É interessante essa moda de se lançar filmes sobre clubes de futebol. Já tivemos alguns muito bem produzidos sobre o Corinthians, como o “23 anos em sete segundos”, teremos em 2011 um sobre o Santos, e sexta-feira, justo no dia do meu aniversário, será lançado “Soberano – seis vezes São Paulo”, que conta a história dos seis títulos brasileiros conquistados pelo tricolor.

Nem preciso dizer que gosto e respeito a história do São Paulo. Tenho amigos e parentes são-paulinos e certamente conheço mais a história do clube do que eles. Porém, este filme em particular me decepciona em um quesito que considero muito importante: a verdade histórica.

“Soberano” é o tipo de filme feito para atender os interesses do clube. Ele distorce as informações para que se tornem mais favoráveis ao São Paulo e carrega nas tintas para se tornar mais atraente, o que pode torná-lo agradável para seu público, mas diminui sensivelmente o seu valor como documento.

São Paulo não é o maior campeão brasileiro

Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo, tinha 24 anos quando a primeira Taça Brasil foi disputada, em 1959. É de se imaginar que já acompanhasse o futebol. E se acompanhava, e se leu algum jornal, ouviu alguma emissora de rádio, assistiu tevê ou foi ao cinema – onde se passava o Canal 100 –, sabe que a Taça Brasil, que perdurou até 1969, foi criada pela CBD para dar ao vencedor o título de campeão brasileiro e o direito de representar o Brasil na Copa dos Campeões da América, hoje conhecida como Copa Libertadores da América.

A partir de 1967 a competição nacional mais importante passou a ser o Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata, que mesmo disputado por apenas quatro anos – 1967 a 1970 – é até hoje a que teve o melhor índice técnico e a melhor média de público dentre todos os campeonatos já realizados para se apurar o campeão brasileiro.

Como se sabe, de 1958 a 1970 viveu-se a era de ouro do futebol brasileiro, com a conquista de três Copas do Mundo – 1958/62/70 –, ou seja, 2/3 dos mundiais que o país conseguiu em toda a sua história. Era uma época tão encantada que todos os jogadores da Seleção Brasileira, titulares e reservas, jogavam no Brasil. Dentre eles Pelé, Garrincha, Tostão, Gérson, Rivelino, Zito, Gylmar, Jairzinho, Clodoaldo, Paulo César Caju, Vavá, DirceuLopes, Ademir da Guia…

Pois bem. Nesta fase, repito, de ouro do nosso futebol, o São Paulo, que construía o Morumbi, não tinha um time tão competitivo e por isso não ganhou nada. Nem um estadual, nem um Rio-São Paulo, nada. É claro que um são-paulino gostaria que esses anos fossem apagados da história do futebol…

Pois o filme faz justamente isso. Apaga da história a fase de ouro do futebol brasileiro e, neste caso coloca Juvenal Juvêncio de braços dados com a rival CBF de Ricardo Teixeira, pois assim como o omisso dirigente da Confederação, aceita a versão anticonstitucional de que o Brasil tem campeões nacionais apenas a partir de 1971.

Aviso aos navegantes que tanto a Taça Brasil como o Torneio Roberto Gomes Pedrosa eram oficiais, chancelados pela CBD, a entidade da qual a CBF herdou os títulos da Seleção e, obrigatoriamente, herdou também as competições internas oficiais organizadas por sua antecessora. Além da cobertura da imprensa e de documentos da CBD, tenho a palavra de João Havelange, falada e escrita, para comprovar a oficialidade dos títulos brasileiros de clubes conquistados naquele período.

Carta que recebi de João Havelange em que ele confirma a oficialização dos títulos da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, competições criadas por ele quando presidia a CBD, e em que pede a unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959.

Boletim oficial da CBD que trata o Fluminense como campeão do Brasil em 1970

Capa de A Gazeta Esportiva, o jornal de esportes mais lido do País na época, anunciando o tetracampeonato do Santos em 1964. Depois viriam mais quatro títulos brasileiros (1965/1968/2002/2004) e a Copa do Brasil deste ano.

Já discorri exaustivamente sobre o caso e expus provas e evidências mais do que suficientes para que não houvesse quaisquer dúvidas sobre o assunto. Credito às “dúvidas” apenas à paixão de alguns por clubes que nada conquistaram entre 1959 e 1970. Historiadores e cineastas deveriam ser mais criteriosos ao lidar com algo tão sério que é a história do futebol brasileiro.

Para se apurar os maiores campeões brasileiros, é preciso recorrer a um ranking publicado na revista internacional FourFourTwo e elaborado pelo jornalista e pesquisador Celso Unzelte. Nele, o Santos tem oito títulos de primeira linha; o Palmeiras, sete; Flamengo e São Paulo, seis, mas o time carioca ganha a terceira posição no desempate por ter mais duas Copas do Brasil.

De qualquer forma, o filme deve ser uma boa diversão para os são-paulinos e, de alguma forma, servirá para consolidar a paixão dos torcedores pelo clube. A iniciativa é válida e merece os parabéns. Pena que é mais uma peça de marketing do que uma obra de arte, e representa menos ainda como documento histórico, pois amputa justamente a fase mais criativa do futebol brasileiro.

E você, acha que esses filmes de clubes devem mesmo ser instrumentos de marketing e falar só o que o torcedor quer ouvir, ou deveriam obedecer a um maior rigor histórico?