Segura o homem! A bola gruda no pé de Lucas Lima, que deixa três jogadores do Avaí para trás (Ricardo Saibun/ Santos FC).

Acho que eu nunca tinha visto, nem nos tempos de Pelé & Cia, o Santos dominar tão amplamente o Corinthians como o fez no primeiro tempo do jogo dessa quarta-feira, na Vila Belmiro. O gol de Gabriel, de cabeça, aos 31 minutos, em um passe “com a mão” de Lucas Lima, foi pouco. Já era para ter virado com uma vantagem de, no mínimo, dois gols.

Apesar de uma pequena reação do adversário, que adiantou a marcação e arriscou algumas escaramuças no ataque, o domínio santista se confirmou na segunda etapa. Novas chances surgiram e Marquinhos Gabriel, que entrou muito bem no lugar de Geuvânio, marcou novamente aos 33 minutos, em outro passe simples e magistral do maestro Lucas Lima.

Com essa vitória de 2 a 0 o Santos irá para o jogo de volta, quarta-feira que vem, no campo do adversário, com uma boa vantagem. Jogará pelo empate, por uma derrota de um gol e até por uma derrota por dois gols, desde que marque ao menos um. Ou seja: se marcar um gol no jogo de volta, o Santos só será eliminado se sofrer quatro.

É claro que não dá para contar vantagem antes do tempo, mas a verdade é que o adversário não mostrou nada nesse jogo na Vila. Fica evidente que, não fossem os coincidentes erros de arbitragem, o alvinegro paulistano não lideraria o Campeonato Brasileiro. O time, ao menos fora de casa, adota um estilo defensivo e passivo e é dirigido por um técnico medroso e sem criatividade.

Enquanto isso, Dorival Junior deu mais consistência à defesa do Santos, sem tirar o poder ofensivo do time. Mesmo com a vantagem no marcador, tirou atacantes para colocar atacantes. Só bem no finzinho resolveu poupar Lucas Lima, que tinha recebido cartão amarelo, e o substituiu por Paulo Ricardo.

Essa vitória inapelável, que certamente será assunto nos próximos dias, enche o Santos de moral para o prosseguimento do Campeonato Brasileiro e para o jogo de volta da Copa do Brasil. Afinal de contas, o adversário estava invicto há mais de dois meses. Sua última derrota tinha sido para o próprio Santos, na mesma Vila.

Atuações dos Santistas

Vanderlei – Não teve trabalho. Seguro e tranqüilo. 6,5.
Victor Ferraz – Sem ser espetacular, foi bem na defesa e no apoio. 7.
Gustavo Henrique – Só fez uma falta boba, mas no mais este firme. 7.
David Braz – Errou passes, deu alguns sustinhos, mas não comprometeu. 6.
Zeca – Apoiou melhor do que defendeu. 6,5.
Renato – Discreto, preocupou-se mais em marcar. 6,5.
Thiago Maia – Para um garoto de 18 anos, mostrou muita personalidade e decisão na marcação e até no apoio. 7.
Lucas Lima – Duas assistências geniais e grandes jogadas. Dominou o meio-campo. 9.
Gabriel – Belo gol, boas trocas de passes e alguns bons desarmes, ajudando a defesa. Mas dormiu em duas bolas, deixando-as sair pela lateral, e perdeu outras jogadas bisonhamente. Pelo gol, 7.
Ricardo Oliveira – Fez o trabalho de pivô, teve presença na área, mas saiu sem fazer o seu. 6,5.
Geuvânio – Alternou bons e maus momentos. É óbvio que rende mais pela direita, assim como Gabriel rende mais pela esquerda. 6,5.

Dos que entraram, Paulo Ricardo não teve tempo para mostrar muita coisa e fica sem nota. Neto Berola deu trombadas, mas não arredondou nenhuma jogada. Nota 5 pra ele. O melhor foi Marquinhos Gabriel, que ajudou bem a defesa, puxou contra-ataques, tabelou com Lucas Lima e teve sangue-frio e precisão para marcar o gol que definiu o jogo. 7,5 para ele.
Dorival Junior – Com paciência e trabalho está calando os críticos. Mais uma grande vitória em casa, dando um banho tático no bajulado técnico corintiano. Agora só falta fazer o time também jogar bem longe do rabo da saia da Vila Belmiro. Nota 8.

