Isto é Pelé – filme completo

Os ingleses falam sobre Pelé neste filme da BBC:

Um documentário muito bom e raro sobre o Rei:

Lindo documentário mexicano sobre Pelé:


Pelé e a Jules Rimet, que ele ajudou a ganhar marcando gols nas três Copas: de 1958, 1962 e 1950.

Santos e Pelé. Nada é por acaso

O que dizer mais sobre Pelé, que nasceu em uma casa simples na pequena Três Corações, em Minas Gerais? Que nasceu com o nome sonoro de Edson Arantes do Nascimento, filho de Celeste e do desafortunado João Ramos, o Dondinho, que estourou o joelho justamente no seu grande dia, o dia de estrear no amado Atlético Mineiro?

Acompanhei e pesquisei tanto tudo o que já se escreveu e se falou sobre Pelé, que acho que não é preciso dizer mais nada sobre ele. Apenas reafirmar que tudo o que dizem, mesmo parecendo lenda, é mesmo verdade. Pelé fez a realidade parecer fantasia. Quem o viu jogar, não apenas viu, mas sentiu isso. Pelé pegava na bola no meio de campo e o estádio todo ficava em pé. Ninguém sabia o que poderia acontecer em uma jogada de Pelé. Só ele mesmo.

Se tivesse que emprestar algumas frases que definiram o Rei do Futebol, eu recorreria ao grande jornalista Thomaz Mazzoni, ao líder Zito, ao clássico Nilton Santos e a Coutinho, o homem que melhor entendeu Pelé dentro do campo e com quem fez a mais famosa tabelinha do futebol:

“Pelé é a síntese de todos os craques que o futebol brasileiro já teve” (Thomaz Mazzoni).

“Não há perfeição, mas quem chegou mais perto dela foi o Pelé” (Zito).

“Antes de receber a bola, um craque imagina o que vai fazer na próxima jogada. Na cabeça do Pelé passa um longa metragem” (Nilton Santos).

“Ele decidia o jogo na hora que queria e do jeito que queria” (Coutinho).

Bem, há frases e mais frases, feitos e mais feitos inacreditáveis de Pelé. O que mais posso dizer? Bem, que Pelé não é só uma benção do destino, uma dádiva dos céus, mas que é, sim, resultado de muito trabalho.

Sei que ao dizer isso tiro o glamour de uma história propícia aos místicos e acomodados. Mas é a pura verdade. Como todo adolescente, Pelé se revoltava contra o pai, que o obrigava a passar horas chutando bola na parede com o pé esquerdo. O menino chegava a chorar, dizem. Dondinho também lhe levava a um campinho de várzea para lhe ensinar os segredos de uma boa matada (inflando os pulmões antes da bola chegar, murchando depois); de uma cabeçada certeira (com os olhos abertos) e do chute, que é determinado pelo pé de apoio.

Afirmo isso, mas sei que Dondinho, humilde e elegantemente, contestou que tenha ensinado tanta coisa ao filho. No livro “Jogando com Pelé”, publicado em 1974, Dondinho disse:

“Lógico que dei uma série de conselhos a ele, mas nunca tive a pretensão de ser seu professor. Das poucas coisas que procurei aconselhar foi que aprendesse a chutar com os dois pés. Pelé só batia na bola com o pé direito. Eu brincava com ele: ‘Você precisa bater com o pé esquerdo. Seu pai bate com os dois. Você precisa treinar na parede.’ Ele passou a fazer isso. Ia para a parede e ficava experimentando com o pé direito e depois com o esquerdo. Hoje parece que chuta melhor com o esquerdo do que com o direito. Mas vou dizer uma verdade: se ele herdou alguma coisa, futebolisticamente falando, foi muito mais do meu irmão mais velho do que de mim. Ele se chamava Francisco, seu apelido era Chico do Jonas, e morreu aos 25 anos de idade. Era muito rápido, habilidoso, jogava em qualquer posição. Com seu nome de guerra, “Lambari”, brilhou nos anos de 1925 a 28 pelos campos de Mococa, Casa Branca e Sul de Minas, onde até hoje é lembrado”.

Dondinho era um homem modesto. Na verdade, o próprio Pelé disse depois que foi o pai quem lhe ensinou a cabecear com os olhos abertos e, sempre que tivesse oportunidade, penetrar e chutar a gol, moldando assim o estilo objetivo de arrancadas e dribles em linha reta que sempre caracterizou o 10 do Santos. Mas é verdade, também, que o pai, que parou de jogar definitivamente em 1954, quando Pelé tinha 14 anos, nunca havia imaginado que o garoto pudesse fazer tudo tão bem. “Sabíamos que ele tinha jeito, mas não tanto assim!”, admitiu Dondinho depois que o filho cumpriu uma promessa de infância e foi decisivo na conquista da Copa do Mundo de 1958, na Suécia (Pelé conta que viu o pai chorando ao lado do rádio, depois da final do Mundial de 1950, no Maracanã, e prometeu que um dia ganharia a Copa do Mundo pra ele).

