Desde 20 de agosto de 1919, quando a Confederação Brasileira de Desportos foi mais rápida e conseguiu a autorização da Fifa para ser a única entidade oficial representativa do futebol brasileiro, começou a roubalheira a favor dos times cariocas. O gol do Santos, anulado ontem pelo tal de Leandro Vuaden, não é nada perto do que já fizeram para prejudicar os paulistas, que ao longo da história, salvo alguns lapsos de tempo, sempre tiveram um futebol mais eficiente do que as festivas peladas rio-janeirenses.

Bem, os casos de roubos, fraudes e falcatruas em prol dos times do Rio dariam um livro de milhares de páginas. A começar pela arbitragem, passando pelo manjado tribunal de justiça desportiva, até a CBF, há uma teia de manipulações que levam, sempre, ao mesmo caminho: favorecer os representantes da cidade maravilhosa.

Todo time carioca já se beneficiou dessas desonestidades. Alguns mais, outros menos. Vasco (1974), Flamengo (1983) e Botafogo (1995) devem títulos brasileiros espúrios a esta política de levar vantagem a todo custo. Mas nem sempre a coisa deu certo para os malfeitores. Houve um dia, aliás, em que deu muito, mas muiiiiito errado…

O bandeirinha era rubro-negro

Era 11 de março de 1961, um sábado, e o Maracanã recebeu um ótimo público de 87.868 pessoas para ver o Flamengo contra o Santos. O Flamengo jogou com Fernando, Joubert, Bolero, Nelinho (Jadir) e Jordan; Carlinhos e Gérson; Joel, Henrique (Luís Carlos) Dida e Babá (Germano).

Perceba, caro leitor, que este Flamengo tinha alguns dos melhores jogadores que já passaram pelo clube, como Carlinhos, hoje técnico, Gérson, o canhotinha de ouro, e Dida, o ídolo do Zico.

O Santos, que para muitos já era o melhor time do mundo, entrou em campo com Laércio, Dalmo, Mauro (Formiga) e Fiote (Feijó); Zito (Urubatão) e Calvet; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

O árbitro era o paulista, hoje conselheiro do São Paulo, Olten Ayres de Abreu. Considerado o melhor árbitro brasileiro da época –indicado para ser o representante da arbitragem brasileira na Copa de 1962 –, Olten tinha fama de durão e não era de apitar à moda da casa. Ex-atleta, alto e forte, ele não se intimidava facilmente.

Mal o jogo começou e Olten percebeu que um dos bandeirinhas insistia em marcar o ataque santista, dando impedimentos inexistentes e indicando falta dos jogadores do Santos a cada dividida. Ao prestar atenção no auxiliar, com quem nunca havia trabalhado antes, Olten viu que este se colocava ao lado do banco do Flamengo e ficava de cochichos com o técnico do time carioca.

“Fui lá e o admoestei. Ele me ofendeu, disse que era militar e que se eu o importunasse ele me pegava lá fora. Ele não sabia com quem estava lidando. Eu o expulsei de campo e disse que se fosse homem poderia me esperar lá fora”, contou-me Olten anos depois.

A expulsão inusitada do bandeirinha fez com que o jogo prosseguisse com apenas um auxiliar, mas não houve mais nenhum lance duvidoso. O jogo pôde seguir sem favorecimentos a nenhum time. Que vencesse o melhor…

A maior goleada

E o melhor… bem, era até covardia comparar os dois times. Mesmo sendo uma boa equipe para os padrões cariocas, e mesmo com alguns dos seus ídolos eternos no elenco, em um jogo normal, sem interferência da arbitragem, o Flamengo não era páreo para um time cujo ataque soava como um verso parnasiano: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

E assim, apesar do gol de Henrique para o popular time do Rio, o Santos ganhou por 7 a 1, com três gols de Pelé, dois de Pepe, um de Coutinho e um de Dorval. O zagueiro Bolero contou depois sua amarga experiência de marcar o ataque santista:

“Eu ainda não tinha botado o pé na bola e o Santos já estava vencendo por 2 a 0. Teve um gol em que eu caí sentado com o drible que o Pelé me deu. Quando eu virei, a bola já estava na rede. O time do Santos não parava de atacar. No final, não sabia mais quem era Pelé, quem era Coutinho, na velocidade eles se pareciam. Tinha também o Dorval, que ajudava a confundir ainda mais. Só sei que eles não paravam de fazer gol”.

E assim o time de Gérson, aquele que disse que “a gente tem de levar vantagem em tudo” levou uma entubada histórica em um dia de Maracanã cheio em que não foi possível roubar para o Flamengo.

Não digo que ontem Zezinho, Zé Love & Cia goleariam o rubro-negro no Maracanã novamente. Mas fizeram ao menos um gol válido e por isso mereciam a vitória e os três preciosos pontos. Pena que ninguém expulsou o Vuaden antes.

Você tem alguma sugestão para evitar que o Santos seja roubado quando enfrenta times cariocas no Rio?