Santos 2 x 0 Corinthians
Oitavas-de-final da Copa do Brasil
Vila Belmiro, 22 horas, 19/08/2015
Público e renda: 10.383 torcedores e R$ 678.150,00
Santos: Vanderlei, Victor Ferraz, Gustavo Henrique, David Braz e Zeca; Renato, Thiago Maia e Lucas Lima (Paulo Ricardo); Gabriel (Neto Berola), Ricardo Oliveira e Geuvânio (Marquinhos Gabriel). Técnico: Dorival Júnior.
Corinthians: Cássio; Fagner, Felipe, Gil e Uendel; Bruno Henrique; Jadson (Danilo), Elias, Renato Augusto e Malcom (Mendoza); Luciano (Vagner Love). Técnico: Tite.
Gols: Gabriel, aos 31minutos do primeiro tempo, e Marquinhos Gabriel, aos 33minutos do segundo.
Arbitragem: Wilton Pereira Sampaio (Fifa-GO), auxiliado por Vicente Romano Neto (Especial 2-SP) e Danilo Ricardo Simon Manis (Asp Fifa-SP).
Cartões amarelos: Lucas Lima e Fagner

Retrospecto Realista

Há várias maneiras de se analisar o retrospecto dos confrontos entre dois times de futebol. A mais usual é pegar desde a primeira partida que fizeram entre si, geralmente ainda nos tempos do amadorismo, com bola de capotão, chuteira com biqueira de ferro, uniforme de algodão e outras bossas da época. Mas aí não teremos uma visão realista de cada período. O América Mineiro, por exemplo, foi o melhor time de Minas Gerais por muitos anos e fez de Cruzeiro e Atlético fregueses contumazes. De 1921 a 1927, por exemplo, americanos e cruzeirenses jogaram 15 vezes e o América permaneceu invicto, com 11 vitórias e quatro empates.

Uso esse exemplo mineiro antes de me reportar ao nosso Santos, para explicar que é natural que o Alvinegro Praiano tenha déficit de vitórias no confronto com os outros três times grandes do Estado, pois durante cerca de 40% de sua existência – salvo períodos de exceção, como a temporada de 1918, os anos de 1927 a 1931 e de 1948 a 1950 – o Santos foi pouco mais do que um coadjuvante do Campeonato Paulista, a competição mais importante para os clubes do Estado, e era normal que mais perdesse do que ganhasse dos adversários mais fortes (sem contar a ajuda extra-campo aos times da capital, bem maior e mais acintosa naqueles tempos).

Porém, aquele Santos que vivia de esparsos momentos de grandeza, de repente se firmou como um grande e, a partir daí, passou a jogar de igual para igual com qualquer outra equipe. É a partir desse momento que os confrontos entre o Santos e os outros grandes do Estado se tornam mais equilibrados.

No caso dos duelos com o Corinthians, se analisarmos desde 1948, quando o Santos montou um bom time e trouxe para orientá-lo o técnico Oswaldo Brandão, veremos que desde aquela temporada até hoje, em um período de 67 anos, o clássico alvinegro, por mais desequilíbrio que tenha vivido nesse tempo todo – principalmente com a queda do Santos nas décadas de 1980 e 90 –, ainda assim tem números equilibrados. De lá para cá foram realizados 246 jogos, com 76 vitórias do Santos, 82 do Corinthians e 88 empates. Uma diferença de apenas seis vitórias, 2,4% do total de jogos.

É evidente que a vantagem do alvinegro paulistano nos anos 80 e 90 foi acentuada, mas, por outro lado, se isolarmos apenas os confrontos no século XXI, notaremos que a vantagem passa a ser santista, com 22 vitórias e 16 derrotas, além de 14 empates. E se analisarmos os últimos 20 anos, desde 1995, a vantagem do Santos será um pouco maior, com 29 vitórias, 20 derrotas e 17 empates.

