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De pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gylmar e Mauro. Agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Nunca houve um time como este.

O melhor de todos os tempos

Em uma noite corriqueira de trabalho na editoria de esportes na sucursal paulista de O Globo, deparei-me com uma matéria da revista argentina El Gráfico que me fez decidir por pesquisar e escrever a história do Santos. A revista, a mais antiga e respeitada sobre futebol na América do Sul, tinha feito ampla enquete com especialistas de futebol da Europa e da América do Sul e chegara a um resultado que me deslumbrou: o Santos bicampeão mundial de 1962 e 63 fora o escolhido como o melhor time de todos os tempos.

Não escondo que fiquei surpreso ao constatar que mesmo os formadores de opinião da Argentina, maior rival do Brasil no futebol, também com tantas equipes de respeito, como o River Plate, o Racing, o “copeiro” Independente e o popular Boca Juniors, elegiam entusiasticamente uma equipe brasileira como a melhor que já se viu jogar.

Não pude deixar, também, de perceber o paradoxo de que enquanto no país vizinho decantavam o Santos, aqui no Brasil – isso, provavelmente, em 1982, o passado do time mais glorioso do esporte era gradualmente esquecido. Senti-me na obrigação de fazer alguma coisa para preservar a história daquela equipe e daqueles jogadores que transformaram minha infância e juventude em um éden encantado.

Uma questão de consciência que sempre incomoda o jornalista íntegro é: Estou sendo sincero? Estou retratando exatamente a verdade, ou desvirtuo os fatos para que fiquem de acordo com meu ponto de vista? Somos humanos, erráticos, instáveis e, por estar consciente dessa fraqueza, eu nunca defenderia que um time é o melhor que já existiu se não tivesse uma infinidade de evidências para comprovar isso. A pesquisa da El Gráfico, que ouviu centenas de experts, garantia que o que eu já suspeitava era a pura verdade.

Nunca mais encontrei aquele exemplar de El Gráfico. Entrei em contato com a redação da revista, em Buenos Aires, mas nem eles puderam me ajudar. Porém, de tanto escrever sobe a matéria, um santista radicado por lá me mandou a imagem escaneada das duas páginas finais da pesquisa, com uma grande foto do Santos de 1968 e o título “Qual fue el mejor equipo de la historia?

A foto é do Santos campeão do Torneio Pentagonal de Buenos Aires de 1968. Lendo com atenção, entendi que aquela matéria que eu tinha lido na redação de O Globo era uma das preliminares e a que me foi enviada por e-mail era a definitiva, que dava ao Santos da década de 60, e não apenas ao time bicampeão do mundo em 1962/63, o título de melhor de todos os tempos. O texto de apresentação dizia:

“Chegamos ao final de nossa enquete. Nela, nos brindaram com sua opinião jornalistas esportivos de todo o mundo, dirigentes, personalidades e futebolistas de ontem e de hoje. Tanto europeus como americanos se inclinaram, preferentemente, pelo Santos do Brasil (década de 60). Aquele dos mágicos jogadores que desenhavam sobre a grama. Para a maioria foi A MELHOR EQUIPE DA HISTÓRIA, um título que sem dúvida merece. O Real Madrid de Espanha (década de 50) teve o constante apoio dos votos chegados da velha Europa, enquanto a Internazionale de Milão (1964/65) e o Ajax da Holanda (19790/74) tiveram a aprovação dos jovens”.

A legenda da foto dizia: “Um dos conjuntos do fabuloso Santos da década de 60. Acima: Carlos Alberto, Ramos Delgado, Joel, Oberdan, Gilmar e Rildo. Abaixo: Amauri, Lima, Toninho, Pelé e Edu. Esta equipe ganhou o Torneio Pentagonal de 1968 disputado em Buenos Aires”.

O resultado final da enquete, anunciado como “El Escrutinio Final”, teve os seguintes classificados:

1 – Santos – década de 60 193 votos
2 – Real Madrid – década de 50 103 votos
3 – Internazionale – 1964/65 49 votos
4 – Ajax – 1970/74 47 votos
5 – River Plate – 1942/45 43 votos
6 – Racing – 1966/67 32 votos
7 – Independiente – 1972/75 28 votos
8 – Honved – 1952/54 22 votos
9 – Boca Juniors – 1978 17 votos
10 – Bayern Munich – 1972/76 13 votos
San Lorenzo – 1946 13 votos

O único outro time brasileiro a aparecer na pesquisa foi o Botafogo de Garrincha, Didi, Nilton Santos e muitos outros craques, o maior rival brasileiro nos anos 60. O Alvinegro Carioca apareceu na 31ª posição, com três votos.

