Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Tag: A Gazeta Esportiva

Há 48 anos a imprensa já chutava assim…

Em janeiro de 1964 o jornal A Gazeta Esportiva anunciava, em sua primeira página, que um grupo de empresários paulistas estava disposto a juntar um bilhão de cruzeiros para tirar Pelé do Santos e entregá-lo de presente ao Corinthians.

Como se sabe, porém, o Rei do Futebol jogou no Alvinegro da Vila Belmiro por mais dez longos e vitoriosos anos e depois ainda foi gozar a pré-aposentadoria no Cosmos de Nova York, sem nunca ter vestido a camisa do alvinegro da capital.

Agora, o jornal Lance anuncia, como há 48 anos, que Paulo Henrique Ganso já é jogador do Corinthians – o que o assessor de imprensa e o agente do jogador acabam de desmentir, via twitter.

Nem é preciso ressaltar que não há qualquer termo de comparação entre Pelé e Ganso. Um foi o melhor jogador que já surgiu no planeta. O outro está voltando, claudicante, depois de uma cirurgia delicada e um longo tempo de inatividade. Um sempre foi e é santista até hoje. O outro não sabe ainda o que é e o que quer da vida.

E você, acha que há um fundo de verdade na notícia de que o Ganso pode ir para o Corinthians, ou é mais um chute, de bico, do jornal Lance?


Santos deve jogar ponto a ponto, como se faz no tênis

Meus muitos anos como tenista amador e jornalista especializado no esporte me ensinaram variadas técnicas mentais para superar momentos difíceis. Jogar ponto a ponto é a melhor delas e a que recomendo ao Santos para chegar ao título.

O Santos provou ontem que ainda pode, sim, ser campeão brasileiro. Para isso, porém, terá de mudar a forma de enxergar o campeonato. Não adiantar olhar lá pro final e imaginar o exaustivo caminho pela frente. Tem de focalizar cada jogo, como o maratonista que corre 42 quilômetros concentrando-se em cada passo. Tem, enfim, como se diz no tênis, de “jogar ponto a ponto”.

Jogar cada ponto com concentração, determinação e coragem é a atitude responsável por grandes viradas no tênis, um esporte que não termina pelo tempo e, portanto, dá sempre ao jogador inferiorizado no placar a possibilidade de passar à frente.

Às vezes parece que o jogo já está perdido e então é preciso recorrer a artifícios mentais para ganhar motivação e tentar o quase impossível. Já fiz isso algumas vezes e tenho uma história pra contar. Está com tempo? Senta que lá vem a história…

Uma história verídica

Era o ano de 1982 e a Koch Tavares realizava o I Torneio Imprensa de Tênis, em São Paulo. Jogador de futebol frustrado, eu jogava tênis desde 1973 e já tinha um jogo mais consistente do que a maioria de meus colegas jornalistas. Cheguei à final contra José Nilton Dalcin, repórter de A Gazeta Esportiva, hoje editor do site Tênisbrasil.

Personalidades compareceram à final, que tinha até a cobertura da imprensa. Meus amigos do jornal O Globo, meu irmão e minha mulher foram torcer pra mim. Estava confiante e abri 4 a 1, mas arrisquei muito e acabei perdendo o primeiro set por 6 a 4.

No segundo, joguei com medo de errar, só coloquei a bola na quadra, e a tática deu certo. O Zé Nilton é quem forçou mais o jogo, errou muito, e eu venci por 6 a 1. Fui para o terceiro e último set com a convicção de que ganharia a partida e o título sem correr riscos, mas a bola do Zé Nilton começou a entrar e ele chegou a 5 a 1.

Nesta hora, lembro-me perfeitamente que pensei: “Odir, que vergonha! Seus amigos, seu irmão e sua mulher vieram ver seu jogo, torcer para você, e você está dando vexame, jogando com medo, só empurrando a bola. Você já perdeu, mas ao menos termine com a cabeça erguida. Faça o óbvio: fuja de sua esquerda e bata com a direita na esquerda dele. Mexa essas pernas e faça isso até o fim. Perca como homem!”.

