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Há 80 anos o Santos era campeão paulista pela primeira vez!

O ano de 1935 começou sem dar maiores esperanças aos santistas. Nos dois primeiros amistosos, duas derrotas: 3 a 2 para o São Paulo e 1 a 0 para a Portuguesa de Desportos, ambos na Vila Belmiro. Como o Campeonato Paulista demorava a começar, deu tempo para se redimir, com vitórias sobre Corinthians (3 a 2), São Cristóvão (2 a 1), Espanha (10 a 1)…

Deu até para aceitar um convite para uma excursão ao Rio Grande do Sul, de 12 a 26 de maio, onde venceu Novo Hamburgo (4 a 2) e Riograndense (4 a 3), empatou com o Internacional (1 a 1) e perdeu para Grêmio (3 a 2) e Seleção Gaúcha (3 a 2). Uma excursão como essa, naqueles tempos de poucas viagens, era tudo que os jogadores queriam. Só que chegaram a Santos no dia 29 de maio e descobriram que a tabela marcava para o dia 2 a estréia contra o Palestra, o atual campeão paulista.

Logo de cara, um jogo decisivo, pois se o time tinha alguma pretensão de brigar pelas primeiras posições, deveria vencer o Palestra, na Vila Belmiro. No segundo turno o jogo seria no Parque Antártica e a dificuldade seria bem maior. Sabendo disso e lutando como nunca, o Santos venceu por 1 a 0, gol do centroavante Raul. Bastante modificado com relação à temporada anterior, o time jogou com Cyro, Neves e Badu; Figueira, Ferreira e Marteleti; Saci, Moran, Raul, Logu e Paulinho.

A vitória sobre um dos favoritos ao título animou os santistas, que em seguida venceram também o Espanha, no campo do Macuco (2 a 0), e o Paulista, da Capital, no Parque Antártica (5 a 1). No quarto jogo veio a derrota para o Corinthians, na Vila Belmiro (2 a 1), mas o time se aprumou de novo e venceu a Portuguesa Santista, na Vila Belmiro (3 a 1) e o Juventus, na Capital (4 a 1). Nessa última partida, a que encerrou o primeiro turno, o time ganhou o reforço de Araken, que voltava ao Santos, depois de ser um dos fundadores do São Paulo da Floresta.

Na estréia do segundo turno, outro confronto com o Palestra, desta vez no Parque Antártica, campo do adversário. Jogo tenso, difícil, que terminou sem gols. Depois, uma goleada no Espanha, na Vila (4 a 1) e outra no Paulista (5 a 2), também em casa. Mas a Portuguesa Santista complicou as coisas em Ulrico Mursa (3 a 3) e o time depois teve de vencer o Juventus em nervosos 2 a 1, na Vila, para jogar pelo título e pelo empate a última partida, contra o Corinthians, no Parque São Jorge.

Finalmente, o primeiro título paulista estava bem próximo. Mas Bilu, o técnico santista, temia que a emoção traísse seus jogadores, ou que o árbitro, Heitor Marcelino Domingues, pudesse puxar a sardinha para os times da Capital. O Corinthians ainda tinha chance de ser campeão. Para isso, precisaria venceu o Santos e, em sua última partida, vencer também o Palestra Itália.

Caso perdesse, o Santos não teria mais chances de ser campeão e ficaria apenas assistindo à decisão entre o alvinegro da capital e o Palestra – mesmo alviverde que venceu o Santos na Vila Belmiro, em 1927, quando o empate bastaria para que a taça ficasse com o Santos. Bilu, que jogou aquela partida como zagueiro, jamais escondeu a mágoa pela forma com que o campeonato lhe tinha sido tirado, com uma atuação parcial e cínica do árbitro Antonio Molinaro. Naquele 17 de novembro, no Parque São Jorge, Bilu teria a chance de, por linhas tortas, saborear sua vingança.

Por felicidade, Bilu pôde escalar o melhor santista para cada posição: Cyro, Neves e Agostinho; Ferreira, Marteleti e Jango; Saci, Mário Pereira, Raul, Araken e Junqueirinha. A boa torcida que subiu de trem para São Paulo fez o time se sentir à vontade. Entre os santistas havia muitos estivadores que entraram no estádio com garrafas de gasolina e prometiam incendiar a Fazendinha se o Santos fosse novamente roubado em uma decisão.

