Classificação heroica: Santos faz dois gols em três minutos, vira o jogo contra o alvinegro de Itaquera e vai para a final do Paulista Sub-17. Veja:

Victor Ferraz já começa a treinar com bola:

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TEMPOS BRUTOS E BURROS


Cidinha Campos, então repórter da TV Record, ouvindo Pelé antes do Gol 1000.

Durante os trabalhos de pesquisa e produção para a primeira exposição do Museu Pelé, tive a sorte de entrevistar Paulo Planet Buarque, o elegante jornalista da TV Record que fez parte da equipe que planejou a vitoriosa participação da Seleção Brasileira nas Copas de 1958 e 1962. Lembrava-me que a TV Record preferia transmitir jogos do Santos aos de qualquer outro time, mesmo os de maior torcida estática. Perguntei a ele por que a emissora exibia tantas partidas do Alvinegro Praiano e sua resposta, acompanhada de um sorriso, foi a mais pura e natural possível.

– Aquele time do Santos era fantástico, todos queriam vê-lo. Tinha craques extraordinários e, entre eles, Pelé, o melhor jogador do mundo.

Imediatamente senti-me constrangido por ter feito a pergunta. Se o Santos, time chamado pelo narrador Raul Tabajara, da mesma TV Record, de “A Máquina de Fazer Gols”, ou os “Globe Trotters do Futebol”, produzia autênticos espetáculos mesmo nos gramados às vezes esburacados de estádios de todos os tamanhos, por que não transmiti-los? O fato de vivermos uma época dominada pelo mau gosto, em que a quantidade vale mais do que a qualidade, parece que me fez esquecer que este País já foi bem melhor, pois valorizava o que era bom e belo.

Sei que quase toda a equipe esportiva da TV Record torcia secretamente para o São Paulo, e o dono da emissora, Paulo Machado de Carvalho, era tricolor confesso, mas isso não fez com que a emissora privilegiasse jogos do time da Capital. Vivíamos tempos éticos, democráticos, inteligentes, de bom gosto, em que o melhor e o mais bonito era sempre mais valorizado.

Na música predominavam as letras do poeta Vinicius de Moraes e as melodias de Tom Jobim e João Gilberto; na crônica esportiva líamos textos de Nelson Rodrigues, Mário Filho, Armando Nogueira… Não se discutia a preferência pelo melhor, pelo mais bem feito, pelo que merecia ser visto. Vivíamos, no futebol e na sociedade brasileira, hoje eu sei, a chamada Meritocracia.

Mas, infelizmente, aquela TV Record, que valorizava o que era bom e bonito, que levou o teatro para a televisão, que mantinha uma orquestra e um corpo de baile, que trazia astros internacionais da música para shows transmitidos ao vivo, que cobria o melhor do futebol e criou os festivais de música que revelaram, entre outros, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Edu Lobo, Geraldo Vandré e contestaram a Ditadura Militar, enfim, aquela emissora que valorizava o mérito e a liberdade sofreu incêndios criminosos jamais esclarecidos, entrou em colapso financeiro e foi suplantada por um canal pequeno e apelativo, com sede no Rio de Janeiro, que, de uma hora para outra, recebeu grande aporte financeiro do governo militar e passou a dominar o mercado.

Ao comparar os tempos de predomínio da velha TV Record com os atuais, é impossível não se chocar com o sistema bruto e burro que querem nos impor. No futebol, por exemplo, a qualidade ficou em segundo plano. Há uma política sórdida que pretende enriquecer, na marra, dois clubes considerados mais populares. Não importa que algum de seus concorrentes passe a jogar um futebol excepcional, ou revele um novo Pelé. As cartas já estão marcadas.

Mesmo quando manteve, com grande esforço, o ídolo Neymar, um dos mais festejados do planeta, o Santos era preterido por equipes que são consideradas “mais populares”. O recado da tevê que hoje controla o futebol brasileiro é claro: ela não acredita no amor ao futebol e no bom gosto do torcedor brasileiro, mas aposta que, abrutalhado e pouco inteligente, este aficionado preferirá, sempre, ver o jogo do seu time ao de qualquer outra equipe, mesmo que esta jogue maravilhosamente bem.

Essa filosofia ditatorial condena a maior parte dos grandes clubes brasileiros à coadjuvância, pois mesmo que passem a praticar um futebol deslumbrante, não serão vistos na tevê, enquanto aos privilegiados será oferecida farta exposição, mesmo que pratiquem um futebol medíocre. Esta política, consequentemente, cria desigualdades odiosas.

Santos e Palmeiras, justamente os times com menos partidas televisionadas, foram os finalistas do Campeonato Paulista e são novamente finalistas da Copa do Brasil, com a perspectiva real de proporcionarem os maiores índices de audiência do futebol brasileiro em 2015. O Santos ainda empreendeu a maior reação no Campeonato Brasileiro, saindo da zona de rebaixamento para o G4. De quebra, tem Ricardo Oliveira, o maior artilheiro do País nesta temporada, e é o único time nacional com dois titulares na Seleção – Ricardo Oliveira e Lucas Lima, o autor do importante gol de empate diante da Argentina. É, ainda, o time formador de Neymar, o único super craque do futebol brasileiro no momento.

Todos esses méritos, porém, conquistados exclusivamente em campo, não impedem que a TV Globo, a pequena tevê carioca que cresceu de uma hora para outra e hoje domina o Brasil, reserve para o Santos uma cota que a partir de 2016 será menor do que a metade da verba ofertada ao Flamengo, time que não conquistou e nem conquistará nenhum título este ano, está longe do G4 no Brasileiro, não tem jogador na Seleção e pratica um futebol sofrível. Onde está a justiça nisso?

Nos tempos áureos da TV Record, em cuja equipe esportiva brilhava a inteligência e a simpatia de Paulo Planet Buarque, o futebol brasileiro, então o melhor e mais bonito da Terra, conquistou as Copas de 1958 e 1962, revelou os grandes craques de sua história e protagonizou eventos memoráveis, como o bicampeonato mundial do Santos em 1962/63. Os estádios viviam lotados e o torcedor sabia que o melhor time é o que deveria ser visto. Enfim, eram tempos elegantes. E inteligentes.


Paulo Planet Buarque com Ele.

Eu tenho saudades da velha Record. E você?