Em memória do ex-presidente do Santos de 1994 a 1998, Samir Abdul-Hack, falecido na semana passada, aos 75 anos, lembro uma matéria que fiz com ele em 1995, para a minha Revista do Futebol. Na matéria, ele explicava como havia pago a dívida do clube e montado um time competitivo, campeão brasileiro moral daquele ano.

samir abdul hack

FALTA CARÁTER DE CAMPEÃO

Se o Santos foi o time que teve mais jogadores na Seleção Olímpica e também na principal, é óbvio que, ao menos tecnicamente, tem elenco para ser campeão brasileiro. Mas um campeão não se faz apenas com técnica, e sim com personalidade, caráter, e isso esse time do Santos não tem, como ficou mais uma vez provado nessa derrota preguiçosa e desmotivadora para o Figueirense, na Vila Belmiro.

O Santos repete o comportamento de fracassar justamente no momento de assumir a luta pelo título brasileiro. Desde que a diretoria vendeu o mando de campo contra o Flamengo, o time foi derrotado por três equipes que lutam contra o rebaixamento: o lanterninha América Mineiro, o Coritiba, e agora, em plena Vila Belmiro – onde já havia sido derrotado pelo Internacional – cai diante do Figueirense, que se defendeu em 70% do tempo e deu algumas espetadas, suficientes para conseguir o pênalti que lhe garantiu a vitória.

Ao ver o Santos jogar contra o Figueirense tivemos a certeza de que não havia um conjunto em campo, mas sim uma série de individualidades preocupadas apenas com suas carreiras solo. E o problema é que nem a comissão técnica e nem a diretoria têm conseguido levar o time a buscar o objetivo de todos os santistas em 2016, que é o título nacional. Parece que os jogadores têm o seu próprio pacto, e ele não inclui brigar por troféu algum.

Lutar por um título dá trabalho. São rodadas e rodadas de tensão, esforços por vitórias quase impossíveis, empenho em cada partida, em cada jogada. Enfim, é uma mão de obra danada. E quando está na luta pelo título, a cobrança da torcida e da opinião pública é maior. Todos os olhares se voltam para os times que realmente querem o caneco. Ficar mais atrás, sem se preocupar com a primeira posição e nem mesmo com um lugar no G4, é bem mais cômodo, com a vantagem de que o salário continua o mesmo. Colocar o título como maior objetivo é coisa de jogadores antigos que ainda se preocupam com isso. Dá para ficar milionário sem nunca ser campeão de nada. Quem ainda se preocupa com currículo?

Um time que domina, domina, domina e não chuta a gol, parece estar pedindo para tomar um no contra-ataque. O santista já viu isso tantas vezes que no primeiro tempo, mesmo quando tinha quase 80% de posse de bola, muitos leitores deste blog já temiam que isso acontecesse. É meio que a crônica da derrota anunciada. Até porque o Santos podia estar sem vontade, mas do outro lado havia um adversário lutando com unhas e dentes por um resultado que o afastasse da zona de rebaixamento.

Ingênuo, o torcedor santista, eu inclusive, acreditava que com a volta do trio olímpico o time voltaria a jogar bem e caminharia para ser campeão brasileiro, o que não ocorre desde 2004. Porém, ao assistir os últimos 15 minutos do jogo contra o Vasco e esses mais de 100 minutos contra o Figueirense, ambos diante de sua torcida, percebe-se que este Santos joga quando quer, independentemente do adversário, de estar com todos os titulares, de ter descansado suficientemente, do clima, das marés, da situação do campeonato.

Se eu fosse maledicente, diria que o negócio bem-sucedido com Gabriel e a festa prometida para o garoto após o jogo deixou alguns cardeais da equipe incomodados. Lucas Lima só enrolou, Ricardo Oliveira mal pegou na bola e Victor Ferraz andou pelo campo, como barata tonta. Mas acho que foram apenas coincidências, claro. Não é porque na hora da homenagem deixaram Gabriel sozinho no campo que estão com inveja do garoto.

Se eu fosse realmente maledicente, diria que Lucas Luca e Ricardo Oliveira estão de saco cheio e não veem a hora de também sumirem do Santos. Diria que Zeca e Thiago Maia foram dos poucos que jogaram com vontade (este último com vontade demasiada, a ponto de cometer um pênalti por afobação). Diria, ainda, que Dorival Junior não colocou o seu querido Cittadini para não queimar o garoto, mas jogou Jean Motta e Vecchio na fogueira (Vecchio se saiu muito bem, mas será que será escalado no próximo jogo? Como saber, se a cabeça do Dorival é como bumbum de nenê?).

