dinheiro, mas gostaria que a diferença deles para os outros fosse menor.”

Distribuir dinheiro com base no “tamanho de torcida” em países de grande pujança econômica e tecnológica, como a Inglaterra e Alemanha, não seria considerado objetivo. Deseja-se manter a igualdade de chances, o incentivo e a premiação da produtividade, neste caso o mérito esportivo.

Além de não ser o propósito, uma repartição de cotas televisivas com base em “tamanhos de torcida” mal seria considerada tangível e sustentável juridicamente nestes países. Porque a assim chamada “torcida”, mesmo que razoavelmente medida por enquetes, é um conglomerado extremamente heterogêneo de segmentos de diversas facetas, intensidades e efemeridades. No entanto, para a Globo, uma dona de casa porventura entrevistada pelo IBOPE no interior da Bahia, que nunca ouviu falar de TV paga e não se interessa muito por futebol, apenas pelos jogos da Seleção, parece contar tanto como um assinante de TV paga entrevistado em Curitiba.

O máximo que se permite é um fator de distribuição de cotas relacionado à frequência de jogos na TV paga (Inglaterra) ou audiência na TV paga (proposto por alguns na Alemanha, mas não implementado), portanto algo incontestavelmente mensurável e equivalente ao comparecimento nos estádios, porque também pago. Na Inglaterra o fator TV paga é ponderado com 17% (1/6) na cota total; o Liverpool, com 29 partidas transmitidas na TV paga, recebeu 21,9 milhões de libras e o Cardiff, com 8 partidas transmitidas, recebeu 8,6 milhões de libras. A diferença percentual resultante é diluída pelo alto montante fixo igual para todos os clubes de 52,2 milhões de libras.

Na temporada de 2013/14 da Premier League a relação entre as cotas televisivas totais do clube que mais e o que menos faturou foi de 1,6:1 (Liverpool de 97,6 e do Cardiff de 62,1 milhões de Libras). Na Bundesliga foi de 2:1, (Bayern e Eintracht Braunschweig). No Brasileirão a partir de 2016 será de 4,8:1 com 170 milhões de reais para o Fla e Corinthians e 35 milhões de reais para o que menos receberá.

5 – Tentativa do governo de arremedar o sistema decrépito e a cilada inerente

Enquanto que o Brasil, em comparação aos países ricos, sempre apresentava alguns déficits de países em desenvolvimento, o futebol brasileiro, apesar de um ou outro tradicional apito amigo, divergia, se posicionando no topo mundial. Mas degringolou na medida em que foi contaminado pela política, processo que se iniciou com a saída de João Havelange da CBD em 1974, que, a despeito de pesares, era personalidade que impunha respeito, e foi paulatinamente rebaixado ao que de pior existe no país, ao monopolismo, ao clientelismo, à corrupção e à ineficiência, resultando na decadência da sua competividade a nível internacional, estado falimentar de alguns clubes e queda de audiências.

Face à debacle do futebol brasileiro, parlamentares, governo e a CBF vêm propondo uma PARAFERNÁLIA DE MEDIDAS. Comissão da CBF para a distribuição de cotas, Congresso Nacional do Futebol, declaração do futebol como patrimônio cultural, Medida Provisória n 671 com Programa de Modernização da Gestão do futebol Brasileiro (PROFUT), Autoridade Pública de Governança do Futebol (APFU) e Comissão Mista da MP do futebol. Pretende-se montar burocracias paralelas, estatizar o futebol e colocar representantes dos jovens jogadores nos órgãos colegiados dos clubes, para participarem da discussão sobre os salários dos colegas.

Vem-se propondo tudo, mas tudo mesmo, menos a única mais simples medida que resolveria boa parte dos problemas, que se chama JUSTIÇA, o que seria acabar com o modelo espanholizador através da Globo e da Caixa Econômica Federal, e exigir que as estruturas existentes, os tribunais de trabalho e os órgãos tributários cumpram o seu dever de punir e liquidar os que não paguem salários e tributos, incorridos a partir de uma nova data a ser fixada. Justiça também seria implantar uma legislação para que clubes que mantém equipes de futebol profissionais observem critérios patrimoniais semelhantes aos das companhias limitadas das sociedades anônimas, para que gestores de clubes possam ser indiciados pelos mesmos canais da justiça comum.