Felizmente, porém, além do jogo viril do rival, não se tem notícia de nenhum incidente. Diante de cerca de 15 mil pessoas, que tomaram as arquibancadas e os morros vizinhos, o Santos venceu por 2 a 0, com gols de Raul no primeiro tempo e do veterano Araken no segundo.

O jovem meia Mário Pereira, então um Menino da Vila de 21 anos, contou-me que a multidão esperava os jogadores na estação de trem de Santos – aquela que fica em frente ao Museu Pelé – e os levou nos ombros até a Vila Belmiro. Tudo terminou em festa e muita bebida.

O título estadual de 1935, o primeiro dos 21 estaduais do seu currículo – que fazem do Santos o time mais vitorioso na era profissional do futebol paulista –foi extremamente justo. O Alvinegro Praiano teve o ataque mais positivo do campeonato (32 gols) e a defesa menos vazada (10). O troféu compensou, em parte, as frustrações de anos anteriores, nos quais o Santos já poderia ter sido campeão, não fossem os indefectíveis incidentes extra-campo.

MENINOS DA VILA, UMA GRIFE


Menino do Santos marca de bicicleta contra o outro alvinegro.


Santos na final do Paulista Sub-15.


Gabriel e Felipe Anderson brilham na Seleção Olímpica.

Os outros clubes têm divisões de base, o Santos tem os Meninos da Vila. Virou uma grife. Eles estão na Seleção Olímpica, nas finais de todas as categorias do Campeonato Paulista e às vezes são mais da metade dos titulares do Santos, time que faz uma das melhores, se não a melhor, campanha no futebol brasileiro em 2015.

No amistoso desse final de semana, em Belém, Felipe Anderson fez dois, Gabriel mais dois e o mesmo Gabigol, generoso, não quis chutar e deu o quinto gol da Seleção Olímpica Brasileira para Luan, na vitória de 5 a 1 sobre os Estados Unidos. O Brasil ainda tem como titular o lateral Zeca, outro Menino da Vila, e logo contará com o astro Neymar.

Em São Paulo, a presença dos Meninos da Vila é tão marcante nas competições estatuais que o torcedor santista já estrega as mãos, antevendo novas revelações para o time profissional, que hoje chega a ter sete titulares oriundos de suas categorias de base: Daniel Guedes, Gustavo Henrique, Zeca, Alison, Thiago Maia, Gabriel e Geuvânio.

Antídoto contra a Espanholização

Revelar jogadores é uma das formas mais eficientes de um clube brasileiro se manter competitivo, mesmo não sendo bafejado pelo sistema de privilégios que quer implantar a Espanholização no futebol nacional. Como o dinheiro do Santos não vem de lobbies de nenhum ex-presidente da república e nem de acordos secretos com a televisão, o jeito é trabalhar mesmo, e preparar garotos bons de bola.

Recentemente, o CEO do Alvinegro Praiano, Dagoberto Santos, disse que em vez de construir um estádio próximo à Vila Belmiro, o clube deveria investir em um CT maior e mais moderno para os Meninos. Concordo com ele.

Hoje garotos do mundo inteiro procuram o Santos com a esperança de se tornar um Menino da Vila. É evidente que o clube precisa dar ao seu departamento de futebol de base todas as condições para empreender esse trabalho fundamental para o crescimento do clube e para a esperança de novos dias para o futebol brasileiro.

Lidar com crianças e adolescentes exige, ainda, um corpo de profissionais de alto nível, tanto no aspecto técnico, como, principalmente, moral. É preciso praticar a meritocracia desde a base, selecionando e dando oportunidades aos garotos de maior potencial, erradicando totalmente o pagamento de propinas para favorecer um ou outro candidato menos qualificado.

Sentimos que o Santos está no caminho certo, um caminho que jamais deverá ser abandonado, pois é e será a única esperança, repito, de se manter competitivo em um mercado viciado, dominado por uma rede de tevê que decidiu criar um apartheid entre os clubes brasileiros.

E você, o que pensa sobre a grife Meninos da Vila?