Percebia-se que a pesquisa tinha sido feita com a isenção que um trabalho desses exige. Se fosse pautada apenas por interesses comerciais, como, infelizmente, tem sido normal em boa parte da imprensa esportiva de hoje, teriam dado um jeito de colocar um time argentino na ponta, eles que já tinham mais títulos de Taça Libertadores do que o Santos, por exemplo.

Ficou claro, também, que foi eleito um time, um elenco, um sistema de jogo em determinando momento da história, e não um clube ao longo do tempo. O Santos atingiu, na década de 1960, um nível de futebol ainda não superado. Não será a quantidade de títulos ganhos por uma outra equipe que vai mudar isso. Ganhar títulos é apenas um dos requisitos para ser o melhor para sempre.

Por que o Santos ainda não foi superado
A questão da quantidade de títulos é muito valorizada em uma sociedade materialista como a que vivemos. É um quesito importante, mas não definitivo. Sabemos que mesmo nas piores temporadas haverá campeões. Assim, em períodos de vacas magras, em que o nível técnico é sofrível – como o que ocorre atualmente no futebol brasileiro –, uma equipe pode ser campeã várias vezes sem jogar um futebol bonito ou ter grandes jogadores.

Não era, porém, o caso do Santos, que tinha um futebol bonito e, ao mesmo tempo, eficientíssimo. Sem contar os torneios, o Santos conquistou 24 títulos oficiais na década de 1960: oito paulistas, cinco brasileiros, duas Libertadores, dois Mundiais, uma Recopa Sul-americana, uma Recopa Mundial e quatro torneios Rio-São Paulo.

Hoje se comemora com estardalhaço a conquista da “tríplice coroa”, pois o Santos, de dezembro de 1961 a novembro de 1963 ganhou nada menos do que NOVE TÍTULOS CONSECUTIVOS, em uma seqüência jamais igualada, não só pela quantidade das competições, mas pela importância de cada uma delas. Primeiro foi bicampeão paulista e campeão brasileiro pela primeira vez em 1961; campeão paulista, bi-brasileiro, da Libertadores e do Mundial em 1962 e do Rio-São Paulo, bi da Libertadores e bi-Mundial em 1963 (só depois deixou de ganhar o Paulista de 1963. Mas como em seguida ganhou, consecutivamente, o Rio-São Paulo e o Paulista de 1964, isso dá um resultado de 11 títulos em 12 disputados!).

O Santos dos anos 60 jogava o futebol mais bonito que já se viu, tinha o melhor elenco já reunido em uma equipe brasileira, ganhou todos os títulos possíveis mais de uma vez, cedeu mais jogadores para as três conquistas que deram ao Brasil a Taça Jules Rimet, marcou mais gols do que qualquer outra equipe e, para completar, teve Pelé por 18 anos.

Além disso, o Alvinegro Praiano tinha uma ousadia que se tornou sua marca de grandeza. Ganhou quase todos os seus títulos longe da Vila Belmiro. Nunca temeu enfrentar qualquer time, nunca evitou um confronto. O mesmo, por exemplo, não se pode falar do Real Madrid, que durante anos recusou-se a enfrentar os santistas, a ponto de não disputar a final do Torneio de Buenos Aires, em 1965, com receio de ser humilhado pelo adversário.

O Santos reinou na época do futebol-arte, em que a Seleção Brasileira, com todos os jogadores convocados em atividade no País, ganhava a Copa goleando seus adversários na final. Na verdade, a época de ouro do Santos coincidiu com a época de ouro da Seleção. É impossível contar a história de um sem falar no outro.

Quando reinou, seu reino compreendia o mundo todo. Costumava iniciar sua excursão pelas Américas e depois passava para a Europa, enfrentando as melhores equipes de cada país e até seleções nacionais em um intervalo às vezes inferior a dois dias. Aos poucos estendeu seu roteiro também para a África, Ásia e Oceania. Até pela necessidade de ganhar muito dinheiro e cobrir sua folha de salários, a mais cara do Brasil, tinha de jogar seguidamente, às vezes chegando ao cúmulo de sair do avião direto para o estádio. E em cada partida seu prestígio estava em jogo. Duas ou três derrotas seguidas podiam significar a volta humilhante ao Brasil. Enfim, o time era obrigado a se expor, e mesmo enfrentando as maiores dificuldades a cada viagem, voltava ainda mais endeuzado.

