Mal escalado, mal substituído, mal orientado e mal motivado pelo técnico Adilson B, o Santos empatou na Vila Belmiro com o São Bernardo e terá de superar a descrença do torcedor na próxima quarta-feira, contra o Cerro Porteño, quando o sonho da terceira estrela estará em jogo.

Digo mal escalado porque quem coloca Adriano e Danilo lado a lado, no meio campo, é porque não quer que a bola saia redonda dali. Um jogador do nível deles, de vez em quanto, é o máximo que um bom time pode suportar. Os dois, ao mesmo tempo, é dose pra leão.

Continuo dizendo que foi mal escalado porque, se era possível formar o mesmo ataque que estraçalhou no começo do campeonato – com Neymar, Zé Eduardo e Maikon Leite –, por que não o fez? E por que continua sem dar uma oportunidade para Vinicius Simon, o zagueiro preferido do torcedor?

Um meio-campo mais ousado seria Alan Patrick ao lado de Felipe Anderson. Poderia não dar certo, mas o torcedor queria ver os dois meninos ao menos uma vez, e tem todo o direito de querer. Mas, é claro, Adilson B não correria esse risco.

Pela forma como o técnico gritava com Felipe Anderson no primeiro tempo, temi que o garoto não voltasse para a segunda etapa. Temi porque ele demonstrou, em várias jogadas, uma habilidade superior (como no chapéu seguido do controle da bola com a cabeça).

Felipe dá a sensação de que, a qualquer momento, pode fazer algo decisivo. E estava se mostrando para o jogo, puxando contra-ataques, trocando passes rápidos com Neymar, Elano e Zé Eduardo. Tão jovem como ele, apenas 17 anos, é normal ter alguns altos e baixos, mas mesmo assim os seus altos eram maioria. Sem ele, o meio-campo perdeu a liga. O Santos não criou mais nada com a bola pelo chão.

Adilson B preferiu o trivial: trocou um menino pelo outro. Tirou Felipe Anderson e colocou Alan Patrick. E o time piorou. Alan mostrou porque não tem jogado. Está fora de jogo, errando quase todos os passes. Eu não disse a maioria. Eu disse quase todos.

Depois, quando chamou Maikon Leite, que estava na reserva, imaginamos que jogaria com três atacantes, tirando o dispersivo e errático Danilo, ou mesmo Elano, que parecia cansado. Mas não. Tirou Zé Eduardo, o que tem mais cacoete de centroavante. Maikon Leite é rápido, ótimo para jogadas de contra-ataque, mas se embanana diante de uma retranca. E hoje entrou para não fazer nada. Eu não disse que fez pouco. Não fez absolutamente nada.

Para concluir as substituições, o professor Adilson B, tirou Jonathan, cansado, e colocou Pará. Aí não tinha jeito, tinha de tirar mesmo. Apesar de não ser um primor, Jonathan é o titular da posição, fácil. E Pará ainda entrou a tempo de perder uma jogada e chutar o jogador por trás. E nada mais fez Pará.

Digo que o time foi mal orientado porque começou a 100 por hora, como se quisesse marcar 10 gols em um ataque, e depois foi se perdendo e se cansando. No final, parecia disputar uma pelada. Não havia organização tática. Os jogadores batiam cabeça atrás dos três pontos que aplacariam as vaias.

E digo que o time foi mal motivado, pois Adilson B ainda teve a desfaçatez de afirmar, nos preparativos para a partida, que após o jogo tomaria um cafezinho, como se a vitória fosse certa. Isso foi usado para motivar os jogadores do São Bernardo, confirme afirmou o ótimo goleiro Marcelo Pitol, do time do ABC.

Não sei com que espírito ele preparou a equipe para o jogo, mas afirmar que a partida seria fácil é a última coisa que um técnico experiente e vencedor faz. Adilson B deu munição ao adversário, que lutou demais e mereceu o empate.

Para não dizer que não falei de coisas boas, destaco as atuações de Neymar, que lutou muito e criou do nada a jogada do pênalti que salvou o Santos de um resultado pior; o valente Léo, que correu e lutou muito mais do que o atabalhoado Danilo, e o zagueiro Durval, que limpou a área lá trás.

Agora, é vencer ou vencer.

Já vi times em crise darem a volta por cima e serem campeões. O torcedor tem de acreditar nisso. Se com aquela elenco deplorável de 2008 a equipe só não chegou às quartas da Libertadores porque Hector Baldassi (o mesmo que apita o jogo contra o Cerro) não deu um gol legitimo de Kléber Pereira, então podemos ter a esperança de uma vitória sobre o Cerro, na quarta-feira, mesmo de meio a zero.

Não tenho dúvida de que, se depender dos jogadores, o Santos se empenhará como nunca por esta vitória. O problema maior não está nos jogadores, mas na cabeça de Adilson B. Não sei que time está na sua cabeça para o jogo de quarta-feira, mas, se seguir o mesmo script desta sua passagem pelo Santos, não será aquele que o torcedor do Santos, mesmo o torcedor mirim, imagina para a partida.

Apesar da fase difícil, apesar do alto preço dos ingressos (50 reais para os sócios), o torcedor deve apoiar o time neste jogo decisivo contra o Cerro Porteño. Principalmente em respeito aos jogadores, que hoje lutaram bastante, mas pareciam, mais uma vez, perdidos em campo.

O tempo para se tentar montar um time que jogue bonito e ofensivo, como gosta o santista, já foi perdido. Lá se foi a pré-temporada, lá se foram dez jogos pelo Campeonato Paulista, e parece que Adilson B continua na estava zero. Agora, é hora do coração e da alma entrarem em campo. Só a garra e a luta podem salvar o Santos. É duro admitir, mas, diante das circunstâncias, o mesmo Cerro que um dia tomou de 9 na Vila, agora vem como favorito.

Detesto ter de dizer “eu não disse?”, mas a verdade é que a escolha de Adilson B para comandar o time neste ano tão importante para o Santos, não foi feliz. Como diz a sabedoria popular, “onde há fumaça, há fogo”. Se os torcedores do Cruzeiro o chamam de “professor Pardal”, é porque essa mania de inventar, de colocar jogadores fora de suas posições, de não escalar os melhores e de não ouvir o clamor da torcida, é um comportamento que acompanha a carreira de Adilson B e por isso talvez o tenha impedido de conquistar títulos importantes.

O jogo contra o Cerro será, talvez, a sua última oportunidade no Santos de mostrar que é um técnico inteligente, que sabe usar o melhor de seu elenco, que sabe motivar seus jogadores e tem a humildade de perceber que atrás dos pedidos da torcida está a visão de quem conhece o Santos muito mais do que ele, que chegou agora e já quer ditar uma maneira de jogar que não condiz com o DNA do time.

Leia o que escrevi quando Adilson foi contratado
E você, o que achou do jogo? E do trabalho do professor Adilson B?