Status quo e mídia fanfarrã já colocam Robinho no Flamengo

Decisão do Brasileiro de 1983, outro momento em que o status quo do futebol preferiu o Flamengo ao Santos:

Em um país dominado pelo populismo, em que a mídia esportiva descambou para a fanfarronice e para a estratégia de fazer tudo pela audiência, é óbvio que a maioria quer Robinho no Flamengo. Não importa que na essência do futebol – história, títulos, grandes jogadores, contribuição para a Seleção Brasileira… – o Alvinegro Praiano esteja anos-luz à frente do rubro-negro carioca, que, grosso modo, só leva uma vantagem: ter uma grande torcida.

Desde 2002 o Santos já ganhou 11 títulos, incluindo dois Brasileiros, uma Copa Libertadores, uma Copa do Brasil e uma Supercopa da Libertadores. Além disso, revelou Diego, Robinho, Neymar, Ganso, Elano, Alex, Léo… O Flamengo só foi campeão brasileiro em 2009, ano em que o campeonato foi tão fraco, que bastou ganhar 59% dos pontos para chegar ao título. Para se ter uma idéia, no ano passado o Cruzeiro foi campeão com 70% dos pontos.

Alguém pode chiar: “É, mas você se esqueceu dos títulos estaduais”. Está bem, eu lembro ainda que o Flamengo foi seis vezes campeão carioca, mesmo número de vezes que o Santos foi campeão paulista nesse período. Portanto, futebol não dá para discutir. Agora, se o quesito for algo que não entra em campo, que é a torcida, concordo que a do time carioca é maior. Ponto.

Torcida gera Ibope, que traz patrocínio e se traduz em dinheiro. Mais do que o próprio futebol, hoje é o dinheiro que faz a bola girar. E em uma época em que não está fácil para ninguém, na qual mesmo jornalistas conceituados estão ganhando bilhete azul, não me admira que tantos deles tenham engrossado o coro de que o melhor para Robinho é ir para o Flamengo. É o que quer o status quo. Até o PVC entrou nessa.

Aliás, não entendo essa visão acariocada no jornalismo esportivo televisivo brasileiro. Se o melhor, ou o menos ruim, futebol do Brasil está em São Paulo, onde jogam os times de melhor rendimento técnico e mais bem estruturados, se o dinheiro privado que move o esporte está em São Paulo, por que a sede e o comando da imprensa esportiva nacional precisa ficar no Rio?

Até a Fox, de quem eu esperava tanto, parece estar seguindo a mesma e surrada cartilha. Se o meu amigo Eduardo Zebini ainda não mandou fazer uma pesquisa, eu já aviso: paulista não dá a mínima para discussões sobre o peladeiro, pobre e, repito a palavra – fanfarrão – futebol carioca.

Sinto-me constrangido de ver colegas experientes do jornalismo esportivo paulista obrigados a deitar falação e queimar neurônios para falar de algo tão insípido e inodoro como o atual futebol da ex-cidade maravilhosa. Não é que não respeito. Admiro a história de todos os times do Rio, grandes e pequenos. Porém, simplesmente, como 99,99999% dos paulistas, não me interesso pelo que ocorre nos gramados de lá. Esse interesse da mídia, puxado pela Globo, é fictício, não corresponde à realidade técnica do nosso futebol. Tanto é assim, que Santa Catarina tem mais times na Série A do Campeonato Brasileiro do que o Rio de Janeiro.

Dinheiro não é tudo, Robinho deve saber disso

Religioso, cantando música gospel a toda hora, puxando as orações, ajoelhando-se a cada gol, Robinho deve ser um sujeito que lê a Bíblia e deve saber que ela diz que não se pode servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo, assim como diz também que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ir para o reino dos céus.

Claro que os tempos são outros e que a palavra de Deus foi totalmente deturpada através dos séculos. Hoje, com a desculpa de que Jesus, na verdade, pediu para seus fieis serem “prósperos”, tem muito pastor enchendo a burra. E há o lado profissional, a preservação da espécie, a vontade de deixar um patrimônio para os filhos etc.

Robinho tem todo o direito de decidir o que é melhor para ele, sua carreira e sua família. Mas se suas decisões levam em conta, em primeiro lugar, o dinheiro, nos poupe de tantas demonstrações de fé, por favor.