Enquanto os grandes quadros europeus pouco se aventuravam na América do Sul, e quando o faziam invariavelmente se davam mal, o Santos vencia os esquadrões da Europa em seus próprios estádios, diante de sua torcida, o que aumentava ainda mais sua fama. Em 1962, depois de ganhar o título mundial goleando o Benfica em Lisboa, os santistas fizeram três jogos em cinco dias, batendo o Racing da França em Paris por 5 a 2, empatando com o Hamburgo, na Alemanha, por 3 a 3, e vencendo o Sheffield, na Inglaterra, por 4 a 2, partida em que um cronista britânico qualificou o futebol do time brasileiro de “sobrenatural.”

O desempenho dos santistas parecia crescer contra os times mais afamados. O Benfica, por exemplo, foi o time de melhor retrospecto na Liga dos Campeões nos anos 60, com dois títulos e três vice-campeonatos. Pois esse mesmo time, base da Seleção Portuguesa terceira colocada no Mundial da Inglaterra, em 1966, que possuía astros como Eusébio, Coluna e Simões, jogou sete vezes contra o Santos nesse período – das quais apenas duas no Brasil – e não obteve nenhuma vitória, perdendo sete e empatando uma.

Em 1961, por exemplo, conquistou a Copa Itália batendo o Juventus em Turim por 2 a 0, o Roma em Roma por 5 a 0 e o Internazionale em Milão por 4 a 1. Isso tudo em uma semana. Em 1962 iniciou a série de jogos internacionais com sete vitórias seguidas sobre as melhores equipes de Equador e Peru, o Nacional do Uruguai, até chegar ao Racing, campeão argentino, em Buenos Aires. Numa de suas melhores exibições, mesmo sem Gylmar, Mauro e Dalmo (substituídos por Laércio, Olavo e Décio Brito), o Santos venceu por 8 a 3, num jogo que encantou os críticos argentinos e os convenceu definitivamente de que estavam diante de um time inigualável. “A equipe do Santos é o próprio futebol”, dizia uma manchete. “Não é possível exigir mais do que o Santos fez”, dizia outra.

Com um time extraordinário, onde despontavam Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagalo, o Botafogo dividia com o Santos as honras de ter o maior número de jogadores na Seleção e foi bicampeão carioca em 1961/62. Em um ranking mundial de clubes votado por jornalistas internacionais e divulgado no início de 1963, o Santos aparecia em primeiro e o Botafogo em segundo. O duelo dos alvinegros era sempre memorável. Mesmo porque, além da beleza do futebol coletivo, tinham as duas maiores estrelas do futebol da época: Pelé e Garrincha. Como se poderia esperar, os jogos eram equilibrados e a vitória ora pendia para um lado, ora para outro. Mas o detalhe, crucial, é que nos confrontos mais importantes os santistas sempre levaram vantagem.

Foi assim na final da Taça Brasil de 1962, quando o Santos venceu em São Paulo (4 a 3), perdeu no Rio (1 a 3), mas na “negra”, também no Maracanã, na noite de sonhos que eu cito no começo do livro, goleou por 5 a 0. Em 1963 voltaram a se enfrentar nas semifinais da Taça Libertadores e após um empate de 1 a 1 em São Paulo, o Santos novamente goleou o Botafogo no Maracanã por 4 a 0. Assim, mesmo tendo a melhor equipe de sua história, o Botafogo –o eliminado sempre pelo Santos – jamais chegou sequer a uma final da Libertadores.

Algumas opiniões de quem viu

O jogo do Santos é uma radiante demonstração da arte e do poder desse esporte.
David Jack, jornal Daily Sketch

Vejo e não acredito. A elite de ébano do futebol mundial nos transportou ontem para uma nova dimensão do esporte… As testemunhas do que ocorreu em Shefield dirão a seus filhos e netos que o futebol dos brasileiros chega ao sobrenatural.
Briam Ames, jornal Daily Mail

O Santos é o próprio futebol.
Foi 4-2-4, mas que intérpretes!
Não é possível exigir mais.
Contra o Santos, nem o diabo.
Manchetes de jornais argentinos depois que o Santos goleou o Racing por 8 a 3, em Buenos Aires.

