Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Tag: 1962

Hoje faz 47 anos que o maior jogo do mundo foi realizado

Quase perdi o maior jogo já disputado no Brasil. Como estudava pela manhã, estava dormindo quando meu pai me chamou: “Não vai ser seu time?!”. Estranho o seu Moacyr, que não ligava pra futebol (e talvez por isso se dissesse são-paulino), me despertar para assistir a uma partida do Santos. Acordei, sonolento, e fui para o sofá da sala. A imagem, linda, mesmo em branco e preto, vinha do Maracanã. Já batiam bola o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, que naquela partida, em 2 de abril de 1963, decidiriam a Taça Brasil, válida pelo título brasileiro de 1962.

Era o único acordado em casa e parecia ser o único vivo no mundo. O silencia chegava cedo naqueles lados ainda ermos da Cidade Dutra. Só a voz do locutor e a luz azulada da tevê povoavam a sala. Havia algo de mágico naquilo tudo e hoje eu sei que não era só uma impressão. Eu estava prestes a apreciar jogadores inigualáveis de uma geração iluminada, como se jogassem só pra mim..

Imagine, em uma mesma partida, os bicampeões mundiais Garrincha, Pelé, Nilton Santos, Zito, Zagallo, Gylmar, Mauro, Amarildo, todos titulares na Copa do Chile, além dos reservas Mengálvio, Coutinho e Pepe. Lá ainda estavam jogadores que seriam titulares na Copa seguinte, a de 1966, casos de Manga, Rildo e Lima. Para completar, outros craques notáveis que só não se firmaram na Seleção pelo excesso de concorrentes naqueles tempos de ouro do nosso futebol, casos de Quarentinha, Calvet e Dorval.

Anos depois, a pedido do amigo Roberto Avallone, fiz uma musiquinha falando daquela noite e só me lembro dos versos: “A bola era branca, branca como o Santos, e o Santos e a bola se davam tão bem… Me fazia acordar na noite para ve-lo jogar. Me fazia acordar na noite para continuar a sonhar”.

Sim, foi como um sonho, pois naquele jogo que nunca mais se repetirá, entre duas equipes que reuniam quase 80% dos titulares da Seleção Brasileira bicampeã do mundo, o Santos realizou uma das partidas mais deslumbrantes de sua história, e ganhou por esplêndidos 5 a 0.

No primeiro tempo os gols foram de Dorval aos 24 e Pepe aos 39 minutos. Na segunda etapa, Coutinho aos 9 e Pelé aos 30 e 35 minutos completaram o marcador. Sem ter outra forma de reagir, e mostrando uma elegância que só era possível durante o curto reinado do futebol-arte, o público de 70.324 pagantes aplaudiu os santistas.

A imprensa carioca se rendeu àquele que, com aquela vitória incontestável, confirmava sua condição de campeão mundial. O jornalista Ney Bianchi, que viria a se tornar o único a conquistar três vezes o Prêmio Esso de Informação Esportiva, batizou aquele confronto de “O maior jogo do mundo” e o definiu assim na matéria de capa da revista Fatos& Fotos, uma das mais lidas do País:

O Maracanã ainda não tinha visto tamanha exibição de futebol-arte até quando, terça-feira, o Santos provou ser o maior time do mundo, aniquilando, por 5×0, o Botafogo, com Pelé abusando da condição de gênio. Houve de tudo. Principalmente: 1. O Botafogo, glorioso dias antes, passando ao papel de vítima; 2. A estratégia de Lula anulando a de Marinho, que retirou Zagallo, afastou Nilton Santos da área e abandonou Garrincha; 3. cada um dos gols sendo uma obra-prima; 4. Manga devorando um “frango” servido por Pepe; 5. A torcida (caso único na América do Sul) esquecendo a partida para aplaudir o melhor; 6. O Botafogo, que costuma ferir com “olé”, com “olé” sendo ferido. É preciso repetir que jamais o Maracanã viu espetáculo igual. Foi tão perfeita a exibição que, ao terminar, a partida pareceu a todos a mais curta da história do futebol.

Decisão da Taça Brasil de 1962

02/04/1963

Botafogo 0, Santos 5, Maracanã, Rio de Janeiro

Botafogo: Manga, Rildo (Joel), Zé Maria, Nilton Santos (Jadir) e Ivan; Ayrton e Édison; Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Técnico: Marinho Rodrigues.

