O palpite infeliz do Leovegildo

O ex-jogador Leovegildo Lins Gama Junior, ou apenas Júnior, nascido em João Pessoa, Paraíba, em 29/06/1954, mas radicado no Rio de Janeiro – onde atuou com sucesso na fase áurea do Flamengo, de 1980 a 87 –, voltou recentemente a trabalhar como comentarista de futebol no canal Sportv. Domingo, no programa “Tá na Área”, ao comentar o e-mail de um telespectador que elogiava o colombiano Molina e dizia que com ele o Santos finalmente passava a contar com um jogador à altura de sua famosa camisa 10, Júnior discordou e disse que o Santos era o único caso em que um jogador, no caso Pelé, era “maior do que a instituição”.

Como os jornalistas presentes se calaram, o que deixou a impressão de concordarem com a idéia de que Pelé é maior do que o Santos, creio que a bem da cultura futebolística algumas observações se fazem necessárias – para o entendimento do público e, provavelmente, do próprio Júnior, cujo conhecimento esportivo parece limitado ao futebol carioca e, particularmente, ao que se costuma chamar de nação rubro-negra.

Obviamente, Pelé é a maior referência do Santos, assim como é do futebol brasileiro e do próprio País. Quantos brasileiros, em viagem ao Exterior, não foram surpreendidos pela exclamação: “Brasil? Pelé!”. Sim, mesmo tendo abandonado o futebol há 30 anos, Pelé continua sendo o brasileiro mais conhecido, idolatrado e respeitado no mundo. Isso não quer dizer, entretanto, que ele seja maior do que a instituição Brasil.

Assim como não quer dizer que Pelé seja maior do que o futebol brasileiro. Se Júnior tiver tempo – e é aconselhável que o consiga, pois a profissão de comentarista exige pesquisa e dedicação – perceberá que os estrangeiros têm a tendência de valorizar tanto Pelé, que às vezes esquecem que um time tem 11 jogadores e que uma andorinha só, mesmo tocada pelos deuses, não faz um verão.

Para exemplificar o que estou dizendo, indico ao Júnior e a todos que me lêem uma olhada em dois filmes no youtube. É só dar um control e um click no seguinte link: http://br.youtube.com/results?search_query=pele+west+german&search_type=

Raro, histórico, delicioso para quem ama a história do esporte, o filme, dividido em duas partes, mostra a partida disputada em Hamburgo, em 5 de maio de 1963, entre a Seleção da Alemanha Ocidental, que três anos depois seria vice-campeã da Copa da Inglaterra, e o Brasil, àquela altura bicampeão mundial em 1958 e 62.

Vivia-se o auge do futebol-arte e o auge da Seleção Brasileira, e por isso 71 mil pessoas se comprimiram no Volksparkstadion para apreciar o melhor futebol do mundo.

Percebam, entretanto, que o filme não é anunciado como Brasil versus Alemanha Ocidental, mas sim: “Pele vs. West Germany! The Greatest match in History”. Seria justo, então, afirmar que Pelé é maior do que a instituição Seleção Brasileira, ou maior do que o futebol brasileiro?

Claro que não. Pelé é a maior referência, a síntese de todos os grandes craques do nosso futebol, de Friedenreich a Romário, de Leônidas a Ronaldo, de Feitiço a Zico. Mas não pode ser maior pela simples razão, lógica, de que a parte não pode comportar o todo.

O leigo, o torcedor, o desavisado, pode incorrer no erro de julgar que a laranja cabe no seu gomo, mas o analista, nunca. Afirmar que Pelé é maior do que a instituição Santos Futebol Clube que daqui a quatro anos completará 100 anos de história riquíssima, é tão inconseqüente que chega a soar como provocação.

Pelé e o Santos, almas gêmeas

Muitos “analistas” parecem querer extrair Pelé da história do Santos, como se fossem coisas distintas, como se o jogador tivesse passado de passagem por lá. Se realmente amassem o futebol brasileiro, deveriam agradecer eternamente ao Alvinegro Praiano por ter mantido no País o maior atleta de todos os tempos durante toda a sua carreira.