Comecei a melhorar, mas ainda 5 a 1 o Zé Nilton chegou a ter dois match points. O fotógrafo já saiu da cabine e ficou ao lado da quadra, para pegar o ponto final e a comemoração do Zé. Mas, não sei como, defendi os dois match points, mantive o serviço e diminui para 5 a 2.

Mais animado, consegui quebrar-lhe o serviço em seguida, depois mantive o meu, mas com 5 a 4 e saque ele teve outro match point. Imaginei-me como um goleiro em um pênalti. Pensei: “Não vou deixar essa bola passar, nem que eu tenha de me atirar nela”. Ele sacou bem, no meio, e eu só tive tempo de esticar a raquete em direção à bola, que bateu no aro e subiu, subiu…

O jogo foi em uma quadra fechada, na antiga academia Back Spin, próxima à Rua Vergueiro, e se a bola batesse no teto a partida terminaria, com a vitória do Zé Nilton. Pois a bola chegou perto, mas não bateu e começou a descer. Fiquei torcendo então para ela cair do outro lado da rede. Caiu. Mas caiu à mercê para o smash do Zé. Se ele desse uma enterrada, o jogo estaria decidido. E foi o que tentou fazer, mas acabou jogando a bola na rede.

Só naquele momento é que comecei a me animar. Pensei: “Ele está nervoso. Não posso mais perder esse jogo”. E segui minha estratégia de mexer as pernas, fugir da esquerda e bater na esquerda dele, até que, naturalmente, eu é que cheguei a 6 a 5 e tive o match point. Joguei com tranqüilidade, chamei-o à rede e joguei a bola no seu pé, provocando o erro no seu voleio.

O fotógrafo, que já estava ali a um tempão, fez a foto de minha mulher me beijando. Ganhei uma infinidade de prêmios e sai em todos os jornais. Fiquei mais conhecido no meio jornalístico por jogar tênis do que pelos dois Prêmios Esso que havia ganho.

No outro dia, só para mostrar como a imprensa vê o fato do ângulo que quiser, enquanto todos os jornais valorizavam minha conquista, o jornal A Gazeta Esportiva, no qual trabalhava meu adversário, dava uma matéria de meia página com o título: “José Nilton vice-campeão!”.

Lições dos mestres para o Santos

Nesses meus quase 34 anos de jornalista convivi com grandes atletas, notáveis desportistas, seres humanos com uma força interior assustadora, que construiram carreiras de muito sucesso. Aprendi muito com eles. Uma frase que ouvi do cestinha Oscar Schmidt, de quem tive a honra de ser o biógrafo, serve agora para o Santos.

Oscar dizia: “Há times (no basquete) que estão muito atrás no marcador e ficam ansiosos para tirar logo a diferença, como se em um ataque pudessem fazer 10, 15 pontos. Mas não é possível. Você só pode fazer três pontos em um ataque”.

É o caso do Santos agora. É impossível, em apenas uma rodada, tirar a diferença de 10 pontos que o separa do Fluminense, mas diminui-la jogo a jogo é mais do que provável. Até porque a tabela entra em uma fase teoricamente propícia para o Alvinegro Praiano.

Cinco jogos decisivos

As duas próximas partidas do Santos serão contra adversários que estão à sua frente, mas serão ultrapassados caso o Santos vença – Atlético Paranaense e Internacional. Depois vem um clássico contra o São Paulo, no Morumbi, em que tudo pode acontecer. Em seguida, mais dois jogos do Santos em casa, contra o praticamente rebaixado Grêmio Prudente e o decadente Vitória.

Com exceção do confronto com o São Paulo, em que a lógica parece ser o empate, em todas as outras quatro partidas o Santos é favorito. No caso do Internacional, um ótimo time, o favoritismo santista se explica pela atenção maior que o time gaúcho está dando aos preparativos para o Mundial Interclubes, seu maior objetivo neste semestre.

Se jogar ponto a ponto, se respirar fundo nas dificuldades e seguir fazendo o que é certo para buscar cada vitória, o Santos saberá defender seus match points e estará preparado para fechar os jogos e alcançar o título quando a oportunidade finalmente estiver ao alcance de suas mãos.