Dotado de um dos mais poderosos e homogêneos elencos jamais reunidos por um clube de futebol, o clube de Vila Belmiro é, no momento, unanimemente reconhecido como o mais completo quadro de futebol de todo o mundo.
Jornal O Estado de São Paulo analisando a conquista do título paulista de 1962.

O River Plate dos anos 40 e o Honved, da Hungria, eram maravilhosos, mas o Santos de Pelé foi melhor, mais criativo.
Roberto Petri, jornalista brasileiro da extinta TV Tupi.

O Real Madrid tinha um grande time, mas o Santos era superior.
Pedro Rocha, craque do Peñarol, primeiro time sul-americano campeão mundial, em 1961.

Aquele Santos campeão mundial foi, sem dúvida, o melhor time que já existiu.
Jornalista Alberto Helena Junior, apoiado por todos os participantes do programa Arena Sportv.

É muito difícil encontrar tanto craque, tanto jogador inteligente como naquele time. Comparo o Santos de 62 com a Seleção do Brasil de 70. São as duas melhores equipes de futebol que vi até hoje. A Seleção de 70 é a confirmação de um modelo de jogo que o Santos já demonstrava há muito tempo.
Antonio Simões, ponta-esquerda do Benfica e da Seleção Brasileira nos anos 60.

Desde há muito acompanhando o Santos pela Europa, julgo-a a melhor equipe do mundo, superior, inclusive, àquela famosa do Honved.
Gabriel Hanot, editor do L’Équipe, idealizador da Liga dos Campeões.

Não há nem pode haver melhor.
Título de A Gazeta Esportiva após o título mundial de 1962.

Em nenhum lugar do mundo se viu um futebol assim.
Título de jornal do Chile após o jogo Santos 6, Seleção da Tchecoslováquia 4, pelo Hexagonal do Chile.

O maior jogo do mundo.
Título da revista Fatos & Fatos após a vitória de 5 a 0 sobre o Botafogo que deu ao Santos o título brasileiro de 1962.

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Nós éramos um time muito treinado e unido. O Santos daquela época (1926 a 31) foi, talvez, o time mais harmônico do Brasil. Era uma linha tão boa que quando se formava a Seleção Paulista, iam os cinco como titulares. Só não conseguimos chegar ao título porque os times da capital armavam esquemas fora do campo (Araken Patusca)

Era proibido ser campeão

O fato de ter sido o primeiro time fora da capital convidado a disputar o Campeonato Paulista nunca significou que o Santos também tivesse sido convidado a vencê-lo. Ao contrário. Longe do centro geográfico das decisões políticas – principalmente naquele tempo em que o único meio de transporte entre as duas cidades era a preguiçosa Maria fumaça –, o time, se não chegava a ser sistematicamente prejudicado, sempre encontrava inúmeras barreiras, algumas insuperáveis, para chegar ao título.

“Nós éramos um time muito treinado e unido. O Santos daquela época (1926 a 31) foi, talvez, o time mais harmônico do Brasil. Era uma linha tão boa que quando se formava a Seleção Paulista, iam os cinco como titulares. Só não conseguimos chegar ao título porque os times da Capital armavam esquemas fora do campo”, disse Araken, já veterano, muitos anos depois.

A primeira vez que o Santos esteve perto de um título estadual foi em 1918. Na penúltima partida derrotou o líder, Paulistano, por 1 a 0, num jogo memorável, analisado assim pelo colunista do jornal O Estado de São Paulo: “Foi uma luta belíssima, presenciada pro uma multidão enorme e selecta, que acompanhou com intenso enthusiasmo todo o decorrer da peleja, que esteve brilhantíssima sob todos os aspectos. Foi, indiscutivelmente, um dos melhores, senão o melhor match de campeonato até esta data jogado”.

Só 15 dias depois, em 6 de outubro, o Santos enfrentou a Associação Athlética das Palmeiras, na Vila Belmiro. Vencendo, provocaria uma decisão com o paulistano. Mas perdeu por 1 a 0, com jogadores expulsos e muita confusão. Vejamos o que O Estado publicou sobre a atuação do árbitro Francisco Pellegrini: “O sr. Pellegrini, o célebre sr. Pellegrini, foi de uma infelicidade a toda prova, sendo mesmo agredido pelo povo”.

