O Maestro e o Pequeno Madson: dois gols cada e atuações perfeitas

Tive a benção de estar lá, no Pacaembu, e tenho tanto para dizer sobre o jogo histórico de hoje, que resolvi fazê-lo em 18 palavras. Sim, dezoito, o número da maioridade para este time de garotos irresistíveis e geniais:

1 – Conquista. Há jogos que valem por um título. Até porque a emoção que provocam é a mesma da conquista de um título. Hoje, ao sair do Pacaembu e olhar no rosto das pessoas, você pensava: ali está indo pra casa mais um campeão, um ser humano feliz, que descobriu nesta noite de domingo o mais puro e belo significado do futebol.

2 – Harmonia. Esta é uma das palavras-chave que define este Santos. Quando ela existe, a falta de um ou outro jogador, mesmo quando são os maiores ídolos do time – no caso Neymar e Robinho –, o conjunto ainda flui com leveza e envolvimento. Chega um ponto em que a escalação parece apenas um detalhe, pois a impressão que se tem é que os jogadores, quaisquer que sejam, jogam juntos há décadas.

3 – Gols. Após os dez anos que levei pesquisando, escrevendo e mergulhando na alma do Santos (sim, todo time tem uma alma) para fazer o livro “Time dos Sonhos”, cheguei à conclusão de que o Santos nasceu sob o signo do ataque e só consegue achar o seu equilíbrio com uma equipe capaz de marcar muitos gols. Portanto, o Santos só está seguindo o seu instinto natural, respeitando o seu DNA.

4 – Felicidade. É o que se percebe nesses garotos, e ela contagia os veteranos do time, a torcida, todo o estádio. O estilo do Santos é marcado pelo destemor próprio da juventude e a alegria por se fazer o que se gosta. Amanhã talvez esses garotos tenham de sair do país para ficarem multimilionários em algum clube europeu, mas garanto que nunca esquecerão de dias como este domingo e que nunca serão tão felizes como estão sendo no Santos.

5 – Penitência. Nos comentários que fiz do jogo contra o Palmeiras, disse que André não poderia ser centroavante do Santos, por cabecear mal e não chutar bem. Já tinha mudado minha opinião no meio da semana, mas hoje jogo uma pá de cal sobre meu infeliz comentário. No estádio é que se percebe como o garoto joga sem bola, como se movimenta, como faz a apara e abre espaço para os companheiros, como tem coragem de enfrentar os zagueiros botinudos e como tem errado cada vez menos nas tabelas. Além disso, só pra me calar a boca, fez um gol de cabeça e um chutando forte. É um ótimo centroavante, sim, e deve melhorar ainda mais.

6 – Maestro, mas pode chamar de Gênio. Da mesma forma que afirmei que Neymar era craque logo na primeira vez que o vi jogar, digo, repito e não canso – que o Ganso não é só craque, é um gênio do futebol. Hoje ele fez a melhor partida de sua vida. É um iluminado, um cara que se treinar melhor o chute, ficará bem próximo da perfeição. Mais ligado no jogo, ajudou na marcação, apresentou-se sempre para o passe, lançou, tabelou, driblou, fez dois gols. Nossa, nesta Seleção tem de ser Ganso e mais dez.

7 – Adversário. Alguns, ao invés de ver as qualidades do Santos, enxergam terríveis debilidades no adversário que é goleado pelos Meninos da Vila. Coitado do Naviraiense, do Remo… Porém, antes que digam que o Ituano é uma porcaria, lembro que este mesmo time empatou com o Palmeiras, no Parque Antártica, por 3 a 3, e que só está a uma vitória do mesmo Palmeiras na classificação do campeonato.

8 – Vingança. Saulo era o goleiro do Santos naquele jogo suspeito em que o time foi goleado pelo Corinthians por 7 a 1. O rapaz saiu do Santos falando mal do clube e o processou. Ontem, ficou tão desestabilizado com o sétimo gol que sofreu, que em seguida deixou passar uma bola fácil, num frangaço. Acabou expulso e saiu de campo humilhado. Tomos os mesmos 7 a 1 e mais dois de lambuja.

9 – Violência. Só depois de 14 faltas do time adversário, algumas delas por trás, é que o árbitro começou a dar cartão amarelo. O Ituano bateu o tempo todo e duas expulsões ficaram barato. Parece que esta será uma tendência, pois os adversários não estão conseguindo parar os Meninos na bola.