Ao contrário de outras “instituições”, que mal conseguiram segurar os seus astros por algumas temporadas, o Santos recebeu Pelé em junho de 1956, quando este tinha apenas 15 anos, e só o deixou ir embora em outubro de 1974, quando este completou 34 anos e resolveu ganhar uns dólares no Cosmos de Nova York.

Claro que o Santos foi abençoado pelos deuses do futebol ao ser escolhido como a manjedoura de Pelé, mas este também teve a sorte de ser encaminhado ao melhor time paulista da época, campeão estadual de 1955, que o menino veria tornar-se bicampeão em 3 de janeiro de 1957, após vitória sobre o São Paulo por 4 a 2, em um Pacaembu com raros santistas.

O time-base do Santos bicampeão em 1955/56 era formado por Manga, Hélvio e Ivã; Ramiro, Formiga e Zito; Tite, Jair, Pagão, Del Vecchio e Pepe. Havia ainda Álvaro, Urubatão, Vasconcelos… Ou seja, só craques, algo impensável nos dias de hoje.

Zito, creio que Júnior tenha ouvido falar dele, foi o médio-volante titular da Seleção Brasileira nas Copas de 1958 e 62; Jair da Rosa Pinto formou no ataque titular do Brasil no Mundial de 1950; Pagão foi, para Chico Buarque de Holanda, o melhor centroavante que ele viu jogar; Pepe é o ponta que mais fez gols na história do futebol mundial, 405 deles só com a camisa do Santos, além de 22 pela Seleção Brasileira.

O garoto Del Vecchio, depois de artilheiro do Campeonato Paulista e convocado para a Seleção nacional, transferiu-se para a Itália, dando a Pelé a oportunidade de subir para os profissionais do Santos. Hélvio e Ivã formavam uma dupla de zagueiros de futebol clássico; Ramiro, Formiga e Tite esbanjavam categoria e Manga era um ótimo goleiro.

Pelé foi lançado no profissionalismo no meio desses “cobras”, que o adotaram como um filho. Mesmo quando passou a ser convocado para a Seleção Brasileira, o garoto continuou cercado pelo carinho dos companheiros de clube.

Em sua primeira partida na Seleção, em 7 de junho de 1957, na derrota de 2 a 1 para a Argentina, no Maracanã, Pelé entrou no segundo tempo no lugar de Del Vecchio. Ao seu lado, na ponta-esquerda, estava Tite, outro santista. No meio-campo, seu mentor, Zito, depois substituído por Urubatão, também do Santos.

Mesmo com Pelé, o Santos não foi campeão em 1957, mas de 1958 a 69 construiu o período mais vitorioso de um time de futebol, com dois títulos mundiais e duas Libertadores da América, seis brasileiros, quatro Rio-São Paulo e nove paulistas, sem contar inúmeros torneios internacionais, entre eles uma Recopa Sul-americana e uma Recopa Mundial.

O Santos chegou ao cúmulo de conquistar nove títulos consecutivos entre 1961 e 63. Estava em um patamar tão mais elevado, que se deu ao luxo de não participar de três Taças Libertadores (1966, 67 e 69). Na verdade, em 69 foi proibido de participar pela CBD, pois era a base da Seleção Brasileira que disputou as Eliminatórias com o codinome de “As feras do Saldanha”.

Júnior não deve se lembrar, pois tinha apenas 14 anos, mas se pesquisar nos anais do esporte (e a pesquisa, repito, é essencial para um bom analista esportivo) saberá que o técnico João Saldanha, ao assumir a Seleção Brasileira que disputaria as eliminatórias para a Copa de 70, disse: “Não é segredo para ninguém que o melhor time do Brasil é o Santos. Pois a base de meu time será o Santos”.

Sem tempo para uma preparação adequada, Saldanha convocou nove santistas, o que impediu o clube de disputar a Libertadores. Dos convocados, seis foram titulares em todos os seis jogos do Brasil nas Eliminatórias: Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo, Rildo, Pelé e Edu.

Na Copa de 70, como se sabe, os santistas Clodoaldo, Carlos Alberto Torres (capitão do time) e Pelé foram titulares. O quarto gol do Brasil na final com a Itália, momento de arte pura do futebol brasileiro em uma Copa do Mundo, teve a participação dos três. A propósito, o time que mais cedeu jogadores para as conquistas de 1958, 62 e 70 foi o Santos.

