Machado e Pelé, um duelo que o Rei ganhou.

Era um sábado. Eu me lembro bem, pois estava na primeira série do ginásio e à tarde tinha aula no Colégio Padre Francisco João de Azevedo, na Cidade Dutra. Santos e Botafogo de Ribeirão Preto jogavam na Vila Belmiro e eu ouvia a partida pelo rádio, com muito interesse.

No meio da semana o Santos tinha sido goleado pelo Guarani, em Campinas, por 5 a 1. O time chegou a Campinas exausto de jogos no exterior e em cima da hora para enfrentar o perigoso Guarani, cujo técnico, cujo nome não me recordo, afirmou antes da partida que estava otimista de que  venceria o Santos. E venceu mesmo!

O Santos tinha uma particularidade: quando estava “mordido”, entrava em campo para arrebentar. E a derrota vexatória no meio da semana deixou o time fulo da vida. Mesmo nos meus 12 anos, eu já pressentia que algo espetacular poderia acontecer naquele sábado.

O Botafogo não era um time ruim, longe disso, tanto que no primeiro turno vencera o Santos, em Ribeirão, por 2 a 0, mas seria difícil segurar Pelé & Cia loucos para apagar a má imagem da derrota em Campinas.

Está certo que no jogo do primeiro turno Pelé não jogou, substituído por Rossi. Mas a verdade é que o Botafogo era um dos melhores do Interior, dirigido pelo conceituado técnico Oswaldo Brandão e com um goleiro que impunha respeito, o Machado.

7 a 0 no primeiro tempo!

Bem, a história desta partida tão distante hoje é bem conhecida. Mas imagine, leitor e leitora, a alegria de um menino que ao final do primeiro tempo já ouvia o seu time ganhar por 7 a 0! E em 1964 eu já começava a ser um pouquinho mais fanático, a ponto de anotar em um caderno todos os jogos do Santos.

No intervalo fui ao colégio e lá não se falava em outra coisa. Os colegas que torciam para outros clubes (nunca entendi o masoquismo deles, mas gosto não se discute) apostavam que o Botafogo não voltaria para o segundo tempo. Seria uma vergonha tomar de dez, eles argumentavam, preocupados com a marca histórica que o Santos teria.

Mas o Botafogo, que por sinal não deu pontapés e jogou limpamente, não só voltou para a segunda etapa, como sofreu mais quatro gols e saiu da Vila Belmiro com a derrota inesquecível por 11 a 0.

O curioso é que o goleiro Machado, apesar de sofrer 11 gols, foi considerado um dos melhores jogadores em campo. Outra curiosidade é que o técnico Oswaldo Brandão em seguida foi contratado pelo Corinthians e duas semanas depois voltou a enfrentar o Santos, no Pacaembu. Como o Santos goleou o Corinthians por 7 a 4, alguns jogadores santistas passaram a chamar Brandão de “Dezoito”.

Para completar a história, o Santos foi campeão paulista em 1964, assim como já tinha sido em 1960, 61 e 62 e assim como seria em 1965, 67, 68 e 69. Enfim, uma década totalmente santista, dominada pelo futebol artístico, ofensivo, repleto de jogadas bonitas e gols, muitos gols.

Santos 11, Botafogo 0

Primeiro tempo: Santos 7, Botafogo 0

Vila Belmiro, 21/11/1964, sábado à tarde

Santos: Gylmar; Carlos Alberto, Modesto, Haroldo, Geraldino; Lima e Mengálvio; Toninho Guerreiro, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Botafogo/RP: Machado; Ditinho, Hélio Vieira, Tiri e Carlucci; Berguinho e Adalberto; Zuíno, Alex, Antoninho e Gaze. Técnico: Oswaldo Brandão.

Gols: Pelé (8), Pepe, Coutinho e Toninho Guerreiro.

O jogaço de hoje, às 11 horas, pelo Sportv

Novamente como um dos melhores times do Interior de São Paulo, e com chances reais de se classificar para as semifinais, o Botafogo recebe o Santos hoje às 21 horas em Ribeirão Preto (com transmissão do Sportv), no jogo que tem tudo para ser o mais interessante da rodada.

Ontem, Corinthians, São Paulo e Palmeiras fracassaram, mesmo enfrentando adversários que lutam contra o rebaixamento. Hoje o Santos ainda não terá Robinho, contundido, e Neymar, suspenso, mas poderá contar com o mesmo meio-campo e ataque que obteve a maior goleada do Campeonato Paulista nos últimos 46 anos ao bater o Ituano, domingo, por 9 a 1.

Dorival Junior deverá escalar o líder do campeonato com Felipe; George Lucas (ou Roberto Brum), Edu Dracena, Durval e Pará; Rodrigo Mancha, Arouca, Marquinhos e Paulo Henrique; Madson e André.

O técnico José Galli Neto provavelmente colocará o Botafogo em campo com Wéverton; Jonas, Cleiton, Leandro Amaro e Andrezinho; Augusto Recife, Rodrigo Pontes, Ademir Sopa e João Henrique; William e Adriano (ou Ricardinho).

Aposte no Bolão

Um exemplar do livro “O barqueiro de Paraty” será o prêmio do vencedor do Bolão de Botafogo e Santos. Vá à caixa de comentários e diga quanto acha que será o jogo, a parcial do primeiro tempo e os autores dos gols do Santos. Boa sorte!