Quando os adversários já diziam que o Santos tinha virado um time pequeno, Rubens Quintas Ovalle saneou as dívidas, evitou a falência do clube e confiou nos Meninos da Vila, campeões de 1978.

Já ouvi, de um torcedor contrário, uma piada que contam por aí sobre o Brasil, só que nela o país é substituído pelo Santos. Dizem que o Senhor criou um time à beira mar, de uma cidade menor, que colocaria de joelhos esquadrões das grandes capitais do mundo e revelaria craques aos borbotões, entre eles o melhor de todos. Um anjo enxerido quis saber se o Todo Poderoso não estava sendo generoso demais com aquele Alvinegro Praiano, ao que o Criador explicou: “Mas você vai ver os dirigentes que colocarei lá”. Bem, talvez no todo a piada seja uma grande verdade, mas há exceções. Eu mesmo conheci uma delas: dinâmico, assertivo, visionário, Rubens Quintas Ovalle assumiu o Santos em 1978, época em que ninguém queria presidir o clube, e salvou o Santos da insolvência.

A gestão anterior, comandada por Modesto Roma, tinha sido uma das mais terríveis da história santista. Nos Campeonatos Paulistas de 1975, 1976 e 1977 a melhor posição do Santos tinha sido um sexto lugar, em 1977. Nos Campeonatos Brasileiros destes mesmos anos o time terminou em 23º, 19º e 21º, respectivamente. Nós, torcedores, temíamos pelo pior. A cada derrota os adversários cantavam: “Pelé parou, o Santos acabou”. E derrotas é que não faltavam…

Naquele constrangedor ano de 1976 ano o Santos fez 67 jogos, entre oficiais e amistosos. Ganhou 24, empatou 24 e perdeu 19. A primeira grande frustração ocorreu no Campeonato Paulista, em que foi derrotado na Vila Belmiro por São Bento, Guarani e Ponte Preta e precisava vencer a Ferroviária para passar para a fase seguinte. Acabou empatando em 0 a 0, enquanto o Noroeste vencia a Portuguesa Santista, em Ulrico Mursa, e ficava com a vaga. Alguns jornalistas babaram de prazer ao decretar que o Santos não era mais time grande.

Mas em 1978 o empresário santista Rubens Quintas Ovalle foi eleito presidente do Santos, sucedendo Modesto Roma, e com uma visão profissional e arrojada o novo dirigente começou a colocar o clube nos trilhos. Em pouco mais de um ano o time estava comemorando o primeiro título paulista da era pós-Pelé, com um bando de garotos espetaculares como Juary, Pita, João Paulo e Nilton Natata, batizados pelo técnico Chico Formiga como “Os Meninos da Vila”.

placar santos campeao 1978

A conquista veio em julho de 1979 e a revista Placar (capa acima) publicou uma edição especial sobre o feito com o título “O Santos (novamente) é o maior”. Em suas páginas, várias matérias explicavam a recuperação do Alvinegro Praiano. Entrevistado, Rubens Quintas disse como havia pegado o clube e como ele estava naquele momento:

– Até 6 de abril do ano passado (1978) a dívida do clube era de 46 milhões de cruzeiros, segundo levantamento feito pela auditoria. O Santos era um clube totalmente desacreditado, tanto no mercado interno, quanto externo. A cota do clube para amistosos era de apenas 70 mil cruzeiros. Hoje o Santos não deve nem a fornecedores, nem a clubes, nem à Federação. Nossa cota para amistosos é de 500 mil cruzeiros e mesmo assim não temos datas disponíveis.

A matéria dizia que o presidente Rubens Quintas, então com 46 anos, ao qual o hábito de vestir jeans e o corpo esguio davam um aspecto jovial e dinâmico, se sentia um homem realizado, pois o Santos havia alcançado o objetivo bem antes do prazo previsto. Para o presidente, pagar os salários dos jogadores em dia tinha sido um dos segredos da recuperação santista:

– Quando assumi, tinha jogadores vivendo até problemas de despejo por atraso de salários. Se o patrão não paga, como é que alguém vai ter amor pelo trabalho que faz?

Lembro-me que além de pagar os salários em dia, Quintas criou uma maneira original e ousada de motivar os jogadores: uma parte da renda era dividida entre eles e a porcentagem dependia do resultado obtido. Assim, em uma época em que a torcida do Santos comparecia em massa aos jogos, quanto maior o público, mais o time lutava pela vitória.

Sob a direção de Rubens Quintas, além de campeão paulista de 1978, o Santos foi vice-campeão estadual em 1980. No Campeonato Brasileiro também passou a ter uma participação mais digna, chegando às quartas de final em 1980 e 1982, oportunidades em que foi eliminado pelo Flamengo de Zico em jogos equilibrados.

Aos 84 anos, Rubens Quintas Ovalle continua vivendo em Santos, quase anônimo, afastado da política do clube e dedicado à família. Não conheci o visionário Athié Jorge Cury, mas dos presidentes santistas que conheci, como jornalista, Rubens Quintas Ovalle foi o que melhor me impressionou.

Não me lembro, porém, de saber que ele recebeu uma homenagem do clube. E bem que merece, pois assumiu a presidência em um momento caótico, após uma gestão catastrófica, e devolveu ao santista a alegria e o orgulho de torcer para um dos maiores times da história. No ano que vem, o título de 1978, apesar de conquistado em 1979, completará 40 anos. Será uma ótima oportunidade de homenagear o primeiro dirigente santista campeão depois de Pelé. E um dos poucos a tratar o clube com a seriedade e o profissionalismo que ele merece.