Além de Dondinho, Pelé teve como mentor outro craque, Valdemar de Brito, ex-jogador do São Paulo e da Seleção Brasileira, técnico do Baquinho, em Bauru, para onde a família de Pelé se mudou devido a um emprego público conseguido pelo pai (Baquinho era o infantil do BAC, o Bauru Atlético Clube).

Valdemar de Brito logo percebeu que tinha uma jóia nas mãos e passou a se preocupar com o futuro de Pelé. Valdemar e Dondinho tinham jogado muito bem, mas não tiveram sorte e não queriam que o menino passasse pelo mesmo sofrimento. Então, como se fizessem um pacto, proibiram Pelé de fumar, beber e fazer firulas. Valdemar pedia-lhe para ser simples, objetivo: “Futebol é bola no barbante”, dizia o velho artilheiro para o garoto, e para o pai, profetizava: “Se não acertarem o Pelé, Dondinho, ele será o melhor jogador do mundo”.

Valdemar se preocupava com a chamada “máscara”, que ele vira acabar com carreiras ainda no nascedouro. Por isso, recomendou ao garoto não ler os jornais da cidade quando percebeu que o Diário de Bauru dava muito espaço a ele. Naquele tempo o futebol não estava coalhado de empresários e Valdemar não tinha intenção de ficar rico como procurador de Pelé. Mas queria, sim, como inspetor do trabalho em Bauru, uma remoção para Santos, onde pretendia viver em paz os últimos anos de sua vida. Procurou o deputado estadual Athiê Jorge Cury, também presidente do Santos, e lhe fez o pedido. Ao ouvir de Athiê uma resposta positiva, o velho artilheiro ficou tão feliz que prometeu: “Pois então o senhor fez o maior negócio de sua vida. Vou lhe trazer, e dado, o maior jogador do o maior jogador do mundo”.

Mas Athiè, que foi um dos melhores goleiros da história do Santos e, como presidente, o mais ousado e bem-sucedido, não conseguiu a remoção logo de cara. Na primeira tentativa o instável governador de São Paulo, Jânio Quadros, rasgou o pedido na sua frente. Na segunda Jânio o assinou calmamente.

A esta altura a vida da família Nascimento estava mais estabilizada. Dondinho ganhava o suficiente com o trabalho no posto de saúde. Pelé jogava no Noroestinho e no futebol de salão do Radium, ganhando algum dinheiro por fora para suas exibições. Dona Celeste, escaldada pela carreira do marido, não queria que o filho, que ela chamava de “Dico”, se tornasse jogador, e só permitiu que ele fosse treinar no Santos porque era o seu Valdemar de Brito que iria cuidar dele.

A Vila e Pelé se encontram

Num dia de jogo na Vila Belmiro pelo Campeonato Paulista de 1956, Valdemar e Dondinho chegaram com Pelé, que aos 15 anos vestia calças compridas pela primeira vez e nunca tinha visto uma cidade e um estádio tão grandes. O garoto, que estava ansioso para conhecer Zito, foi ao vestiário ao fim do jogo e conheceu todos os cobras do Santos. O técnico Lula, que havia sido alertado por Valdemar de Brito para as habilidades do garoto, perguntou, sorridente: “Então você é o tal Pelé, hein?! Já estávamos esperando por você. Fique à vontade!”. Dondinho pediu para os jogadores tomarem conta do filho, e Vasconcelos, titular da camisa 10 que um dia seria consagrado pelo garoto pequeno e tímido que chegava, agarrou Pelé pelo pescoço e respondeu:
“Pode deixar!”.

Naquela noite Pelé dormiu na concentração, onde viviam Dorval, Vasconcelos, Cássio, Raimundinho e Hugo. As refeições eram na casa da dona Antônia. No dia seguinte Pelé foi testado entre os titulares, como meia-armador, no lugar de Jair da Rosa Pinto, que era poupado dos treinamentos pela idade. O menino estava muito nervoso, mas Lula viu qualidades nele e disse para Modesto Roma que o Santos ficaria com ele. Ao final do treino, enquanto tirava a chuteira, Pelé ficou sabendo por Pepe que Urubatão disse que ele ainda daria o que falar, que tinha pinta de craque. Vasconcelos, Pepe, Urubatão, Zito, Dorval, Jair, todos o cumprimentaram com palavras de incentivo. Pelé ficou aliviado. Em Bauru haviam lhe enchido a cabeça, dizendo prevenido de que os cobras do Santos não lhe dariam vez. “Fiquei feliz da vida, pois senti, realmente, que estava entre amigos”.

