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modesto roma - placar 2 Revista Placar de 5 de março de 1976 mostra como pensava Modesto Roma, pai do presidente atual do Santos.

O bairrismo, por si só, não é bom ou ruim. Baseia-se na crença, ou no sentimento, de que as coisas, concretas ou abstratas, de nosso bairro, nossa cidade, nossa região, merecem tratamento superior às de outros bairros, cidades ou regiões. Ser bairrista não significa, necessariamente, odiar o que é de fora, o estrangeiro. Veja que Portugal é o país considerado o mais hospitaleiro da Europa, no entanto é assumidamente bairrista.

O bairrismo de Portugal tem sua lógica. País pequeno, com apenas 10 milhões e meio de habitantes, o quase milenar Portocale teme que sua cultura seja dominada pelos estrangeirismos. Há regras rígidas até para se batizar uma criança por lá. Nomes que não são de origem portuguesa, como Wendel, Willian, Walter, Waldemar e Vivian, entre muitos outros, são proibidos nos cartórios. O português quer preservar, a todo custo, a última flor do Lácio.

Nós, torcedores do Santos que não moramos em Santos, sentimos na pele a força do bairrismo que é alimentado há décadas por alguns grupos da cidade praiana. Que eu me lembre, o grande presidente santista Athié Jorge Cury não era bairrista. Ele levou o Santos para jogar no mundo todo, e com os dólares que trazia manteve o melhor time do mundo por muitos anos. Onde, estaria, então, a origem desse bairrismo que ainda hoje freia os sonhos de crescimento do clube?

Digo “freia” porque é um bairrismo bem diferente do que se vê em Portugal. Não se trata de preservar a cultura ou a tradição de um povo, mas sim de apenas impedir que mais pessoas contribuam para o crescimento de uma instituição que conquistou adeptos em todo o mundo e agora, à força, querem que volte à sua dimensão anterior – algo tão difícil como fazer a rolha da champanhe voltar a tampar hermeticamente a boca da garrafa.

Um amigo santista acaba de me enviar uma revista Placar de 5 de março de 1976 que pode nos dar alguma pista das origens desse sentimento exclusivista que toma conta de alguns torcedores do Alvinegro Praiano. Nessa revista, há uma matéria de cinco páginas sobre o Santos, intitulada “Os feitiços da Vila”, na qual o presidente do clube na época, o senhor Modesto Roma (São Vicente, 15 de julho de 1907 – Santos, 6 de março de 1986), pai do atual presidente, pregava que o mesmo time que conquistou o mundo deveria voltar a ser apenas de sua cidade.

O velho Roma dizia, em março de 1976, que a saída financeira para o Santos era jogar na Vila Belmiro. Porém, conforme as súmulas dos jogos daquele período, impressas no Almanaque do Santos FC, escrito por Guilherme Nascimento, o quadro que se via era o mesmíssimo do atual, com o time conquistando seus maiores públicos nos jogos na Capital Paulista, e ainda colecionando muito mais derrotas na Vila Belmiro do que em São Paulo.

É preciso lembrar, ainda, que naquela época o Urbano Caldeira não tinha camarotes, os ingressos eram mais baratos e se permitia vender entradas para se assistir aos jogos de pé. Isso podia fazer a Vila receber públicos de até 30 mil pessoas, como ocorreu em 15 de fevereiro de 1976, quando, diante de 31.662 torcedores, o Santos foi goleado pelo Palmeiras por 5 a 0. Na maior parte dos jogos no seu estádio, porém, nesse mesmo período de 1976, o público era até menor do que hoje, como diante da Portuguesa Santista (5.104 pessoas), São Bento (3.977), Botafogo (7.838) e nos amistosos contra Saad (1.173), Ponte Preta (1.438) e Marília (4.002).

Mesmo mandando todos os seus jogos na Vila, o Santos não se classificou para a fase final do Campeonato Paulista, ficando em quinto e penúltimo lugar no Grupo C, atrás de Palmeiras, Ponte Preta, América e Noroeste. Os jogos de maior público com mandos do Santos, em 1976, ocorreram no segundo semestre, durante o Campeonato Brasileiro, nas partidas contra o Internacional, no Morumbi (83.995 pessoas) e Bahia, no Pacaembu (42.233 pagantes).

modesto roma - placar - frase

Certamente, Modesto Roma, que presidiu o Santos de 1975 a 1978, queria o melhor para o clube e agiu da maneira que julgou a mais correta para mantê-lo competitivo. Entretanto, depois de um primeiro semestre desastroso, percebeu que não poderia alijar dos destinos do Santos a grande torcida santista da Capital e recorreu a ela para recuperar as finanças do Santos.

Essa visão, abrangente e universal, é a que seria a mais indicada hoje, em que o clube estuda a participação em um empreendimento milionário que exigirá um investimento que ele não tem e ao mesmo o afastará da sua maior massa de torcedores, a mesma que socorreu o Santos quando Pelé parou e a imprensa esportiva de São Paulo já apostava que o Alvinegro Praiano voltaria às suas origens humildes.

Modesto Roma - capa da Placar de 5 de marco de 1976

Felizmente, Modesto Roma, o pai, percebeu a armadilha e aprumou o Santos no caminho que o consolidou, mesmo sem Pelé e os ídolos da década de 1960, como um dos maiores e mais populares times de futebol do Brasil. O que se espera agora é que, nesse momento delicado para a vida do clube, seu filho tenha a mesma visão e sabedoria, e saiba aliar as vantagens de ter o clube sediado na tranquila e aprazível cidade de Santos, com a enorme e apaixonada massa de torcedores que conquistou no planalto.

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Como o mundo vê o Santos
Por mais que, no Brasil, vivamos essa dicotomia entre o Santos de sua cidade e o Santos do país inteiro, no Exterior não há dúvida de que o Santos é olhado como uma equipe universal. Nas minhas pesquisas invariavelmente me deparo com matérias, em outras línguas, sobre os ídolos e as conquistas de nosso time. Em 29 de agosto encontrei esta, escrita por Marcelin Chamoin. Fiquei feliz de saber que ela traz trechos de meu livro “Donos da Terra” e filmes postados no Youtube pelo amigo Wesley Miranda, uma prova de que nossos trabalhos para preservar a história do Santos sempre dão algum fruto, às vezes inesperado, em algum lugar do planeta.
Clique aqui para ler o texto, em francês (dá para traduzir) de Marcelin Chamoin, sobre o Santos e Pelé.

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