Essa participação marcante de santistas na Seleção Brasileira começou logo no primeiro título importante do futebol nacional, o Sul-americano de 1919, disputado no estádio das Laranjeiras. Com três convocados, o Santos foi o time que mais cedeu jogadores ao Escrete: o ponta-esquerda e capitão da equipe Arnaldo Silveira, o ponta-direita Adolfo Milon e o meia-direita Haroldo.

Não acredito que Júnior saiba disso, assim como não deve saber que em 1927, ao inaugurar o estádio de São Januário, è época o maior do Brasil, o Vasco convidou o Santos para um confronto assistido até pelo presidente da República, Washington Luis. Goleado por 5 a 3, o clube do Rio quis nova partida, desta vez no campo do América, e sofreu outra goleada, desta vez por 4 a 1.

O Santos tinha um ataque fantástico, a ponto de naquele 1927 tornar-se o primeiro time da América do Sul a fazer 100 gols em uma competição, no caso o Campeonato Paulista. Omar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista eram insaciáveis. Antes de terminar o ano o Santos voltou ao Rio para bater o América (4 a 3) e o São Cristóvão (4 a 3), duas equipes de respeito naqueles tempos, e essas exibições na capital fizeram a crônica esportiva carioca considerar o Santos o melhor time do País. Isso, 30 anos antes da chegada de Pelé à Vila Belmiro.

Deve-se admitir que o brilho de Pelé ofuscou outros jogadores maravilhosos e reluziu mais forte até do que clubes e seleções. Mas um jogador, mesmo excepcional, não consegue levar uma equipe a grandes resultados se não for acompanhado por outros de alto nível.

O que o Argentinos Juniors conseguiu com Diego Armando Maradona? Que título o Corinthians obteve, mesmo contando com a genialidade de Roberto Rivellino por mais de uma década? Por que o Botafogo de Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Amarildo e Quarentinha não conseguiu nenhum título nacional e nenhuma Taça Libertadores?

Ora, o futebol, e eu até me constranjo de ter de lembrar isso, é um esporte coletivo, que os ingleses batizaram de football association.

Na verdade, Pelé tinha, ao seu lado, no Santos, alguns dos melhores jogadores da história do futebol brasileiro. A opinião não é minha, nem dos companheiros do Rei. O lendário ponta-esquerda António Simões, considerado o melhor de sua posição na história do futebol português, definiu-me assim, há três meses, o time do Santos que goleou o Benfica por 5 a 2 na final do Mundial Interclubes de 1962:

“É muito difícil encontrar tanto craque como naquele time. Comparo o Santos de 62 com a Seleção do Brasil de 70. São as duas melhores equipes de futebol que vi até hoje. A Seleção de 70 é a confirmação de um modelo de jogo que o Santos já demonstrava há muito tempo”.

Gabriel Hanot, ex-jogador francês e depois editor do L’Equipe, nascido no final do século XIX, que acompanhou o futebol moderno desde a sua origem, disse após a final do Interclubes de 1962: “Desde há muito acompanhando o Santos pela Europa, julgo-o o melhor time do mundo, superior, inclusive, àquele famoso do Honved (maravilhoso time húngaro dos anos 40)”.

Então, a verdade a que Júnior chegaria, caso conhecesse menos superficialmente a história do futebol, é que não só Pelé foi e é o melhor jogador de todos os tempos, como o Santos dos anos 60, por ter um elenco extraordinário, além de contar com a cereja do bolo chamada Pelé, foi o maior time de futebol que já existiu.

Em tempo: aquela Seleção Brasileira que enfrentou a Alemanha Ocidental em 1963, filme que está no youtube com o título “Pele vs. West Germany”, atuou com nada menos do que oito titulares do Santos: Gilmar, Lima, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

Para quem não sabe, Gilmar foi o goleiro mais vitorioso da história do futebol, com quatro títulos mundiais, dois de seleções e dois de clubes; Lima foi titular da Seleção tanto na lateral-direita, como no meio-campo, posição em que atuou na Copa de 1966; Zito, além dos quatro títulos mundiais, como Gilmar, era um líder nato e fez o gol da vitória na Copa de 62. Quanto a Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, é a linha ofensiva mais conhecida do futebol. E será para sempre, pois nunca mais os times jogarão com cinco atacantes.

