Todos nós temos amigos malas. Ao menos um, todo mundo tem. Digo isso porque também desfruto do convívio de um desses. Sei que é amigo porque já deu provas, já fez e está sempre disposto a fazer algo por mim e meus projetos, mas, por outro lado, parece absorver todas as críticas que fazem a mim e ao meu trabalho, e depois usá-las para me provocar. Ontem, estávamos conversando, por telefone, e ele arriscou: “Mas, Odir, você é um cara meio preso ao passado, não é?”.

Sei que ele disse isso porque estou envolvido nessa campanha de financiamento coletivo do livro “Time dos Sonhos”, pelos livros que escrevi e escrevo e também porque sou curador do Museu Pelé.

Contei até dez, como devemos fazer antes de responder a uma afirmação sem sentido vinda de um amigo, e respondi, pela enésima vez, que apenas gosto de conhecer e entender o passado porque acho que ele é a base, o trampolim para o futuro.

No fundo, acredito que o respeito pela história é uma obrigação das pessoas esclarecidas, mas nunca diria isso a um amigo. Percebo, rotineiramente, que a pesquisa, o cuidado com a busca e a interpretação do fato histórico, iniciativas tão valorizadas nas sociedades desenvolvidas, encontra opositores no nosso Brasil. Fazer o quê?

Bem, mas havia uma pergunta no ar, e meu instinto de repórter não me faz deixar uma questão sem resposta. É evidente que eu poderia responder apenas: “Sou um cara tão preso ao passado como qualquer pessoa que não tenha nascido hoje”. Mas também soaria ofensivo. Então, como meu amigo também é santista e sei muito bem porque ele estava tocando nesse assunto, falei do nosso time:

“Você quer dizer que o passado do Santos não vale nada se o presente está uma droga?”

“É por aí”, respondeu.

“Então, você diria que a Chapecoense é maior do que o Santos?”.

“Não, por que eu diria um absurdo desses?”, retrucou.

“Ora, porque ela está bem à frente do Santos na classificação do Brasileiro, a principal competição do presente”.

Como nada ouvi do outro lado da linha, reforcei que o Santos é maior do que a Chapecoense e do que a maioria dos times que estão à sua frente neste Brasileiro devido, única e exclusivamente, à sua história. “O que é o tão falado ‘peso da camisa’ se não a história, o currículo dessa camisa?”, insisti.

Como o silêncio perdurava, pedi que abrisse o computador na página do UOL e visse a bela matéria sobre o jogador de basquete Vin Baker, ex-astro da NBA, que ganhou cerca de 100 milhões de dólares na carreira e estava tentando recomeçar depois de perder tudo devido ao alcoolismo. “Leia o último parágrafo da matéria”, pedi. Nele, Baker diz:

“Estou com 43 anos e tenho quatro filhos, preciso juntar os cacos. Sou pai. Sou ministro na igreja do meu pai. Tenho que pegar minha história e mostrar que a pessoa pode dar a volta por cima.”

“Notou a ‘palavra chave’?”, enfatizei. “Minha história!”. “É isso que dará forças a Vin Baker para recomeçar sua vida e também é isso que, neste momento, pode dar ao Santos energia para aprender com seus erros e retomar o caminho que leve a novas conquistas”.

“É, acho que é por aí mesmo, Odir…”, finalmente admitiu uma voz quase imperceptível. “Você está certo. Eu estava só te enchendo o saco…”.

“E eu não sei que sua intenção é essa?”, respondi sem conseguir segurar o riso. “Mas agradeço por ter tocado nesse assunto. Acho que vou transformar esse nosso papo em um post no blog. Há outras pessoas que repetem isso que você falou, e essas eu não sei se fazem só para encher o saco, ou se são malas de nascença mesmo.“

Esse amigo, que foi meu repórter em uma das muitas revistas esportivas de vida breve que editei, costuma dizer que sou um dinossauro santista por torcer para o time desde os tempos de Pelé. Ele se orgulha de ter optado pelo Glorioso Alvinegro Praiano no Campeonato Brasileiro de 1995, quando Giovanni & Cia, com seus cabelos vermelhos, só não foram campeões porque o árbitro não deixou.