Essa busca por fazer cada jogador se empenhar pelo time é, talvez, o maior desafio de um técnico e de um departamento de futebol. Ao ver o Santos jogar, percebe-se que falta esse comando e essa disciplina. Cada jogador parece jogar apenas para si. Na saída do campo, as mesmas respostas de sempre, ninguém diz que agora o título ficou mais distante, e sabe por quê? Porque ninguém, na verdade, está pensando nessa conquista, apenas nós, torcedores, que depositamos o nosso sonho nos pés de um grupo acomodado.

Caráter de campeão também faz falta ao técnico Dorival Junior, que nesse domingo levou um nó tático de um desconhecido técnico interino. A Dorival falta a personalidade de colocar um figurão no banco até que volte a jogar com vontade, o que técnicos de maior personalidade, como Luxemburgo e Leão, certamente fariam. Com Dorival, alguns jogadores são intocáveis, mesmo quando se arrastam na partida, como ocorreu contra o Figueirense. Dorival é um placebo, um amigão dos jogadores que, como já diria Maquiavel, terá a cabeça cortada quando se insurgir contra a esbórnia.

Contra o Figueirense, Lucas Lima, Ricardo Oliveira, Victor Ferraz e Vitor Bueno foram nulos. Pouco se empenharam para mudar a sorte da partida e perderam um jogo decisivo, em casa, para um dos piores times do campeonato, sem demonstrar o mínimo aborrecimento. Sabem que a cobrança sobre eles não existe. Não serão multados, não perderão lugar no time, no próximo jogo em casa a torcida cantará novamente seus nomes … Enfim, estão assoviando e andando. Milhões de santistas ficarão de cabeça inchada mais um domingo? Danem-se. Os que têm, ou acham que têm, mercado lá fora, querem é seguir o mesmo caminho de Gabigol. Faltam só três dias para fechar a janela para a fortuna. Ah que inveja do moleque!

Santos 0 x 1 Figueirense

Campeonato Brasileiro
Vila Belmiro, 28/08/2016, 11 horas

Público: 11.456 pagantes. Renda: R$ 465.045.

Um detalhe: somados o público deste domingo e o do meio da semana, contra o Vasco, o público na Vila deu cerca de 17.500 pagantes, com uma média de 8.750 pessoas por jogo e ticket médio de 40 reais. Para a areninha no Portuários dar certo, será preciso, por 20 anos, um público médio de mais de 18 mil pessoas, com um ticket médio de 82 reais! Ou seja: será preciso mais do que dobrar o público e o valor dos ingressos.

Santos: Vanderlei; Victor Ferraz, Luiz Felipe, David Braz (Jean Mota, aos 22’/2T) e Zeca; Thiago Maia e Renato; Vitor Bueno (Vecchio, aos 36’/2T), Lucas Lima e Copete (Gabriel, intervalo); Ricardo Oliveira. Técnico: Dorival Júnior.

Figueirense: Gatito Fernandez; Ayrton, Werley, Marquinhos (Bruno Alves, aos 6’/1T) e Marquinhos Pedroso; Ferrugem (Renato aos 21’/2T), Jackson Caucaia, Elicarlos (Jefferson, aos 18’/1T) e Dodô; Rafael Moura e Lins. Técnico: Tuca Guimarães.

Gol: Rafael Moura (pênalti, aos 2 minutos do segundo tempo).

Arbitragem: Bruno Arleu de Araújo, auxiliado por Dibert Pedrosa Moises e Thiago Henrique Neto Correa Farinha, todos do Rio de Janeiro.
Cartões amarelos: Copete, Thiago Maia e Renato (Santos); Ferrugem e Werley (Figueirense).

E você, o que acha disso?

Areninha: números irreais
Usando a tevê de Marcelo Teixeira como apoio, Modesto Roma tem semeado a ideia de que a arena no terreno do Portuários é um grande negócio para o Santos e a cidade de Santos. Como pode ser bom um negócio com um primeiro orçamento de 465 milhões de reais, mais do que o dobro do patrimônio atual do clube, no qual o Santos terá de arcar com 40% das despesas de manutenção e só receberá 12,5% do lucro líquido nos primeiros cinco anos, passando a 40% só depois de 20 anos? Para se pagar a arena, o público médio terá de ser superior a 18 mil pagantes e o ticket médio de 82 reais – valor 31% maior do que os 57 reais cobrados pela moderníssima Allianz Parque. E não se pode esquecer que a média de público da Vila Belmiro é a 18ª entre os clubes brasileiros, com 9.409 pagantes. Clique aqui para conhecer o ticket médio dos estádios brasileiros.

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