Depois de alguns anos em que colecionou mais derrotas do que vitórias no Campeonato Paulista, o Santos se aprumou em 1925 – já com o ataque que em 1927 faria 100 gols – e terminou em terceiro lugar, com sete pontos perdidos, apesar três a mais do que o campeão, a Associação Atlética São Bento (time da capital onde despontava o artilheiro Feitiço, que dois anos depois iria para a Vila Belmiro).

Em 1925 o Santos conseguiu triunfos marcantes e já poderia ter sido o campeão. Derrotou o Corinthians (1 a 0), a campeã Associação Atlética São Paulo (3 a 1) e empatou com o Paulistano (1 a 1) na Vila Belmiro. Ganhou do Ipiranga (3 a 2) e do Internacional (2 a 0) em São Paulo. Mesmo perdendo para o Palestra Itália, por 3 a 0, na Vila Belmiro, teria ficado com a taça se não perdesse para a Portuguesa, também na Vila, por 3 a 1. Na última rodada, já desmotivado, mesmo jogando em casa perdeu para o lanterninha Auto Sport (2 a 1) e perdeu ao menos a chance de garantir o vice-campeonato.

Havia, entretanto, a esperança de que o Santos, um pouco mais maduro, brigasse mais solidamente pelo título em 1926, quando o campeonato teria apenas um turno, com oito jogos para cada equipe. Na estréia, a expectativa parecia se confirmar, pois o time foi a São Paulo e bateu o Internacional por 4 a 2.

No segundo jogo, porém, erros grosseiros e suspeitos da arbitragem foram decisivos para que a equipe fosse derrotada pela Portuguesa por 2 a 1, em São Paulo. Indignado com a atuação do árbitro Cayuba Reis, o clube recorreu ao Conselho Superior da Apea através de Urbano Caldeira.

O Santos alegava que o sr. Reis validara os dois gols da Portuguesa em impedimento e anulara dois gols santistas perfeitamente normais. Provar isso sem videoteipe não deve ter sido fácil, mas o desempenho do árbitro foi tão parcial que o Conselho não só deu razão ao Santos, como excluiu Cayuba Reis do quadro de juízes da Apea. O resultado do jogo, entretanto, não foi alterado, e o Santos continuou com dois pontos perdidos.

Para se compreender a estrutura do futebol naqueles tempos de amadorismo, basta se ater ao que ocorre ainda hoje no futebol de várzea, com primeiro e segundo quadros e árbitros de cada time. Isso mesmo, cada clube tinha um ou mais juízes e podia acontecer de um deles atuar no próprio jogo de sua equipe. Porém, por mais que se aceitasse um sistema absurdo desses, não se admitia que numa decisão de campeonato o árbitro escolhido pertencesse a um dos finalistas. Mas até isso aconteceu contra o Santos…

Bem que Ascânio Bueno, conhecido goleiro em Santos, avisou aos diretores Agnello Cícero de Oliveira e Urbano Caldeira sobre conversas comprometedoras que ouvira no Café Argentina poucos dias antes da partida entre Santos e Palestra Itália, na Vila Belmiro, valida pela última rodada do Campeonato Paulista de 1927, cujo empate já daria o título ao Santos (que naquele ano chegou aos célebres 100 gols). Assim denunciou Ascânio aos dirigentes santistas:

“Um garçom, amigo meu, avisou-me que dois cidadãos, sentados à minha frente, conversavam sobre a compra de um juiz de futebol. Fingi que saía e retornei instantes depois, sentando-me numa mesa mais próxima à deles. Esperavam alguém, que logo chegou: ‘Falei com a mulher do Molinaro. Ele topa os 20 contos. Se o sorteio indicar o nome dele, o Palestra ganhará’, disse o recém-chegado”.

Os diretores do Santos acreditaram na história do goleiro, mas não quiseram levantar a lebre, como explicaria Urbano Caldeira mais tarde. Para ele, mesmo que Antonio Molinaro, árbitro do Palestra Itália, fosse o sorteado, entre três candidatos, o Santos, que jogava pelo empate, em casa, e era superior ao adversário, seria campeão (Caldeira chegava a ser ingênuo, em sua maneira virtuosa de se comportar).