Quanto ao jogo em Hamburgo, a Alemanha abriu o marcador. Coutinho empatou com uma jogada individual, e Pelé fez o 2 a 1 definitivo, após receber passe de Mengálvio e fuzilar de fora da área (o Brasil voltou a jogar com oito titulares do Santos em junho de 1969, no Maracanã, na despedida do goleiro Gilmar. O adversário era a Inglaterra, campeã do mundo, derrotada por 2 a 1 por um time que atuou com os santistas Gilmar, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel, Rildo, Clodoaldo, Pelé e Edu).

Sem Pelé, entre os maiores

Seria até engraçado, se não revelasse uma pressão odiosa para alterar os fatos a favor dos clubes populistas (populismo está na moda, perceberam?), mas a verdade é que muitos “analistas” insistem em cortar da história do Santos os 18 anos em que o clube contou com Pelé. Como se dissessem, tal qual aquelas crianças que perdem o ânimo para brincar diante da derrota iminente: “Ah, com Pelé não vale”.

O Santos semeou, amparou e fez desabrochar o Rei do Futebol. Depois, cuidou dele e o manteve no Brasil, apesar de propostas milionárias de clubes europeus, como a Juventus e a Internazionale.

Clube que melhor pagava no País (o dobro do Botafogo e quatro vezes mais do que o Corinthians), o Santos manteve um time digno de Pelé e assim lhe deu a oportunidade de mostrar todo o seu talento. Enfim, o Alvinegro fez por merecer a magia do melhor jogador de todos os tempos.

Como é impossível comparar qualquer time com “O Santos de Pelé”, então parecem querer tirar Pelé da história do Santos. Será que Júnior pensa em tirar Zico da história do Flamengo? Claro que não. O Flamengo formou Zico, assim como Santos formou Pelé. Está certo que Zico, apesar de fantástico, ainda ficou longe de ser um Pelé, mas é a grande referência da história do Flamengo, assim como Pelé é a do Santos. Ponto. O resto é tentar inverter os fatos.

Por falar em fatos, espero que o comentarista Júnior saiba que a Federação Internacional de História e Estatística do Futebol, entidade alemã que acompanha os resultados das principais competições, escolheu o Santos como a quinta melhor equipe de 2007 e a primeira das Américas.

Por ter chegado às semifinais da Libertadores, ter sido vice-campeão brasileiro e bicampeão paulista, o Santos somou pontos suficientes para ultrapassar o Boca Juniors, sexto colocado; ficar dez posições à frente do São Paulo, décimo-quinto, e 19 à frente do Flamengo, vigésimo-quarto.

Como o Leovegildo ficou fora do mercado por alguns anos, talvez não saiba que nas últimas seis temporadas o Santos foi duas vezes campeão brasileiro e duas vezes campeão paulista, duas vezes vice-campeão brasileiro e uma vez vice-campeão da Taça Libertadores.

Nesse período revelou Robinho, um dos mais destacados jogadores do momento, além de Diego, Alex, Elano, Renato, Léo…

Mesmo sem Pelé há 34 anos, o Santos continua sendo o time que mais gols marcou na história do futebol mundial. Em outubro de 2005 superou a marca de 11 mil gols, ainda não alcançada por outra equipe. Em 2004, além de campeão brasileiro, bateu o recorde de gols na competição (103) e também teve a maior média de público por partida.

Por falar em público, segundo uma pesquisa do Ibope, em outubro de 2004 – mesmo antes do título brasileiro daquele ano e do bicampeonato paulista de 2006 e 2007 – o Santos tinha 4,9 milhões de torcedores no País, exatamente a soma das torcidas de Fluminense e Botafogo.

Esses 4,9 milhões representam 600 mil a mais do que os torcedores da Internazionale de Milão, 700 mil a mais do que os do Manchester United e apenas 300 a menos do que o Real Madrid (fonte: La Republica, edição de 24 de agosto de 2007). No ano passado, o Santos foi o time cujas partidas tiveram o maior índice de audiência na tevê.