Mas dona Celeste não estava convencida de que aquela seria a melhor vida para o filho. Na primeira visita de Pelé a Bauru, não queria que ele voltasse a Santos. Valdemar de Brito até chorou para conseguir a liberação do craque. “Não sei se ele estava emocionado mesmo, ou se tinha bebido”, diria Pelé mais tarde sobre o episódio que o garantiu no Santos. Ainda muito jovem e com um titular da meia-esquerda respeitado como Vasconcelos, Pelé passou a ser utilizado no time de aspirantes e logo assinou seu primeiro “contrato de gaveta”: 6 mil cruzeiros por mês, com direito a casa, comida, preparo físico e técnico.

O garoto se empenhava tanto nos treinos, correndo de um lado para o outro, que o zagueiro Wilson, ex-Vasco e Seleção Brasileira, colocou nele o apelido de “Gasolina”. Solícito, Pelé não se importava de ir comprar cigarro para os companheiros nos bares que cercam a Vila Belmiro. Ainda sem físico para o time profissional, atuava entre os amadores e depois ia para trás do alambrado para ver o time de cima.

E foi em um desses dias, uma tarde de domingo, 9 de dezembro de 1956, que Pelé viu o amigo e protetor Vasconcelos quebrar a perna em uma jogada com o zagueiro Mauro Ramos de Oliveira, do São Paulo, jogo que o Santos perdeu por 3 a 1, pelo segundo turno do Campeonato Paulista daquele ano. Vasconcelos tinha tocado para Pepe e recebido na frente. No momento do chute foi calçado por Mauro, que depois, casualmente, caiu sobre a sua perna.

Vasconcelos saiu de campo de maca, enquanto os torcedores gritavam que não fizesse cera, pois o time estava perdendo. Só ao final da partida Pelé ficou sabendo que o “Vasco” tinha quebrado a perna. Depois de vários dias no hospital, Vasconcelos apareceu na Vila Belmiro com a perna engessada, de muletas. Pelé diria mais tarde que foi ali que percebeu o que era a vida de um jogador de futebol. Vasconcelos retornou aos treinos meses depois, mas nunca mais foi o mesmo. E mesmo que jogasse como antes, não mais tiraria a camisa 10 de Pelé. Depois de passagens pelo São Paulo e Palmeiras, Vascondelos, que nunca escondeu seu gosto pelas noitadas, morreu em 1976, aos 46 anos. Pelé seguiu para se tornar o maior jogador da história.

Quem teve mais sorte?

Nada é por acaso. Se o Santos foi abençoado com a presença de Pelé, também não se pode negar que jogar naquele Santos era a melhor coisa que poderia acontecer a um atacante jovem e habilidoso, que precisasse de companheiros à altura não só no aspecto técnico, mas que tivessem experiência, personalidade e boa vontade para lhe prevenir e defender contra os percalços da profissão. Além disso, era imprescindível que se tratasse de um time de mentalidade ofensiva, que favorecesse seu estilo de jogo. E o Santos tinha tudo isso para lhe dar, além de ser o clube de futebol que pagava os melhores salários do País.

Se não desse certo no Santos, sua primeira e principal alternativa, certamente Pelé poderia ter jogado no Corinthians, no Vasco, ou Palmeiras, mas não seria a mesma coisa. O Santos era bicampeão paulista, melhor time do Estado e, provavelmente, do País, quando o recebeu, de braços abertos. A cidade, menor, tranqüila, com belas praias, um verdadeiro paraíso para um garoto que vinha de uma vida carente no Interior, dava aos jogadores do Santos a paz que não teriam nos grandes centros.

Pelé encontrou na Vila Belmiro craques como Zito, Pepe, Del Vecchio, Vasconcelos, Formiga, Urubatão, Álvaro, Tite, Hélvio, Jair da Rosa Pinto, Ramiro… Enfim, foi recebido e amparado por uma confraria de mestres como poucas vezes se viu no futebol, hoje muito menos.