De todos os jogos em que foi roubado descaradamente pela arbitragem, provavelmente este que decidiu o título paulista de 1927 foi o maior. Por isso, merece uma descrição detalhada, baseada no Álbum de Ouro publicado em 1963 pelo jornalista Adriano Neiva, o De Vaney:

A bola rola, o Santos avança, gol de Siriri aos 23 segundos. Para quem só precisava empatar, estava bom demais. A torcida enlouquece. O Palestra, acuado, consegue o primeiro contra-ataque aos 11 minutos: Lara avança e toma um carrinho de Bilu. Molina apita. Os santistas formam a barreira e os palestrinos cercam a bola para cobrar, mas o árbitro, que acompanhava o lance de longe, pela a bola e a leva até a marca do pênalti. Os santistas reclamam e Molinaro ameaça todo mundo de expulsão. Heitor finalmente bate… mas Athiè defende.

Aos 25 minutos, Bianco alivia a área com um balão que vai pegar Tedesco na banheira. Todos param, até o atacante do Palestra. Mas como o árbitro não apita nada e faz gestos insistentes com a mão para o lance continaur, Tedesco segue e empurra para as redes sem que o perplexo Athiè faça qualquer menção de defesa. É de se imaginar a reação da torcida santista após o lance. Mas, como o empate dava o título, bola pra frente…

Aos 38 minutos o Santos encurrala o adversário. Siriri e Araken entram na corrida, aproveitando uma rebatida do goleiro Perth e fazem 2 a 1. O goleiro, desconsolado, chuta a bola para o meio de campo, a Vila explode. Mas Molinaro corre até a área e pede que voltem a bola. Havia marcado impedimento.

Já no início do segundo tempo Evangelista avança e quando vai chutar é atingido por trás. O árbitro marca falta… do atacante santista. Aos 17 minutos, é a vez de Siriri receber um passe de Camarão, invadir a área e tomar uma rasteira de Miguel. À revolta do santista, Molinaro apenas sorri.

Aos 23 minutos o Palestra faz 2 a 1, desta vez um gol limpo, sem contestação. Oito minutos depois Omar é aterrado na área, mas o juiz novamente faz vistas grossas. Aí a revolta explode. Povo e polícia entram em choque. O jogo fica paralisado por 19 minutos. Quando recomeça, o Santos, aturdido, sofre o 3 a 1.

No desespero, porém, o segundo gol acontece. Tudo é possível nos últimos quatro minutos e meio… ou melhor, seria: Molinaro mal dá tempo para a saída do Palestra. Encerra a partida e corre para o vestiário, protegido pela polícia. Lá, fica uma hora e meia sitiado. Nenhum motorista quis leva-lo à estação de trem. Teve de ir a pé, escoltado pela cavalaria, escondido entre os cavalos, seguido por uma multidão.

Na Rua do Comércio, o povo avançou ameaçadoramente e os soldados tiveram de usar a violência para proteger o árbitro. Na estação, Molinaro embarcou sob uma chuva de pedras e gritos de ódio, e não viajou só. Praças da Força Pública, comandados por um tenente, escoltaram-se até Piaçaguera. Foram os 20 contos mais suados que um juiz de futebol já ganhou.

Você leu, caro leitor, que em 1926, mesmo punindo o árbitro Cayuba Reis por inverter o resultado de uma partida entre Santos e Portuguesa, a Apea não modificou o resultado da mesma, que continuou 2 a 1 para a Portuguesa. Pois bem, agora vejamos o que aconteceu em 22 de outubro de 1929, na partida com o Palestra, na Vila Belmiro (antes, um panorama do campeonato: o Santos liderava sem nenhum ponto perdido e só lhe faltavam três jogos: Palestra e Sílex, em casa, e Corinthians, em São Paulo).

Primeiro tempo: Santos 2, Palestra 2. No intervalo, o árbitro Francisco Guerra sente-se mal e não retorna para o segundo tempo. Não há árbitro oficial em disponibilidade. Então, em comum acordo os clubes convidam Urbano Caldeira para atuar – além de ser honesto de dar raiva, ele conhecia tão bem as regras que ministrava cursos de arbitragem. Jogo reiniciado, os times revezam-se no ataque, em uma grande partida que o Santos vence por 4 a 3.

Vence? Pois sim. A Apea resolve anular o segundo tempo e deixar como resultado definitivo o 2 a 2 do primeiro, o único que o árbitro designado pela entidade pôde apitar. Nem outra partida, nem prosseguimento da mesma, nada. Empate!? O que tirou o primeiro ponto do Santos no campeonato.

