Li no comentário do leitor PCabral um trecho da entrevista de Luis Paulo Rosenberg, ex-vice-presidente de marketing no alvinegro de Itaquera, hoje na Portuguesa. O que Rosemberg disse não é novidade para mim. É o mesmo que me revelou em uma matéria para a revista Four Four Two, da qual quando fui editor entre 2009 e 2010. Sua opinião sobre o Santos continua a mesma, conforme descreveu agora para o portal Terra:

É necessário conhecer muito bem a cultura para desenhar o clube de acordo com as origens e os valores de cada um. A característica maior do Santos é o futebol atrevido, jovem, bonito. Eles podem estar por baixo, mas o futebol mais alegre é sempre deles. Está no DNA. É um comando totalmente provinciano, retrógrado, que segura o Santos, mas não adianta. É algo que floresce. Imagina fazer o Santos sem essa característica? Enquanto que o Palmeiras tem que crescer em volta da sua origem italiana, precisa valorizar isso. E o São Paulo precisa ser empresa. O São Paulo não tem torcedor, tem consumidor. E o consumidor do São Paulo vai encher o Morumbi se o serviço for de qualidade. Hoje eu acho que o time mais sem rumo é o São Paulo, que era o líder em modernidade na virada do século. É preciso trabalhar a sua identidade. Tem que fazer o seu modelo.

Veja que, para ele, um estudioso e especialista do marketing do futebol, apesar de “um comando totalmente provinciano, retrógrado, que segura o Santos”, o Alvinegro Praiano se destaca pelo “futebol atrevido, jovem, bonito. Eles podem estar por baixo, mas o futebol mais alegre é sempre deles. Está no DNA”, enfatiza.

Os que acompanham este blog sabem que, coincidentemente, esta é mesmíssima opinião que tenho do Santos, de sua imagem pública e das amarras que o impedem de crescer. Alguns, céticos e práticos, perguntarão: “Mas de que adianta jogar bonito, fazer gols, revelar jogadores, se não ganhar campeonatos, faturar mais, ter mais torcedores?”

Eu respondo que este estigma de jogar bonito, fazer muitos gols e revelar jogadores, na maioria atacantes, de ser um time atrevido e jovem, é a grande pedra preciosa a ser lapidada eternamente pelo Santos. Ela é o princípio e o fim de todos os milagres que podem fazer o Santos crescer, sempre. É o que mantém o interesse sobre ele, que atrai torcedores e, mais importante, dá aos seus jogadores vindos da base um status, um valor agregado, que nenhum outro clube no Brasil, e poucos no mundo, têm.

Repare nessa frase de Rosenberg: “Eles podem estar por baixo, mas o futebol mais alegre é sempre deles”. Sim, o Santos é assim mesmo. Tive essa certeza mais de uma vez. Em uma das últimas, em um clássico com o São Paulo, no Morumbi, em que o Santos tinha Neymar e eles Lucas e fui convidado para participar de um programa de uma emissora de rádio.

Ficamos em um espaço dos camarotes, cercados de torcedores são-paulinos. Como eu era o único santista ali, a cada gol do time da casa, que venceu por 3 a 2, uns marmanjões com a voz rouca de cerveja vinham gritar às minhas costas, raivosamente, que lugar de peixe é no aquário. Enfim, o ambiente era hostil. Porém, ao apreciar o jogo, eu via um time que tocava a bola de cabeça erguida, que subiu a serra para dominar o adversário, no enorme estádio deste, e criar as melhores jogadas e situações de gol. A diferença de imagem de um time e do outro era muito grande.

Essa alegria do jogador do Santos certamente tem algo a ver com morar em uma cidade de praia, conviver com a sensação da liberdade ilimitada que o mar traz. Por isso, o Santos ser de Santos é ótimo e faz bem ao time. Só que o Santos não é uma ostra que nasceu e morrerá grudado à sua casca, à sua casa.

Manter esse espírito rebelde e essa imagem baseada no futebol bonito e ofensivo é o grande trunfo do Santos, o que o torna obrigatório ao futebol. A tentativa da Globo de jogá-lo no ostracismo não é só um crime contra o clube que tanto fez pelo esporte, ou um crime de favorecimento aos clubes com os quais essa emissora carioca mantém uma estranha e mal explicada parceria, mas é um crime contra a essência do futebol brasileiro que o Santos representa, baseada, repito, no atrevimento, na rebeldia, na busca pela arte que às vezes transcende o resultado.

Com a situação falimentar da economia brasileira, em contraste com o nascente milionário mercado do futebol na China, além das fortunas que os grandes clubes europeus reservam, a cada ano, para renovar seus elencos, é evidente que a grande saída financeira dos clubes brasileiros continuará sendo vender bem os seus jogadores e, nesse particular, o Santos sempre terá a vantagem de contar com a grife “Meninos da Vila”.

E para quem acha que Rosenberg não é confiável por torcer para o outro alvinegro, eu só lembro que ele deixou de servir ao seu clube do coração por não concordar com os métodos obscuros que levaram à construção do Itaquerão e por ser considerado ingênuo por aqueles que o queriam conivente com as safadezas arquitetadas pela direção do clube, à época assessorada por um lobista de nove dedos.

E pra você, qual é a imagem do Santos?