Duas notícias, antagônicas, nos fazem pensar sobre a séria questão dos salários dos jogadores de futebol brasileiros. A primeira, de alguns dias, assinada por Samir Carvalho, do UOL, diz que Robinho usa o interesse do Flamengo para conseguir um salário de um milhão de reais por mês e um contrato até 2020 no Santos. A segunda, de Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br, informa que no Goiás, líder momentâneo deste Brasileiro, o salário máximo é de 50 mil reais e a diretoria decidiu não negociar mais com empresários, só diretamente com os jogadores.

Leia a matéria de Samir Carvalho, do UOL

Leia a matéria de Vladimir Bianchini, da ESPN.com.br

Se já é muito difícil determinar o salário ideal para qualquer atividade, a coisa se complica ainda mais quando se trata de um jogador de futebol, pois aí entramos no mercado do entretenimento, do show business, em que o atleta não vale apenas por suas qualidades físicas e técnicas, mas pelo que representa, pelo que atrai de público e patrocinadores.

Lembro-me de um amigo que ironizava o fato de se pagar uma fortuna ao pugilista Mike Tyson para ele “trabalhar” apenas alguns segundos, já que nocauteava seus adversários pouco depois do início dos combates. Porém, eram segundos vistos, ao vivo, pelo mundo inteiro, fora toda a fase de preparação e as matérias posteriores à luta.

Por isso, eu diria que Robinho, como um dos poucos astros do futebol brasileiro, ou o único em atividade no Brasil, merece mesmo ganhar mais do que todos os outros. Mas quanto ele deve ganhar depende de mais fatores que precisam ser levados em conta, tais como: Quanto ele aumentou o faturamento do Santos, tanto em patrocínio, como em arrecadação nos jogos, ou em verba de pay per view? Esse valor tem compensado, com sobras, o investimento que o Santos fez nele?

Sim, ele foi essencial na conquista do título paulista, que deu ao Santos o prêmio de três milhões de reais, porém, é bom que se diga, não jogou sozinho. Lucas Limas, Ricardo Oliveira e Geuvânio também foram importantes ao longo da campanha.

Outro detalhe importante para se analisar o salário potencial de qualquer profissional, e aí tanto faz em que área ele atue, é a situação do mercado. E nesse quesito, é evidente que o futebol brasileiro, não só pelas baixas arrecadações, mas pelas péssimas administrações, que fazem a dinheirama sumir pelo ralo da incompetência e da corrupção, não pode pagar tal fortuna a nenhum jogador, pois esse investimento só milagrosamente se pagaria.

No último final de semana, enquanto Robinho era derrotado, com o Santos, na humilde Chapecó, tarde em que brilhou o rápido e quase folclórico Apodi, Guerrero perdeu gol feito no jogo sonolento do Maracanã, evento de nível tão pobre que fez o comentarista Casagrande lamentar que não tivesse ido ao teatro, ao cinema, ou a algum programa mais interessante. Para completar, no seu estádio, o Palmeiras, com o decantado ídolo Valdívia em campo, perdia para esse mesmo Goiás do teto salarial de 50 mil e do veto aos empresários.

Se levarmos essas considerações para o segmento dos técnicos de futebol, notaremos que aqueles que outro dia estavam no pedestal, com salários de 700, 600, 500 mil reais, hoje amarguram a rua da amargura, ou quase. Muricy foi descansar quando ninguém mais agüentava o muricybol; Felipão ganhou bilhete azul do Grêmio, o mesmo ocorrendo com Luxemburgo no Flamengo. Daqui a pouco Oswaldo de Oliveira seguirá o mesmo caminho. Isso está ocorrendo porque esses técnicos são ruins? Não, mas estão bem aquém da imagem que se construiu deles. No fundo, são farinha do mesmo saco.

Reduzir drasticamente o teto salarial de jogadores e, principalmente, de técnicos, é a única saída para o empobrecido e desorganizado futebol brasileiro. Com folhas salariais ajustadas à nossa realidade, os clubes atingirão o equilíbrio financeiro, terão de se valer mais de seus jogadores de base, o que contribuirá para revelar e arejar o nosso futebol, e os ingressos nos estádios poderão ter preços mais acessíveis, atraindo novamente os torcedores, que hoje estão procurando outras formas de lazer, que envolvam também a família, sejam mais baratas e mais seguras.

O futebol profissional brasileiro vive uma situação paradoxal: ele nunca foi tão mal jogado e, ao mesmo tempo, jogadores e técnicos nunca receberam salários tão elevados. É evidente que a conta jamais poderá fechar. Alguns clubes, como o Goiás e o Atlético Paranaense, perceberam isso e estão mostrando esse caminho para os dirigentes de boa vontade.

A questão dos empresários é outro absurdo que só sobrevive às custas de dirigentes e técnicos preguiçosos ou corruptos, ou as duas coisas. É óbvio que se os clubes profissionais se unirem em uma Liga, uma das primeiras providências será banir os empresários do futebol e estabelecer um teto salarial ao menos para os técnicos. O futebol não suporta mais essa farra do boi, ou da bola. É possível, sim, negociar direto com o jogador, mas tem muito dirigente que prefere acertar as coisas com o empresário, porque sabe que assim tem sempre algum por fora.

Bem, nem vou usar aquele surrado argumento de que para se ganhar 50 pilas por mês o brasileiro comum precisa ter graduação, pós-graduação, MBA, doutorado, falar duas ou três línguas, ser ultra-competente, espírito de liderança, bom senso, carisma, comprometimento e mais um montão de qualidades. E ainda ficar ligado na empresa dia e noite, em uma missão exaustiva e estressante, bem diferente de trabalhar brincando, dançando, tirando um sarro dos companheiros, com todas as despesas pelo empregador e ainda seguido adulado pelos fãs e pela mídia.

Isto tudo posto, minha conclusão é a de que, se não tem como pagar e não se tem um parceiro que possa pagar, o Santos não pode, em hipótese alguma renovar com Robinho por um milhão de reais por mês, ainda mais em um contrato até 2020. Se ele ainda tem mercado na China, na Índia, nos Estados Unidos ou na Gávea, que vá para onde quiser.

Um time não se faz só com um atacante e hoje Robinho, mesmo ainda jogando bem, decide muito pouco. Já não tem o mesmo fôlego, a mesma vitalidade, a mesma força e habilidade e continua com deficiência no chute. Eu diria finalmente que, levando tudo em consideração – o futebol dele, a situação do Santos e do futebol brasileiro – 200 mil seria um salário fenomenal para o nosso querido Robinho.

E você, o que acha dos salários dos jogadores brasileiros?