Excesso de disciplina

Mas os obstáculos que impediram o Santos de ser campeão ao menos uma vez entre 1927 e 1931, quando teve um ataque irresistível, além de um grande goleiro, não vieram apenas de fora. Neste período, mais propriamente de 1925 a 1931, o clube foi dirigido pelo médico Antonio Guilherme Gonçalves, um senhor muito zeloso com as questões da disciplina, que chegava a ser mais rigoroso com os jogadores santistas do que as entidades do esporte.

Como um pai rígido e irritantemente honesto, o dr. Gonçalves tinha o hábito de reservar aos jogadores mais famosos as penas mais rigorosas, o que acabava desfalcando o time justamente em seus compromissos mais importantes. A seguir, alguns exemplos da ranhetice do dr. Gonçalves.

Em um clássico com o Corinthians, na penúltima rodada do Campeonato Paulista de 1926, o atacante Siriri, nervoso com a atuação do árbitro e com a derrota (2 a 3), acabou desrespeitando o representante da Apea, o que foi o bastante para que o sr. Gonçalves, presidente do Santos, suspendesse o jogador por seis meses.

Em setembro de 1929 Bilu e Siriri, sem pedir permissão à diretoria, jogaram pela equipe do Sul-América em um festival da Laf – Liga de Amadores de Foot-ball, à qual o Santos não estava filiado. Ambos foram suspensos por seis meses. Araken escreveu uma carta à diretoria solidarizando-se com os companheiros e também foi suspenso, por três meses.

As penas dos três titulares absolutos só foram canceladas em novembro, depois que o Santos havia perdido para o Corinthians, em São Paulo, jogo no qual a vitória praticamente lhe daria o título, pois faria a última partida na Vila Belmiro contra o limitado Sílex – ao qual acabou goleando por 6 a 2.

Dos três suspensos, só Bilu continuou no clube. Siriri foi para o São Paulo e Araken, após passagem pelo Athlético Santista e Flamengo, também ingressou no São Paulo. Estava desfeito assim, pela própria diretoria do Santos, o mais temido ataque daqueles tempos: Siriri, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista.

Mas não era só com seus jogadores que a direção do Santos era intransigente. Também em relação à política do futebol ela adotava uma posição inflexível, que dificilmente melhorava a situação do time no campeonato. Como em 1930, por exemplo, quando perdeu dois pontos decisivos por não ter jogado no campo do Clube Atlético Santista.

Em reunião de diretoria, o Santos decidiu que o Athlético Santista, por ter-se colocado abertamente contra a Apea em discussão recente, não poderia ter seu campo oficializado pela entidade.

“Penso que no Santos mais vale uma atitude do que um campeonato”, disse o dr. Gonçalves, selando a reunião que fez o Santos abdicar de dois pontos perfeitamente possíveis, já que possuía uma equipe superior ao Athlético, a quem vencera no primeiro turno por 3 a 0.

Pela falta desses dois pontos o Santos foi para a última rodada, contra o Corinthians, na Vila Belmiro, justamente com dois pontos a menos do que o rival. Precisaria, então, vencer para provocar um jogo-desempate. Feitiço marcou primeiro, mas o Corinthians virou e ganhou por 5 a 2, comemorando o título na Vila Belmiro.

A mesma birra de não jogar contra no campo do Athlético o Santos repetiu em 1931 e desta vez perdeu a oportunidade de decidir o título no último jogo, contra o Juventus. Uma pena, pois o time fez uma campanha espetacular, com 19 vitórias, cinco empates e apenas uma derrota, para o extinto São Paulo da Floresta, em São Paulo, que acabou ficando com o título a apenas dois pontos do Santos.

Quem manda no campo

Mas o fato marcante, aquele que acabou convencendo o jornalista carioca Carlos Gonçalves de que o Santos só podia ser mesmo um “campeão da técnica e da disciplina”, foi a eliminação do artilheiro Feitiço e do goleiro Tuffy em novembro de 1927, após uma tumultuada decisão do Campeoanto Brasileiro entre as seleções Carioca e Paulista, em São Januário.