Santos: Gilmar, Lima, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio; Dorval, Coutinho (Tite), Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Gols: Dorval aos 24 e Pepe aos 39 minutos do primeiro tempo; Coutinho aos 9, Pelé aos 30 e aos 35 minutos do segundo tempo.

Árbitro: Eunápio de Queiroz.

Público: 70.324.

Como campeão da Taça Brasil, o Santos se classificou para a Taça Libertadores da América de 1963. Porém, como foi campeão da Libertadores em 1962 e com isso garantiu vaga na edição seguinte, o Botafogo, vice-campeão da Taça Brasil de 1962, ganhou o direito de ser o segundo representante brasileiro na Libertadores de 1963 (que também seria vencida pelo santos, depois de derrotar o Botafogo, na semifinal, novamente no Maracanã, por 4 as 0).

Neste post trago as imagens históricas da cobertura deste jogo pela concorrida revista Fatos & Fotos. O consagrado jornalista Ney Bianchi atuava na imprensa carioca. Portanto, não tinha qualquer interesse em enaltecer uma equipe de São Paulo. Seu texto está livre do bairrismo e do passionalismo que tanto turvam as opiniões dos cronistas de hoje.

E você, querido leitor e leitora, acha que ainda veremos um jogo como este Botafogo e Santos, decidindo a Taça Brasil de 1962, ou aqueles tempos nunca mais voltarão?


FourFourTwo prova que Brasil trapaceou para vencer a Copa do Chile

Olten (foto) conta como foi o suborno ao bandeirinha

Em um ano de Copa do Mundo, o que pode ser mais relevante no jornalismo esportivo do que esclarecer pontos obscuros e polêmicos na história de uma Copa, principalmente se esta foi vencida pelo Brasil? Na verdade, nos acostumamos a protestar eternamente pelos prováveis erros contra a Seleção, mas fazemos vistas grossas aos episódios em que o Brasil foi favorecido. Isso sempre aconteceu com o Mundial de 1962, por exemplo, vencido pela Seleção Brasileira em circunstâncias suspeitas.

Ao longo do tempo foram difundidos boatos, sem que nada ficasse comprovado. Como teria sido a manobra para que o bandeirinha uruguaio Esteban Marino não comparecesse ao julgamento que fatalmente impediria Mané Garrincha, o grande craque daquela Copa, de jogar a final contra os tchecos?

Sem Garrincha na final, provavelmente Amarildo, Zito e Vavá não teriam a liberdade de marcação que tiveram para fazer os gols que deram o bicampeonato ao Brasil. E se fosse julgado pela agressão ao adversário chileno, na semifinal, certamente o lendário Mané não jogaria a decisão do título.

O homem que ouviu a confissão de subornado e subornador

Em busca de desvendar o mistério, a revista FourFourTwo chegou ao ex-árbitro, advogado e jornalista Olten Ayres de Abreu, que foi para aquela Copa como árbitro reserva, acompanhou de perto todo o imbróglio e anos depois ouviu do subornado Esteban Marino e do subornador João Etzel a confissão do crime.

A mando de dirigentes do futebol brasileiro, João Etzel não só se encarregou de oferecer 15 mil dólares a Esteban Marino – dos quais apenas 5 mil foram pagos –, como levou-o, de carro, para a Argentina, atravessando a Cordilheira dos Andes, em uma aventura que impediu o bandeirinha de testemunhar no julgamento de Garrincha. 

Na entrevista, de quatro páginas, Olten Ayres de Abreu, hoje com 81 anos, conta como foi substituído por João Etzel às vésperas da Copa e confirma os detalhes que fizeram o Brasil ganhar o Mundial nos bastidores. Sua história foi tirada das conversas que teve tanto com João Etzel, como com Esteban Marino.

Minha experiência de pesquisador não me deixa nenhuma dúvida de que a versão de Olten é a definitiva para o caso. Até a quantidade de dólares empregada no suborno é informada por ele, na entrevista que está nesta edição número 13 da FourFourTwo e será motivo de matéria amanhã no programa Esporte Espetacular, da TV Globo.

A edição que está nas bancas, com o furo

Quer ver a FourFourTwo vasculhando a história das Copas? Leia e divulgue a revista que caminha para ser a melhor de futebol no Brasil.


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