Ao mesmo tempo em que conversa separadamente com seus dois queridinhos e lhes oferece mundos e fundos, a Rede Globo acena para os demais coadjuvantes do futebol brasileiro que não lhes poderá aumentar a verba. Se quiserem, peguem o que está sendo oferecido, e olhem lá… Assim, a Espanholização, sobre a qual este blog fala há anos, deixou de ser tramada nos bastidores para se arquitetada à luz do dia. Não há mais desculpa para a omissão dos dirigentes dos clubes relegados ao segundo plano. Ou deixam suas vaidades pessoais de lado e agem agora, ou condenarão suas agremiações à eterna codjuvância.

A causa é essencialmente política, não tem nada a ver com marketing, mérito esportivo ou outros temas recorrentes no futebol. É a Globo e seus dois apaniguados contra rapa.

A diferença discrepante de valores pagos aos dois e aos demais não se justifica pelo histórico dos clubes, por sua importância para o futebol e nem pelo seu rendimento técnico. É mais uma decisão populista em um país governado pelo populismo. Quem se sujeitar a ela, estará jogando a lei da livre concorrência no lixo.

Nos países de futebol, sistemas políticos e carácteres mais desenvolvidos, como Alemanha e Inglaterra, a divisão das cotas de tevê tende para o igualitarismo, o que equilibra as forças e faz dos campeonatos nacionais desses países os mais ricos e bem-sucedidos do planeta. E mesmo na Espanha, famosa por criar o sistema abominável de privilégios a dois escolhidos, o favorecido Barcelona percebeu que o enfraquecimento do campeonato também o enfraquece.

– Os clubes menores estão quase acabando, não têm qualquer poder de compra, não conseguem se reforçar e crescer. Isso prejudica o campeonato. Um campeonato fraco passa a valer menos. Barcelona e [Real] Madrid, pelas marcas que têm, devem receber mais. Mas essa diferença precisa diminuir – admite Laurent Colette, diretor de marketing do clube catalão.

Pois enquanto na Espanha perceberam o equívoco e querem diminuir a diferença entre os dois felizardos e os demais, aqui a Rede Globo, com a complacência de um mercado submisso, quer aumentar, o que Colette considera um grande erro:

– Essa ideia de repensar a distribuição (do dinheiro da tevê) vale para o mundo todo. Para o Brasil também. Precisa ser algo dentro da proporcionalidade das marcas, mas justo. Não adianta ter dois ou três clubes dominando. Lá na frente o prejuízo virá.

A ideia que o dirigente do Barcelona tem para a divisão de cotas de tevê é óbvia e deveria ser defendida pelos clubes brasileiros, em conjunto. Ele sugere que se adote um sistema similar ao da Inglaterra, onde os grandes Liverpool, Manchester City, United, Arsenal, Chelsea e Tottenham ficam com cerca de 115 milhões de euros cada um, mas os últimos do “ranking” não ficam com menos de 75 milhões de euros.

Os clubes mais populares têm, naturalmente, maiores possibilidades de conseguir dinheiro com arrecadações, associados, patrocínios e merchandising. Se também ganharem valores desproporcionais da tevê, seus concorrentes jamais terão a oportunidades de fazer-lhes frente. E não se faz um campeonato só com dois times, como quer a Globo. Se os demais se recusarem a participar, em bloco, o que será do futebol brasileiro?

Uma saída, democrática, seria abrir para outras emissoras de tevê a possibilidade de concorrer com a Globo, repartindo o bolo das transmissões. Do jeito que a negociação tem sido feita, há claras evidências de um monopólio, de um cartel do qual a Globo e seus dois clubes escolhidos são os maiores beneficiados. Por que não permitir que a Record, Bandeirantes, SBT, Fox e ESPN entrem na briga?

Um número maior de jogos transmitidos seria melhor para a divulgação do futebol, contemplaria mais torcedores, melhoraria o caixa de muitos mais clubes e impediria a odiosa Espanholização que insistem em empurrar goela abaixo do torcedor brasileiro.

Times nacionais, times regionais

Uma pesquisa de torcidas de futebol feita pela Pluri Consultoria no início de 2013 pela primeira vez buscou saber a porcentagem de torcedores de cada time nas cinco regiões do Brasil, e mostrou, claramente, que há times grandes nacionais, e outros, também grandes, mas com presença marcantemente regional.

Pela pesquisa, percebe-se que sete equipes têm esse perfil nacional: Flamengo, Corinthians, São Paulo, Santos, Palmeiras, Vasco e Fluminense. O Botafogo também se aproxima dele.

Outros clubes, porém, como os dois grandes de Minas e os dois grandes do Rio Grande do Sul, têm presenças marcantes em suas regiões – Sudeste e Sul, respectivamente -, mas pouco aparecem nas outras. Esse é um detalhe importante para a tevê.

Clique aqui para ver, na íntegra, a pesquisa de torcidas das regiões do Brasil.

E você, acha que ainda dá para frear a Espanholização?