Faltavam 17 minutos para terminar a partida, empatada em 1 a 1, quando o árbitro Ari Amarante deu um pênalti para os cariocas, interpretando como mão na bola um toque de Bianco. Inconformados, os paulistas não queriam deixar que o pênalti fosse cobrado. Tuffy já tratara de mandar para as arquibancadas a bola que Amarante trouxera embaixo do braço e colocara na marca de cal. Feitiço e Amílcar peitavam o árbitro…

Nisso, o presidente da República, Washington Luís, enviou da tribuna de honra um ajudante de ordens que desceu ao campo com a incumbência de ordenar aos paulistas que deixassem cobrar o pênalti, para que a partida pudesse continuar.

“O excelentíssimo senhor presidente da República solicita aos paulistas que deixem a Seleção Carioca bater o pênalti”, teria dito o serviçal da presidência.

“Pois diga ao excelentíssimo senhor presidente que ele manda no Palácio do Catete, mas quem manda aqui no campo somos nós”, foi a resposta de Feitiço.

O estupefato ajudante de ordens voltou à tribuna de honra e repetiu as mesmas palavras do atacante, fazendo com que um surpreso e contrariado mandatário máximo da nação procurasse a porta da saída no mesmo instante.

Mas nisto, outro presidente entrava em campo: o do Santos, o dr. Antonio Guilherme Gonçalves, que comandava a delegação paulista. Naquele tempo, diante de um impasse como aquele, dirigentes podiam adentrar o gramado para tentar resolver a questão, e foi o que o dr. Gonçalves fez. Porém, por mais que se esforçasse para impor sua autoridade, chegando a trocar ofensas com Tuffy e Feitiço, a Seleção de São Paulo continuou irredutível em não deixar cobrar o pênalti.

Quanto o delegado de polícia, Olinto Cobra, temendo uma invasão de campo de conseqüências trágicas, deu um ultimato para que os paulistas deixassem os cariocas cobrar a penalidade, a Seleção de São Paulo decidiu abandonar a partida. Só permaneceram em campo Heitor, Bianco e Evangelista, para ver Fortes empurrar, com cuidado, a bola para o gol vazio.

Ainda no vestiário o dr. Gonçalves disse aos jornalistas que “dois cafajestes do meu clube já estão eliminados: Tuffy e Feitiço”. Ora, o homem falou de cabeça quente. Se a punição fosse confirmada, aquilo representaria uma perda tremenda para o Santos, que estava prestes a conquistar seu primeiro título paulista, o de 1927(cujas últimas rodadas foram jogadas no primeiro trimestre de 1928).

Diante da gravidade da situação, vários sócios do Santos solicitaram uma assembléia geral, em Vila Belmiro, para tratar do assunto. Mais de 700 pessoas compareceram, na noite de 22 de novembro, ao debate que colocaria, cara a cara, o craque Feitiço e o dirigente ofendido. Tratado na assembléia como Luiz matoso, seu nome de batismo, o artilheiro tratou de se defender:

“Reconheço ter procedido mal no Rio. Mas agi assim porque o juiz já deixara de punir duas faltas máximas contra o Rio de Janeiro e resolveu dar um penal que só ele viu. Foi aí que todos nós, jogadores, nos revoltamos”.

O bate-boca continuou, até que em certa altura o senhor Gonçalves deixou claro que não tinha a menor intenção de perdoar o artilheiro santista: “Sr. Luiz Matoso, a sua saída deste clube é uma felicidade que eu procurava há muito tempo”, esbravejou.

Quando o resultado da votação foi anunciado, ás duas e meia da madrugada, não causou surpresa a ninguém: por 318 votos a 14, Luis Matoso e Tuffy Neugen estavam eliminados do Santos Futebol Clube.

Sem Feitiço, que só voltaria ao Santos em julho de 1928, o time perderia dois de seus últimos cinco jogos – ele que não perdera um ponto sequer nas 11 partidas anteriores – e deixaria escapar a maior oportunidade que já tivera de obter um título importante. Quanto a Tuffy, que foi deixar o nome na história do Corinthians, a perda até que não chegou a ser tão significativa, pois do segundo quadro surgiu um goleiro ainda melhor, Athiè Jorge Cury, que quase duas décadas depois se tornaria presidente do clube.

Assim, as tramóias extra-campo de outros clubes da Capital, a administração tendenciosa da Apea e a própria intransigência da diretoria santista explicam porque aquele time, que por seis anos esteve entre os melhores de São Paulo, jamais chegou ao título estadual.

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