Carismático, o Alvinegro Praiano inspirou outros clubes a adotarem o seu nome, entre eles o Santos Laguna, que já foi campeão do México e chegou a uma semifinal de Libertadores; o Santos da África do Sul, que também conquistou um título nacional; o de Angola, fundado pelo presidente angolano, um santista roxo; o Santos da Irlanda, e alguns nos Estados Unidos, entre outros (é interessante notar que esses times não foram batizados como “Pelé Futebol Clube”, e sim como Santos).

O clube tem melhorado sua estrutura, com um hotel-concentração confortável, ao lado do centro de treinamento, um moderno departamento de fisioterapia, memorial das conquistas, centro de treinamento para as divisões de base e um estádio reformado com um ótimo gramado e iluminação, novos camarotes e capacidade suficiente para receber jogos contra as maiores equipes do País.

Claro que há muito a evoluir para se chegar ao nível dos grandes clubes do mundo. O número de sócios ainda é pequeno. Apenas 25 mil. Também é preciso buscar o equilíbrio financeiro. O Santos tem dívidas de 60 milhões de reais. Nem parece muito, se comparada a de outros clubes brasileiros – como a do Flamengo, três vezes maior –, mas mesmo assim é um aspecto que preocupa.

No dia 14 de abril de 2012, o time fundado por jovens santistas da orgulhosa terra dos Andradas, completará 100 anos. Um século de uma história riquíssima. Pois, se sem Pelé o Santos se equipara aos grandes clubes do futebol, com o Rei ele alcançou um nível jamais igualado por nenhum outro.

Pode-se dizer, com certeza – e aí assim produzindo uma frase verdadeira, bem diferente daquela proferida pelo ex-jogador Leovegildo Lins Gama Junior no último domingo –, que pelos anos todos que contou com Gilmar, Zito, Pepe, Coutinho, Pagão, Carlos Alberto Torres, Gilmar, Mauro Ramos de Oliveira, Dorval, Mengálvio, Clodoaldo, Edu e, entre tantos outros, o incomparável Pelé; por tudo que fez e por todas as portas que abriu ao futebol brasileiro, o Santos deve ser reverenciado, sim, como a maior instituição do nosso futebol.

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A volta

Gustavo Kosha

Esperei algum tempo antes de escrever sobre o jogo de domingo contra o Prudente.

Depois que a minha filha nasceu, por motivos óbvios, não consegui ir com tanta frequência aos jogos do Santos. Tive que me contentar nos últimos meses aos “pfc’s” da vida.

Desde que me conheço por gente sempre fui torcedor de estádio. Meu pai sempre me levou aos jogos e hoje espero ansiosamente a minha filha crescer um pouco mais para poder levá-la também. Esse papo de “ver pela tv é muito mais confortável”, “ir em estádio é perigoso” e todos os outros chavões de “pseudo-torcedores” nunca me convenceram. Vou a Vila há mais de 30 anos. Religiosamente. E algumas vezes cumpro essa “minha devoção religiosa” também em outros estádios.

Apesar da felicidade indescritível de ser pai, eu sentia falta de alguma coisa, mas no último domingo tudo convergiu a meu favor e enfim eu consegui ver novamente um jogo do Peixe na “nossa casa”.

Jogaríamos contra o “praticamente rebaixado” e último colocado do campeonato. Tivemos a semana inteira que antecedia o jogo para treinar. Tivemos a volta de praticamente todos os jogadores do elenco que estavam machucados e como se tudo isso não bastasse o jogo seria de festa, afinal de contas era aniversário do melhor jogador de futebol que o mundo já viu, do rei que teve a honra de exercer o seu reinado com a nossa camisa. Pelé fazia 70 anos.

O que poderia dar errado?

Bom, não quero voltar ao assunto do jogo mesmo porque muito já se falou sobre o “desastre” de domingo.

Queria aqui, apenas com algumas palavras tentar explicar o inexplicável.

O jogo? Os erros? As falhas? Não.

A magia da Vila Belmiro.

Como é gostoso ver um jogo na Vila. Não há no mundo (não que eu conheça todos, longe disso, mas essa certeza é quase que absoluta) estádio mais romântico que Urbano Caldeira.

