Eu tinha 13 anos e, aflito, esperei o momento do jogo. Tinha feito as contas e sabia que o Brasil precisaria ganhar de Portugal por três gols de diferença para se classificar. Depois de uma estréia tranqüila, em que vencera a Bulgária por 2 a 0, gols de falta de Garrincha e Pelé, perdera para a Hungria por 3 a 1 e se via naquela dificuldade diante de um time forte e muito bem ajustado, pois era, praticamente, o time do Benfica com a camisa da Seleção Portuguesa.

Eles tinham Simões, Coluna, Torres, Zé Augusto e ainda Eusébio, que alguns europeus consideravam melhor do que Pelé. O Brasil era um amontoado. A preparação tinha sido uma bagunça e o time não tinha entrosamento. O país estava muito esperançoso de que daquela Copa da Inglaterra viria o tri, completando as conquistas de 1958 e 62. Na verdade, o brasileiro achava que nunca mais perderia uma Copa do Mundo.

Vicente Feola, o mesmo técnico de 1958 – que sofria de diabetes e às vezes dormia no banco – escalou para aquele jogo Manga; Fidélis, Brito, Orlando, Rildo; Denílson, Lima; Jairzinho, Silva, Pelé, Paraná. Jairzinho ainda não era o furacão que seria quatro anos depois, Pelé não estava cem por cento fisicamente e Paraná ser titular no lugar do talentoso Edu, com apenas 16 anos, era um crime.

Bem, o jogo, ouvido pelo rádio, foi umpesadelo. Eusébio e Simões deram uma vantagem de 2 a 0 para Portugal no primeiro tempo, Rildo diminuiu no segundo, mas Eusébio marcou o terceiro, correndo todo o campo com os braços erguidos, para comemorar a grande vitória do futebol português e a vingança pela goleada e humilhação de perder a final do Mundial Interclubes de 1962 para o Santos, em Lisboa, por 5 a 2.

Nos dois jogos que o Brasil perdeu, os árbitros eram britânicos. Aquele foi dirigido pelo inglês McCabe. Contra a Hungria tinha sido mister Callaghan, do País de Gales. Eles estavam instruídos a deixar o jogo correr, fazer vistas grossas às agressões que os brasileiros e demais sul-americanos sofressem naquela Copa. O Brasil e, principalmente, Pelé, sofreu naquele Mundial.

A pancadaria comeu solta sem que McCabe expulsasse ninguém. É famoso o lance em que Pelé sofre duas faltas seguidas dos zagueiros portugueses e sai de campo carregado pelo massagista Mário Américo (nem maca tinha). Como substituições eram proibidas naquela época, Pelé teve de voltar com a perna enfaixada para o restante da partida.

O insólito da história é que quem deu a ordem para que caçassem Pelé foi um brasileiro, Otto Glória, técnico de Portugal (postei recentemente cenas deste jogo no blog, tiradas do youtube. É só pesquisar em dias anteriores para ver de novo).

Apareceu um filme inglês sobre a eliminação do Brasil e dava vontade de chorar. Pelé saindo carregado, o time lutando muito, mas sem conseguir fazer frente à superioridade de Portugal e, das arquibancadas, ouviam-se gritos desesperados de “Brasil, Brasil, Brasil…”. Eram homens, mulheres e crianças de famílias classe média que tinham comprado os pacotes de viagem – que pagariam por meses a fio – apavorados com a possibilidade de não ver mais a Seleção na Copa.

Perto de casa, um senhor, português, soltou fogos pela vitória de sua pátria e, confesso, odiei aquele homem que parecia nos provocar com aqueles rojões. Acho que nunca fiquei tão triste com uma derrota.

Depois, me lembro que torci pelo quase impossível, que seria a Bulgária golear a Hungria, mas os húngaros venceram e qualquer chance de classificação se foi.

Portugal, que estreava em Mundiais, terminou em terceiro lugar, sua melhor campanha até aqui. O Brasil voltou, humilhado – assim como a Itália, que havia sido eliminada ao perder para a Coreia do Norte por 1 a 0 e, ao desembarcar de volta, foi recebida por uma chuva de tomates.

A vingança

Bem, mas a oportunidade de vingança surgiu menos de um mês depois. Santos e Benfica se encontraram no Torneio de Nova York e, como eram as bases das seleções de seus países, a imprensa internacional anunciou a partida como a grande revanche da Copa.

Desta vez, Pelé estava em forma e não foi quebrado, Edu foi titular e os portugueses tiverem pela frente um adversário tão habilidoso e entrosado quanto eles. Na verdade, o Santos, com a camisa da Seleção, teria representado o Brasil muito melhor na Copa da Inglaterra.

Bem, o filme do jogo está postado aqui. Não digo mais nada, já que as imagens falam por si. Apenas ressalto que este momento, por si só, já convenceria qualquer um a torcer pelo Time dos Sonhos.