Mesmo quando passou a ser convocado para a Seleção Brasileira, Pelé não perdeu a segurança de jogar ao lado de seus amigos do Santos, pois os santistas já começavam a ser a base do Escrete. Em sua estréia na Seleção, em 7 de julho de 1957 (em que fez o único gol do time, na derrota de 2 a 1 para a Argentina, no Maracanã), Pelé substituiu Del Vecchio e formou a ala esquerda do ataque com Tite, ambos santistas. No segundo jogo, três dias depois, contra os mesmos argentinos e no mesmo Maracanã, jogou ao lado de Del Vecchio e Pepe e fez um dos gols na vitória brasileira por 2 a 0.

Então, a sorte do Rei do Futebol e do Santos foi recíproca. Por mais que tenha batido todos os recordes de títulos e gols, por mais que até hoje suas jogadas causem espanto e reverência, Pelé praticou um esporte cujas equipes tem 11 jogadores e é impossível a apenas um resolver tudo. Ele foi o ator principal do espetáculo, mas teve quase uma dezena de coadjuvantes que também mereceriam o Oscar.

Por duas vezes a Seleção jogou com oito titulares do Santos e nos seis jogos das Eliminatórias para a Copa de 70 as “Feras do Saldanha” tiveram seis titulares santistas. Ou seja, além da mais saborosa cereja de bolo, o Santos tinha o melhor bolo.

A história comprova que craques, mesmo os maiores, não conseguem transformar times medianos em esquadrões. Miremos exemplos próximos, de Rivellino e a quem ele inspirou, Maradona. Não há qualquer ressalva quanto à qualidade excepcional destes dois jogadores. Um, atuou mais de uma década no Corinthians, outro passou boa parte de sua carreira em equipes como Argentinos Juniors e Napoli.

Pois bem: Rivellino não ganhou nenhum título no Corinthians, e Maradona ganhou uma Copa Uefa pelo Napoli. Enquanto Pelé, bem Pelé e o Santos foram duas vezes campeões do mundo e da Libertadores, uma da Recopa Mundial e uma da Recopa Sul-americana, seis vezes campeões brasileiros e 10 vezes campeões paulistas. O Santos cedeu mais de 60% dos jogadores da Seleção Brasileira de 1958 a 62. Ao contrário de Corinhtians e Argentinos Juniors, a verdade é que o Santos tinha um elenco maravilhoso.

Quando se fala de Pelé, é obrigatório falar do Santos. É impossível amputar Pelé do clube que o projetou. Um está ligado ao outro. Um não seria o que foi sem o outro. Pelé fez gols que são verdadeiras jóias de arte individual, gols em que participou da jogada do começo ao fim. Porém, por mais que esses gols nos impressionem, não são a maioria dos insuperáveis 1.281 gols que marcou na carreira, dos quais 1.091 apenas e exclusivamente com a camisa do Santos.

Na maior parte de seus gols recebeu um passe, como se dizia, “açucarado”, ou pegou o rebote do goleiro em um forte chute de Pepe, ou completou uma jogada feita por Pagão, Coutinho ou outro companheiro (como no primeiro gol de Pelé que vi em um estádio, numa vitória de 2 a 0 sobre o Cruzeiro, no Morumbi, em que só teve o trabalho de chutar as bola para as redes após jogada fantástica do centroavante Douglas). Pelé, enfim, não teria o sucesso que teve não tivesse ao seu lado os jogadores que teve no Santos.

A cada ano que Pelé vive dá mais tempo para as pessoas compreenderem melhor a importância que ele e o Santos tiveram para a história do futebol. Pena que um dia o Rei, como qualquer mortal, também morrerá. Mas nosso consolo é que o seu time, o time que defendeu por toda a vida e pelo qual fez mais de mil gols, estará em campo, eternamente.

Pelé
Edson Arantes do Nascimento
Meia-esquerda
Data e local de nascimento: 23/10/1940, em Três Corações/MG
Altura: 1,74m
Peso: 70 quilos
Chuteira nº: 39
Clubes que defendeu: Santos (de 1956 a 74) e Cosmos/NY (1975 a 77).
Jogos pela Seleção Brasileira: 114 (93 oficiais e 22 não oficiais).
Jogos na carreira: 1.367.
Gols marcados na carreira: 1.281, dos quais 1.091 pelo Santos e 95 pela Seleção Brasileira.
Títulos mais importantes: Tricampeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958/62/70, bicampeão mundial Interclubes e da Taça Libertadores da América em 1962/63, pentacampeão brasileiro em 1961/62/63/64/65, decacampeão paulista em 1958/60/61/62/64/65/67/68/69/73, campeão do Torneio Rio-São Paulo em 1959/63/64/66, campeão da Recopa Sul-Americana e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa em 1968, campeão da Recopa Mundial em 1969.