Que tal fazermos um pacto, nós que somos santistas de São Paulo, Santos ou cidades próximas: vamos nos comprometer a ir ao menos a um dos cinco próximos jogos do Santos? Estou certo de que o calor e o amor da torcida, nesta fase crucial, podem criar uma energia irresistível, como aconteceu em 2004. Não custa nada tentar. Topa?


Há 50 anos, a imprensa saudava o primeiro campeão brasileiro

Quando a primeira Taça Brasil foi disputada, em 1959, o Brasil tinha 70 milhões de habitantes e a ponte aérea Rio-São Paulo tinha sido inaugurada naquele mesmo ano. Os clubes de futebol viviam exclusivamente das arrecadações. Não havia nem como pagar passagens de avião. Um campeonato nacional com jogos de ida e volta era uma utopia. Então, como em outros países, fez-se o que era possível para definir um campeão brasileiro que representaria o País na primeira Copa dos Campeões da América, hoje conhecida como Copa Libertadores da América.

Como hoje cada país seleciona seus poucos representantes para a Libertadores, a Taça Brasil era disputada apenas pelo campeão de cada Estado. Todos os participantes dos estaduais tinham, assim, a possibilidade de lutar pelo título brasileiro. Logo na primeira edição, 16 estados foram representados na Taça, quase o dobro dos que hoje disputam a Série A do Brasileiro.

Quando a última das quatro edições do Torneio Roberto Gomes Pedrosa foi jogada, já com o nome de Taça de Prata, em 1970, o País abrigava 90 milhões de pessoas. Nesse ínterim, graças à massiva cobertura da imprensa, ninguém que acompanhasse o futebol teve qualquer dúvida de que o campeão destas duas competições era também o campeão brasileiro. Hoje, muitos dos brasileiros daquela fase de ouro do nosso futebol já morreram. Felizmente, porém, a história não vive só de testemunhas oculares. Milhares de documentos sobrevivem para comprovar a veracidade eterna dos fatos.

Desde a primeira competição da Taça Brasil a cobertura dos jornais deixou claro que a competição dava ao seu vencedor o título de campeão brasileiro. Os arquivos estão aí, repletos de documentos para quem procura se informar antes de dar opiniões. Devemos acreditar na imprensa da época? Devemos acreditar em jornalistas como Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, João Saldanha, Thomaz Mazzoni, Mário Filho, Ney Bianchi, Vital Bataglia…?  Se não devemos acreditar nesses profissionais de extrema competência, o que nos faria acreditar na imprensa esportiva atual?

O presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange, em uma entrevista exclusiva a Ney Bianchi, já tinha anunciado que a Taça Brasil era o Campeonato Brasileiro de Clubes, nos mesmos moldes do Campeonato Brasileiro de Seleções, que já existia há décadas. Assim, quando a Taça Brasil foi iniciada, não havia um só brasileiro que acompanhasse o futebol que não soubesse que ela daria ao vencedor o título de campeão nacional e o direito de representar o país na primeira competição sul-americana de clubes oficial.

Relembremos algumas matérias publicadas sobre a primeira Taça Brasil e confirmemos o caráter de primeira competição nacional de clubes que ela tinha:  

Taça Brasil na fase decisiva. Santos x Grêmio hoje na Vila. Chega, afinal, à sua fase de maior interesse, a Taça Brasil, destinada a apontar o campeão nacional interclubes. E o Santos, na qualidade de campeão paulista de 1958, terá a responsabilidade de enfrentar o Grêmio Portoalegrense, que é tricampeão do Rio Grande do Sul (A Gazeta Esportiva, chamada de capa, 17 de novembro de 1959). 

Bahia, depois de vencer o Vasco, terá de enfrentar amanhã o Santos. Em plena luta pelo Campeonato Paulista, do qual é líder absoluto, o Santos, amanhã, será obrigado a se empenhar em um compromisso diferente, este valendo pelo título de campeão do Brasil. Para esta noite, com início às 21 horas, está marcada a partida entre o Santos F. C. e o E. C. Bahia, iniciando a série final relativa à Taça Brasil. Trata-se de um choque dos mais sugestivos, desde que reunirá dois esquadrões em situação de singular prestígio (A Gazeta Esportiva, título de página, 8 de novembro de 1959).