No estágio atual, um clube que aderisse ao PROFUT para se beneficiar do parcelamento da dívida, arriscará de ser vítima da CILADA que resulta da combinação deste projeto com a Espanholização televisiva, porque não vai conseguir deixar a liga depois da adesão, sem perder os benefícios do parcelamento, pelo menos se o PROFUT não credenciar outra liga. Na prática será improvável que seja credenciada uma nova liga pelo PROFUT, que estará nas mãos do governo através do Ministério dos Esportes. Os lobbies da bancada da bola vão agir para que os clubes fiquem presos na liga espanholizada. O PROFUT na versão atual parece ter a consequência inerente de cimentar a Espanholização.

Seria, portanto, necessário exigir a PROIBIÇÃO da Espanholização televisiva POR LEI, ou seja, proibir a negociação e venda de direitos televisivos de forma individual, como acaba de ser feito na Espanha, e anular os contratos individuais com a Globo ANTES de qualquer adesão ao PROFUT. Ou fundar uma nova liga com novos contratos televisivos antes de aderir.

No momento o PROFUT seria o PARAÍSO dos poucos clubes beneficiados pela Globo, parcela as suas dívidas e indiretamente consolida os seus privilégios televisivos para anos futuros. E seria o INFERNO para a maioria dos clubes que foram responsáveis e não têm dívida nenhuma ou apenas moderada para parcelar e que serão prejudicados pela perenização da espanholização das cotas televisivas.

O último oba-oba da CBF e da Globo para animar os clubes e fazer sentirem-se importantes por participar de congressos e transitar em reuniões na CBF, é propagar que o Brasileirão terá “elementos do PADRÃO CHAMPIONS LEAGUE”. Os cartolas de clubes se sentem bajulados com tamanha atenção, arriscando aprofundar a sua cegueira. RISÍVEL porque o pilar mestre da Champions League não é a perfeição da grama, mas justamente a distribuição do dinheiro televisivo na base da IGUALDADE TOTAL, sem qualquer rateio por fantasiosos “tamanhos de torcida”, cada clube ganha 12 milhões de euros pela participação na fase de grupos, 1,5 milhão e 500 mil euros por vitória e empate e montantes pré-fixados no caso de ascensão nos mata-mata até a final.

Se o mauricinho espanholizador Marcelo Campos Pinto e o Marco Polo Del Nero aparecessem na Champions League para explicar a divisão de cotas televisivas com base no “tamanho de torcidas” e negociações individuais com os clubes, seriam defenestrados antes mesmo de terminarem os seus discursos, tal como os investidores em direitos econômicos de jogadores foram sumariamente defenestrados de Londres e Paris, depois que o Kia Joorabchian voltou do Brasil.

6 – Obscurantismo no Brasil e uma semana histórica de redenção na Espanha

Enquanto o governo brasileiro, direcionado pela bancada da bola e por jornalistas torcedores dos clubes privilegiados, negligencia ou fomenta o estágio avançado da Espanholização televisiva a partir de 2016 e nem pensa em justiça, no dia histórico de 30 de Abril de 2015 a ESPANHA ACABOU COM o fundamento da ESPANHOLIZAÇÃO televisiva. O Consejo de Ministros sancionou o Real Decreto Lei que proíbe a negociação individual de direitos televisivos do futebol a partir de 2016-17 e impõe a negociação e venda coletiva destes.

Os espanhóis aprenderam a lição da goleada de 1×5 que sofreram da Holanda na Copa. Perceberam que naquele jogo dos onze jogadores que entraram em campo, um era o brasileiro Diego Silva do Atlético Madrid, dois jogavam na Inglaterra e OITO era do Real e do Barcelona. Perceberam que os clubes médios espanhóis ficaram tão enfraquecidos que os seus times não têm mais nível para abrigar jogadores de seleção e que das 22 vagas titulares dos dois times gigantes, que são mais seleções mundiais do que times espanhóis, estavam em boa parte ocupadas por estrangeiros.

O GOVERNO E OS PARLAMENTARES BRASILEIROS continuam na CONTRAMÃO DA HISTÓRIA, e o país arrisca de ser o último a proibir a espanholização de cotas televisivas, que doravante poderá ser denominada por “BRASILEIRIZAÇÃO”, já que a Espanha caiu fora ontem. Ao contrário dos espanhóis, os políticos brasileiros não aprenderam absolutamente nada com a impiedosa goleada de 1×7.

O equilíbrio entre os clubes do país campeão do mundo

O Campeonato Alemão, em que os jogos de fim de semana não são transmitidos pela tevê aberta, e isso contribui para o grande comparecimento aos estádios, é um dos mais nobres exemplos de distribuição igualitária da verba de tevê. O país tem nove clubes considerados grandes.