As suas ruas apertadas, aglomeradas de torcedores, nos fazem lembrar uma procissão rumo ao templo maior do futebol. O maior celeiro de craques do mundo. Seu tamanho é inversamente proporcional a sua história e suas glórias! Nada é exagero quando se fala em Vila Belmiro. Como é gostoso sentir o clima do jogo pelas suas redondezas.

Assistir a um jogo no nosso estádio é mágico. É diferente. É indescritível.

Domingo contra o Prudente, mesmo com a derrota e com a decepção pelo futebol apresentado eu mais uma vez tive a certeza de que não importa o adversário, não importa o jogo, o importante é estar de volta a nossa casa. Mesmo porque perder, jogar mal e errar acontece com todos os times. Ter a Vila Belmiro é um privilégio único do Santos e da sua torcida.

Gustavo Kosha é publicitário, pai da Nina, sócio e torcedor do Santos Futebol Clube.

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Realidade? Ou foi só um pesadeeeelo…?

Ricardo Ferrari

Que bela vitória nossa ontem. Esses 4 a 0 nos coloca de vez na briga pelo título. Estamos a três pontos do líder e nosso time joga bem, é consistente.

Mas, torcedor às vezes é muito louco, né? Mesmo quando ganha bem, insiste em sofrer. Veja só o sonho que tive essa noite:

Fui dormir feliz com a goleada. Logo peguei no sono e sonhei que depois do primeiro tempo tranquilo, quando vencíamos o lanterna Grêmio Prudente por 2 a 0, tomamos uma virada espetacular (espetacular pra eles) no segundo tempo, com requintes de crueldade.

No meu sonho, voltamos para o segundo tempo, e no primeiro lance, nosso experiente lateral-esquerdo Léo entregou uma bola para o atacante que fez de tudo para perder o gol, um toca pro outro, o outro tenta limpar pra cá e prá lá, insiste em não chutar, mas, como a entrega foi grande, consegue o gol.

Pior, no meu sonho, o lateral-direito ficou com inveja do esquerdo e o imitou minutos depois, entregando a bola de bandeja para o atacante, que encarou nosso experiente zagueiro Dracena, que como um iniciante fez o pênalti sem ao menos tentar tirar a bola ‘na boa’.

Pra piorar meu pesadelo, nosso time saiu todo desarrumado ao ataque e rapidinho tomou um contra-golpe do péssimo lanterninha do campeonato, que virou para 3 x 2 em pouco mais de 15 minutos.

No meu sonho, nosso bom interino inventou, tirou o único jogador que poderia fazer a bola rolar no meio campo para tentar o empate (Alan Patrick) e colocou um lateral improvisado no meio, que não teve condição de armar uma jogada. A partir daí, só chutões e cruzamentos para os gigantes Madson e Zé Love.

Mais não era tudo. Meu pesadelo ainda não tinha chegado ao climax. Sonhei que para matar o santista de raiva, o lanterninha teve dois jogadores expulsos e cedeu um pênalti ainda faltando 15 minutos para o jogo terminar. No meu sonho pensei: Vai Neymar, empata logo que ainda fazemos mais dois, pra terminar 5 x 3 pra nós.

Você nem imagina o que aconteceu ainda nesse pesadelo. Neymar errou mais um pênalti. A partir daí, 11 contra 9, não conseguimos mais nenhuma jogada e assistimos o rabeira do campeonato levar a vitória, jogando com heroísmo. E isso tudo na Vila Belmiro, na comemoração dos 70 anos do Rei Pelé, com Neymar usando camisa em homenagem e tudo.

De tanto me debater na cama e gritar palavrões, minha esposa me acordou e disse. ‘O que está acontecendo? Você está ficando louco? Para de me chutar e falar esses palavrões!

Ufa. Santa esposa!

Me levantei, fui à cozinha, tomei um copo d’água, me recuperei do susto e voltei pra cama. Ainda bem que foi só um pesadelo. Peguei no sono, feliz, pois sabia que na realidade, foram dois tempos iguais, dois vira quatro acaba. Com 4 x 0 pra nós.

Torcedor gosta de sofrer, né? Até quando ganha bem, tem que passar por apuros em sonhos. Sonho não, pesadeeeelooos…