O Santos deve 3,5 milhões de reais a ele, que está pedindo mais cinco milhões para renovar o contrato, que vence dia 30 de junho. Isso dá 8,5 milhões. E ainda haverá o salário, que, segundo li por aí, deve ser de 600 mil reais. Dá para pagar? Se não der, o Santos não pode mergulhar na areia movediça da irresponsabilidade financeira para manter um jogador que é ídolo, mas não tem mais o fôlego e a energia de outrora e nem contribuiu para o clube conseguir o tão sonhado patrocinador máster.

Em outros tempos, quando a lei era outra, a permanência ou não de um jogador dependia, basicamente, da palavra do presidente do clube. E como o Santos era dirigido pelo íntegro e visionário Athié Jorge Cury, nenhum clube brasileiro tirava um craque da Vila Belmiro, a não ser que Athié permitisse, o que raramente ocorria.

Mas a verdade é que a Lei Pelé libertou os jogadores e escravizou os clubes. E esta última tendência, a da nefasta Espanholização, permite que uma agremiação que deve até as calças ofereça o que não tem para contratar Robinho. Mas, se contratar e não puder pagar, como já ocorreu tantas vezes antes, tudo bem. Que juiz terá coragem de punir o Flamengo, e mesmo que tenha, que político permitirá que a justiça seja feita contra um clube que representa tantos eleitores? Torcida-Ibope-Eleitores – este é o tripé que mantém os privilégios a dois clubes brasileiros que a gente conhece bem.

É evidente que se ouvir as pessoas próximas, como a sua advogada, Robinho sairá do Santos. Essa coisa de amar um clube parece meio infantil para quem é mais prático e analisa as opções da vida pelas vantagens materiais que elas podem dar. O único conselho que pode fazer com que Robinho fique na Vila Belmiro, mesmo sem receber tudo o que quer, repetindo o gesto do ídolo Antoninho e de tantos outros abnegados santistas, é o do seu coração. Porém, por mais fé que as pessoas tenham, ou dizem ter, o Deus Dinheiro só precisa de um mandamento para convencer a todos de que apenas ele é o caminho da fartura, do conforto e do prazer.

Veja como Athié Jorge Cury reagiu quando o flamengo quis contratar Pelé:

Santos pode até vencer hoje

Logo mais, às 22 horas, o Santos enfrenta o Sport na Ilha do Retiro (com tevê direta), e algo me diz que se jogar para valer, pode voltar de Recife com uma vitória. Primeiro porque o Santos jogará completo; depois, porque o Sport terá muitos desfalques: Rodrigo Mancha e Diego Souza, com virose, estão fora da partida, assim como Magrão, machucado, e Samuel, com dores na coxa. Segundo o Diário de Pernambuco, “o zagueiro Matheus Ferraz e o lateral-direito Samuel Xavier já atuaram pelos seus respectivos ex-clubes, Boa Esporte e Ceará, pela Copa do Brasil, e não podem vestir a camisa rubro-negra na competição. Por fim, Elber, com dores musculares, é dúvida.

Outro detalhe que me faz acreditar em um bom resultado para o Santos é que a maior parte da torcida do Sport não ficará triste se o time perder, pois prefere que ele dispute a Copa Sul-americana, o que só poderá ocorrer se ele for eliminado pelo Santos. No Alvinegro Praiano, além de Robinho, a atração é Lucas Lima, que pela primeira vez enfrentará o seu ex-time desde o acesso à Série A, em 2013.

Sport x Santos
Copa do Brasil, Ilha do Retiro, 22 horas

Sport: Danilo Fernandes, Vitor, Ewerton Páscoa, Durval e Renê; Rithely, Wendel, Neto Moura (Elber), Régis e Mike; Joelinton. Técnico: Eduardo Baptista.

Santos: Vladimir, Victor Ferraz, Werley, David Braz e Chiquinho; Valencia, Renato e Lucas Lima; Geuvânio, Ricardo Oliveira e Robinho. Técnico: Marcelo Fernandes.

Arbitragem: Cláudio Francisco Lima e Silva, auxiliado por Victor Oliveira Cruz e Eric Nunes Costa, todos de Sergipe.

É muito difícil ganhar do Sport na Ilha do Retiro, mas em 2009 o Santos conseguiu. Reveja:

E você, acha que Robinho fica ou sai do Santos?