São eles: Schalke 04 (Gelsenkirchen), Borussia Dortmund (Dortmund), Borussia Mönchengladbach (Mönchengladbach) , Colônia (Colônia), Bayern de Munique (Munique), Nuremberg (Nuremberg), VfB Stuttgart (Stuttgart), Hamburgo SV ou HSV (Hamburgo) e Werder Bremen (Bremen).

Destes, o que impressiona pelo comparecimento de sua torcida, é o Borussia Dortmund, cujo estádio mantém a média de 90% de ocupação em todos os jogos do campeonato. O interessante é que a cidade de Dortmund tem 581 mil habitantes, menos de 100 mil habitantes do que a soma das populações de Santos e São Vicente. Famosa por produzir enormes mosaicos a cada jogo, a torcida do Borussia é um show à parte. Abaixo, um mosaico que quer dizer “Em busca do pote perdido”:

7 – A única saída é uma nova Liga

O Presidente do Flamengo e o deputado Andrés Sanches, ligado ao Corinthians, foram postados como cães de guarda respectivamente na COMISSÃO DE CLUBES criada pela CBF e na COMISSÃO PARLAMENTAR MISTA. Ambos certamente impedirão que haja consenso nestes dois grêmios para se acabar com a desigualdade na distribuição de cotas. O máximo que estas duas comissões poderão conseguir seria uma reduçãozinha do diferencial, visando em contrapartida a legitimação do sistema perverso. Portanto, as duas empreitadas objetivam aliviar a pressão, provocar a ilusão agradável de democracia e ganhar tempo para com a falta de consenso acabar legitimando a sistema injusto e ineficiente. Além do mais, a Globo já comunicou que dificilmente aceitará mudanças antes de 2019.

Num cenário no qual 71 deputados e 4 senadores retiraram votos já dados para a CPI do MSI em 2007, no qual a CBF é responsável de forma ativa e passiva pela Espanholização e nada fez para coibir as injustiças, os seus tribunais patrocinaram viradas de mesas e os juízes por ela escalados solaparam a credibilidade dos campeonatos com os seus erros de arbitragem, seria ingênuo e irresponsável os clubes esperarem respaldo do governo ou da CBF para sustar a Espanholização.

Não é possível que o Cruzeiro, atual bicampeão brasileiro, nos quatro anos de 2016 a 2019 receba 540 MILHÕES de reais A MENOS que o Flamengo, que a nível nacional tem ganhado apenas a Copa Brasil de 2013 nos últimos cinco anos. (170-60) x 4 da Globo + (25-0) x 4 da Caixa Econômica Federal.

A diferença acima referida está SUBVALORIZADA porque não inclui os PATROCÍNIOS GIGANTES DA NIKE para o Flamengo e Corinthians, empresa que por coincidência patrocina também a CBF. Tampouco foi considerado que o Flamengo e o Corinthians constam entre os maiores devedores e se beneficiariam sobremaneira da Medida Provisória n° 671. Tampouco foi cifrado o valor monetário da exposição privilegiada nas transmissões de jogos ao vivo de Flamengo e Corinthians no canal aberto para diversos estados e muito menos as facilidades concedidas ao Corinthians para o Itaquerão à custa do erário público.

O contrato pelo qual a CBF cedeu os direitos televisivos do Brasileirão à Globo poderia ser considerado INVÁLIDO, porque feriu uma cláusula fundamental do Estatuto da Confederação em vigor na época, que a obrigava a defender os interesses dos clubes, o que não foi observado na cessão dos direitos de transmissão à Globo, ao permitir que o cessionário destes privilegiasse alguns clubes em detrimento de outros. Também os contratos individuais entre a Globo poderiam ser considerados INVÁLIDOS, porque foram firmados pelos clubes sob COERÇÃO DO SISTEMA, visto que cada clube não tinha alternativa, ou assinava um contrato comparativamente desvantajoso com a Globo, ou não receberia nada.

É um mistério porque os clubes não tentaram ainda impugnar estes contratos. Provavelmente por ignorância, receio de represálias, compreensível falta de confiança no governo e na justiça e cooptação de alguns dirigentes. Mas, independentemente das possibilidades jurídicas e de eventuais resultados, é necessário criar um nova liga, não se pode quedar nesta constelação que arruinou o futebol.