Retrospecto é importante, mas não é decisivo para o sucesso de um time ou de um atleta de modalidade individual. O tenista Pete Sampras, considerado por muitos o melhor de todos os tempos, venceu 14 torneios de Grand Slam, foi o número um do ranking de 1993 a 1998, mas só ganhou quatro das dez partidas que fez contra o holandês Richard Krajicek, um grandalhão que só venceu um torneio de Grand Slam e no máximo foi o quarto do ranking mundial.

Caso mais curioso foi o do russo Marat Safin, número um do mundo em 2000, vencedor de dois torneios de Grand Slam, que não conseguia vencer o jogo estranho do francês Fabrice Santoro, um tipo que usava slice na direita e na esquerda. Santoro, que jamais chegou sequer a uma semifinal de Grand Slam e só alcançou a 17ª posição no ranking da ATP, venceu sete das nove partidas que realizou contra Safin.

Isso para a gente ver que nem sempre o time, ou o atleta, que costumam ganhar a maioria das vezes de um adversário, são realmente superiores a esse adversário. O que importa mesmo é a regularidade, a constância, a capacidade de ganhar títulos e se manter entre os primeiros.

Quem lerá o Time dos Sonhos reeditado

time dos sonhos - autor entregando o livro para vanderlei luxemburgo

O técnico Vanderlei Luxemburgo, do Cruzeiro, reclamou que a torcida do Palmeiras pegou no seu pé durante o jogo dessa quarta-feira, em que o Palmeiras bateu o Cruzeiro por 2 a 1. Disse que ela havia se esquecido de que ele fora o técnico que tirou o time de uma fila imensa sem títulos. No começo de 2004 eu fui à Vila Belmiro e presenteei jogadores e comissão técnica do Santos com o livro Time dos Sonhos. Naquele ano Luxemburgo se tornaria campeão brasileiro com o Alvinegro Praiano. É importante respeitar a história e as personagens que a construíram.

Como você deve saber, prossegue a campanha de pré-venda do livro Time dos Sonhos, chamado de A Bíblia do Santista. O objetivo dessa campanha é arrecadar ao menos o suficiente para editarmos 1.000 exemplares deste livro que conta toda a história do Santos desde sua fundação até o título Brasileiro de 2002, com casos e Estatísticas atualizadas.

É justo que você saiba, portanto, a quem se destinam esses exemplares impressos. Vamos lá: Cerca de 300 exemplares irão para os kickantes, ou contribuintes, pessoas que estão adquirindo o livro nessa pré-venda. É claro que se mais pessoas adquirirem, mais livros irão para os kickantes, mas creio que 300 é um número até otimista. Outros 50 exemplares serão doados ao Santos Futebol Clube. Mais 50 exemplares serão distribuídos aos formadores de opinião da imprensa esportiva – como Fábio Rocco Sormani, Milton Neves, Celso Unzelte, Mauro Beting, Mauro César Pereira, PVC… – e doados a museus e a grupos de pesquisa do futebol, como a Asshophis, a Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos, e ao pessoal que se reúne no auditório do Museu do Futebol, no Pacaembu.

Os restantes 600 exemplares serão oferecidos ao preço de 120 reais cada. Esse valor anunciado de 70 reais, com direito a ter o nome impresso no último capítulo do livro, valerá apenas para os que adquirirem Time dos Sonhos durante a pré-venda, cujo prazo termina em 23 dias. Se você ainda não o fez, sugiro que não deixe para depois. No mínimo você terá muitos argumentos na hora em que um parente ou um amigo chato quiser discutir a história do futebol com você.

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Do valor líquido arrecadado com as vendas serão pagos os profissionais envolvidos no trabalho – edição de arte, edição de texto, fotografia, divulgação… – e os royalties devidos ao Santos Futebol Clube. Não representará muito dinheiro para ninguém, mas isso não é o mais importante. O valor de um livro está nas ideias que ele semeia e propaga. Se hoje a imprensa sabe que Santos e Corinthians é o primeiro clássico de São Paulo, respeita a vocação ofensiva do Alvinegro Praiano e o seu dom de revelar jogadores, é porque soube desses fatos pelos livros escritos sobre o Santos.

E você, não achou que 2 a 0 foi pouco?