10 – Respeito. As críticas de que o Santos estava fazendo muitas firulas e não jogando objetivamente, acabaram se tornando extremamente úteis. Hoje o time jogou atacando o tempo todo. Dorival Junior fez substituições para tornar a equipe ainda mais ofensiva, o torcedor pediu mais e mais gols e os jogadores, vencendo por 9 a 1, ainda estavam marcando pressão na saída de bola do adversário. Se era esse tipo de respeito que pediam, ele está aí. Só acho que os próximos adversários, se pudessem escolher, prefeririam as firulas.

11 – Inteligência. Jogar para fazer mais gols, mesmo quando já se está ganhando de goleada, é sinal de inteligência. O “olé” mexe com os brios e com os nervos do adversário, que reage agressivamente. Mas ir pra cima para aumentar a goleada deixa o inimigo em pânico, como se viu hoje. Mesmo goleado, o Ituano jogava atrás e fazia cera para não tomar mais gols. O que foi inútil.

12 – Méritos. Há jogadores que não aparecem tanto, mas são essenciais neste time, casos de Arouca e Marquinhos. Um que nem pode ser considerado reserva, pois sempre que entra se sai muito bem, é o pequeno Madson, que hoje viveu um de seus melhores momentos no Santos, marcando dois gols, movimentando-se o tempo todo e até participando de boas tabelas. Outro que voltou a jogar bem e saiu ovacionado – por incrível que pareça – é o discutido Pará. Menos errático, tem jogado bem as últimas partidas e está se firmando como lateral esquerdo.

13 – Dúvida – A primeira bola que foi ao gol, entrou. Mas depois Felipe se redimiu, praticando duas defesas seguidas muito difíceis. Entretanto, com a recuperação física do experiente Fábio Costa, a posição ficará indefinida. O que pesa a favor de Felipe é sua discrição e integração com o grupo, coisas difíceis de se esperar do problemático Fábio Costa.

14 – Ousadia. Dorival Junior é o técnico certo para o Santos. Mesmo quando o jogo já estava definido e um outro faria uma substituição para fechar o meio-campo, ele colocou mais gente no ataque. Tirou Arouca para colocar Maikon Leite; pôs o atacante Zé Eduardo no lugar de Pará e o meio-campo Roberto Brum no lugar do zagueiro Edu Dracena. Apesar de separados por cinco décadas, Dorival partilha da filosofia ofensiva do eterno Lula, o técnico do Time dos Sonhos.

15 – Título. Pode vir ou não vir. Mas como cada jogo do Santos neste Campeonato Paulista dá muita alegria aos seus torcedores, certamente ao se somar todas as horas e dias e semanas e meses de felicidade que este time tem proporcionado, esse contentamento já será bem maior do que a euforia proporcionada por mais um título paulista. Em outras palavras, não acho que um título apague tudo o que foi feito antes. Um time medíocre que é campeão jogando feio nunca será lembrado com o mesmo respeito e carinho do que um outro que tenha elevado o futebol aos limites da arte, como este Santos está fazendo.

16 – Talento. O Santos tem provado que nada é irreversível no futebol. Muitos duvidavam de que nestes tempos de ultracompetitividade uma equipe pudesse reproduzir as performances e os marcadores dos anos 60, a década de ouro do futebol brasileiro. Diziam: se Pelé jogasse hoje, não conseguiria dar um drible. Pois o mesmo Santos que já foi de Pelé e hoje é de Ganso, Neymar, Robinho & Cia, está provando que os grandes jogadores dão dribles e fazem gols em qualquer época.

17 – Competição. Há quem desqualifique o Campeonato Paulista, porque assim desqualificam também o sucesso de uma equipe na competição. Agora, aqui entre nós: esta decantada Copa Libertadores da América este ano tem um nível baixíssimo. Só há clubes fakes, que de time grande só tem o nome. Lemos “Racing” e pensamos no argentino, mas é uruguaio; “Independiente”, mas também não é o argentino, é equatoriano; e tem ainda o “Nacional” do Paraguai e o “Cerro” do Uruguai. E não há nenhum time que esteja jogando um futebol que encha os olhos.

18 – Futuro. Manter esses jogadores no Santos, manter esse time que tem revivido o melhor que o futebol brasileiro pode atingir, deixou de ser apenas um problema do Santos Futebol Clube. O mercado do futebol brasileiro ganha muito com o sucesso de um time brasileiro que revive a ginga e a arte dos bons tempos. É a hora de as empresas ligadas ao futebol mostrarem visão de mercado e agirem para manter esse time, com todos os seus garotos, jogando aqui para sempre.

E você, o que acha deste Santos? Já tinha visto um time brasileiro jogar de maneira tão ofensiva e envolvente? Acha que surgirão patrocinadores com visão e dinheiro capazes de manter todos os Meninos aqui?