Luta pelo título de campeão do Brasil: Santos x Bahia. Hoje à noite, em Salvador, Santos e Bahia estarão lutando pela segunda vez na série final de jogos da Taça Brasil. O objetivo único é tornar-se o primeiro campeão do País. O embate na capital baiana está atraindo a atenção do público esportivo brasileiro (A Gazeta Esportiva, título de página, 30 de dezembro de 1959).

Santos. Bahia. Decisão hoje à noite da Taça Brasil. Será conhecida no Maracanã a equipe campeã brasileira entre clubes (Capa de A Gazeta Esportiva de 29 de março de 1959).

O E. C. Bahia conseguiu esta noite, no Estádio do Maracanã, o título inédito no futebol brasileiro, qual seja o de campeão brasileiro por equipes, garantindo sua participação no próximo Campeonato Sul-americano de Clubes Campeões (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1959).

O futebol do Norte do país voltou a brilhar. Depois da atuação da Seleção de Pernambuco no Campeonato Brasileiro, ficando em segundo lugar, foi a vez do E. C. Bahia vencer a Taça Brasil, o primeiro campeonato brasileiro de clubes (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1959).

Bahia é o campeão. O E. C. Bahia sagrou-se ontem à noite campeão da Taça Brasil ao derrotar o Santos, no Maracanã, por 3 a 1. O título, que equivale ao de primeiro campeão brasileiro interclubes, foi obtido em partida acidentada, na qual foram expulsos três jogadores santistas (Folha da Tarde, última página, 30 de março de 1960).

Grande atuação do campeão baiano, sagrando-se campeão brasileiro de futebol por equipes (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1960).

E. C. Bahia venceu a Taça Brasil!… O campeão baiano não teve a mínima culpa nos acontecimentos verificados entre o juiz e os jogadores santistas. É o primeiro campeão brasileiro por equipes e será o representante nacional no próximo Campeonato Sul-americano de Clubes Campeões (A Gazeta Esportiva Ilustrada, matéria de duas páginas, abril de 1960).

Esporte Clube Bahia conseguiu um título inédito no futebol brasileiro. Sagrou-se Campeão Brasileiro por Equipes (A Gazeta Esportiva Ilustrada, legenda de foto de meia página com o time posado do Bahia, abril de 1960).

É possível que não estivesse nos cálculos dos catedráticos. Mas a realidade é que o Esporte Clube Bahia detém o primeiro título máximo brasileiro… Aí está, portanto, o desfecho da Taça Brasil. Todos acreditavam no Santos. Mas o Esporte Clube Bahia contrariou a todas as previsões. Agora, de acordo com o que ficou assentado, caberá ao campeão representar o futebol brasileiro no Campeonato Sul-americano de Campeões que será disputado em maio próximo (A Gazeta Esportiva Ilustrada, matéria de duas páginas, abril de 1960).

Bahia, campeão do Brasil (A Tarde, de Salvador, título de capa, 1º de abril de 1960)

O que mais ninguém pode negar, é a força técnica do Bahia. É um quadro que joga pra frente mais sabe se portar na defesa. Objetivo, sabe a hora certa de ferir o seu adversário. O Bahia é uma força positiva, soube dar brilho ao futebol do Norte e detém com orgulho, para o resto da vida o título de “primeiro campeão do Brasil”. (Jornal dos Sports, matéria assinada por Luiz Bayer, 1º de abril de 1960).

Todos os mestres na arte de calcular o futebol podem rasgar seus apontamentos, pois o primeiro campeão do Brasil é o Esporte Clube Bahia e não será sem motivos, pois venceu a melhor equipe do país e um das melhores do mundo (O Globo, matéria assinada por Ricardo Serran, 1º de abril de 1960).

Bahia, primeiro campeão do Brasil de todos os tempos, um título único e inédito de uma importância sem igual. Uma odisséia fantástica do Esporte Clube Bahia, quase desacreditado depois da derrota em Salvador, vitorioso e inconstante no Rio de Janeiro, no templo do futebol, o Maracanã, contra o maior time do mundo (O Globo, matéria assinada por Ricardo Serran, 1º de abril de 1960).

E você, querido leitor e leitora, considera o Bahia o primeiro campeão do Brasil, ou acha que o Campeonato Brasileiro só começou em 1971?


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