A última coisa que gostaria de ser é um desmancha-prazeres de santistas, mas qualquer dia vou lembrar a este amigo que a dramática virada sobre o Fluminense, no Pacaembu, no dia em que o time não desceu para o vestiário no intervalo, completa 20 anos neste 2015. Ou seja, para a garotada que torce para o Santos desde a geração de Robinho e Diego, ou de Neymar e Ganso, este meu amigo já é um “tiozinho”, um sério candidato a ser taxado como alguém “preso ao passado”.

Revisitando a apaixonante história santista


Neste vídeo, produzido por João Lucca Piovan, explico por que Time dos Sonhos ficou conhecido como A Bíblia do Santista e que tipo de experiência ele proporciona com sua leitura

As 528 páginas de Time dos Sonhos não estão em um arquivo único. Este ficou com a Editora Nobel, que disse tê-lo extraviado. Então, a remontagem do livro está sendo feita com o aproveitamento de capítulos em word, em um trabalho meticuloso que está me dando a oportunidade de refrescar a memória com fatos e etapas relevantes da história santista.

Nesses dias enfurnado em meu escritório tenho revivido as emoções e descobertas de quando escrevi o livro. É como uma viagem no tempo, já que alguns capítulos foram produzidos há mais de 20 anos. Redigitá-los me traz novamente a sensação de descoberta que experimentei ao pesquisar passagens riquíssimas da história santista mesmo muito antes da geração de ouro de Pelé.

Como não se espantar ao saber que os garotos Arnaldo e Millon se tornaram titulares da Seleção Brasileira apenas dois anos depois de fundarem o Santos? Ou que Ary Patusca, filho de Sizino Patusca, primeiro presidente do Alvinegro Praiano, foi estudar contabilidade na Suíça e se consagrou, em meados da década de 1910, como o primeiro jogador brasileiro a fazer sucesso na Europa? Ou que o Santos, sete anos depois de fundado, cedeu mais jogadores – Arnaldo, Millon e Haroldo – para a primeira grande conquista do futebol brasileiro, o Sul-americano de 1919?

Note, amigo leitor e amiga leitora, que estou me referindo apenas à década de 1910, aos primeiros e incertos anos do nosso clube. Lembro-me que essas descobertas me empolgaram e me encheram de orgulho, pois comprovavam que o Santos já nasceu com a grandeza impregnada em sua alma e em seu destino.

Da ideia de um livro que, a princípio, deveria contar apenas a história da equipe sobrenatural que encantou o mundo de 1955 a 1969, Time dos Sonhos se tornou uma obra que vasculhou as origens e mapeou o caráter superior de um time de futebol que, positivamente, não nasceu para ser apenas um coadjuvante do futebol.

E o mais interessante nesse processo é que o autor não teve de forçar nada. Como uma personagem que ganhasse vida e escolhesse seus próprios passos, o livro tomou o seu caminho e só tive o trabalho – longo, é verdade, mas extremamente prazeroso -, de segui-lo. É justamente esta jornada que proponho a você agora.

Tenho plena convicção de que ler Time dos Sonhos lhe trará o mesmo orgulho de ser santista que estou sentindo agora, sensação fundamental para nos trazer ânimo de fazer o que tem de ser feito pelo nosso clube. Por isso aceitei essa campanha da Kickante para relançar o livro, batizado de “A Bíblia dos Santistas”, com um preço promocional de pré-venda e ainda com o nome completo de cada um dos dos apoiadores no último capítulo.

Faltam apenas duas semanas para o fim da campanha. Se ainda não entrou, espero que você se decida por fazer parte dela. E se fizer isso agora, melhor ainda.

Clique aqui para saber mais sobre a campanha de relançamento do livro Time dos Sonhos

E pra você, respeitar a história do Santos é viver preso ao passado?