A maioria dos cidadãos brasileiros que repudiam os mensalões, petrolões e o truste da Globo não podem se evadir do país, mas os clubes de futebol poderão se evadir da CBF e da Globo ao fundarem uma NOVA LIGA. Afinal de contas, o futebol é definido como coisa privada na Constituição Brasileira.

É previsível que a Globo tente minar qualquer movimentação no sentido de uma nova liga e “trabalhe” não só em cima de cada clube, como também de cada presidente e das oposições. Vai ameaçar os clubes “rebeldes” com multas milionárias, cobrança na justiça dos adiantamentos, e as federações aliadas à emissora vão ameaçar com exclusão dos campeonatos. Não tenham dúvidas, a organização não terá escrúpulos para poder continuar a mamar e mediocrizar o futebol.

Que os clubes não se deixem intimidar e QUE SE UNAM abrindo mão das suas pequenas vantagens de cotas em relação a outros clubes, como também não se deixaram intimidar os jogadores do Bom Senso. Não há alternativa senão RESTAURAR o sistema anterior ao golpe da Globo de 2010.

8 – Uma ONG baseada em princípios para planejar a nova liga (para já!)

Uma nova liga para o Campeonato Brasileiro deveria ter como objetivos, PRIMEIRO, possibilitar que apenas os clubes participantes mandem na liga e não emissoras nem federações, cujos presidentes têm sido eleitos por aclamação por centenas de clubes pequenos nos seus estados e têm defendido interesses alheios ou eleitoreiros próprios.

SEGUNDO, estabelecer licitações para a venda de direitos televisivos para as emissoras por períodos limitados, impondo no “cahier des charges” das licitações os critérios pré-determinados para a distribuição de cotas televisivas e transmissões.

TERCEIRO, lutar por uma lei que proíba empresas públicas, como a Caixa Econômica, patrocinar clubes de futebol profissional.

QUARTO, objetivar um saneamento da justiça esportiva, seja tornando-a independente das federações por meio de um atrelamento à justiça comum, seja padronizando as punições na primeira instância, tal quais as multas de trânsito, seja estabelecendo o foro jurídico da nova liga numa cidade de justiça confiável.

Não se pode fundar uma nova liga no grito, tal como o presidente do Atlético Paranaense Petraglia se declarou disposto a iniciar após entendimentos com o Flamengo e Fluminense. O primeiro passo seria FUNDAR uma ONG, com definição clara do escopo, que deveria ser o Campeonato Brasileiro e não um campeonato Rio-Sul e fixação dos princípios almejados.

O projeto desta ONG será fundar uma nova liga e associá-la a um fundo milionário, para financiar a substituição dos adiantamentos da Globo, podendo-se estudar uma cooperação com uma liga estrangeira para incentivar uma nova brasileira de forma independente, esportiva e rentável.

Os princípios referentes à distribuição de cotas televisivas a serem estabelecidos pela ONG deveriam incluir a CONDIÇÃO SINE QUA NON do repúdio ao critério fantasista de “tamanho de torcida”, a obrigatoriedade do critério do mérito esportivo, a possibilidade de uma repartição na tv paga em função do número de espectadores medidos em cada partida e uma amplitude total limitada na distribuição de cotas televisivas como, por exemplo, 2:1. Cada clube terá que aderir formalmente a estes princípios para ser admitido na ONG. Se não topar, que fique fora.

Também será conveniente deixar o planejamento da ONG e da Liga a uma gestão externa e não a um amontado de presidentes de clubes, não raro egocêntricos, bravateiros e com competências restritas. Seria igualmente recomendável a ONG engajar uma advocacia de alto nível especializada em direito constitucional, direito do consumidor e monopólios, com eventual suporte legal internacional para se defender dos ataques do truste da Globo e da CBF.

Na medida em que continuar passando o tempo, os culpados pelo sistema espanholizador serão cada vez menos a Globo e o governo, mas cada vez mais cartolas, que afinam ante o golpe desferido contra os seus clubes, não virando a mesa. Animem-se senhores cartolas, porque contra 34 clubes unidos, imagine-se 20 da Série B e 14 da Série A, não haverá ninguém que possa enfrentá-los.

Então cartolas, o que estão esperando? PERDER NO MÍNIMO 500 MILHÕES DE REAIS ao fim de 2019 em relação aos dois queridinhos do truste? Vocês devem estar de brincadeira!

E para você, o que os clubes devem fazer contra a Espanholização?