Arnaldo Silveira tinha apenas 17 anos quando fundou o Santos. Dois anos depois era titular da ponta-esquerda da Seleção Brasileira, de quem seria o capitão. O garoto Adolpho Millon Jr. era ainda mais jovem, apenas 16 anos. Como Arnaldo, em 1914 também se tornou titular da Seleção Brasileira (ponta-direita). À direita, na foto menor, Raymundo Marques, um dos dirigentes mais ativos do novo clube.

A carreata chegou à Vila Belmiro faltando uns 15 minutos para as 14 horas. Depois de sair do Pacaembu e cruzar a avenida Paulista, despertando aplausos e gritos de outros santistas pelas calçadas, seguimos até o Carrefour da Anchieta, onde esperamos os ônibus, carros e modos da Torcida Jovem. Unidos, descemos a serra em uma procissão alegre e ordeira, que não deu trabalho aos batedores da PM. Ao avistarmos Santos, lá do alto, a alegria invadiu nossos corações. Poucos de nós nascemos em Santos, mas, pelo Alvinegro Praiano, elegemos essa cidade como se nossa também fosse. Entramos em Santos às buzinas, felizes por ver tanta gente com a camisa do time dos sonhos. A Vila fervilhava e a tentação de ficar por ali era grande. Porém, havia a romaria, um compromisso sagrado a cumprir…

A idéia de colocar os jogadores do Santos jogando contra 100 crianças vestidas de branco foi genial e proporcionou imagens maravilhosas. Em uma das fotos produzidas pelo UOL, Neymar aparece cercado por 10, 12, 14 crianças, todas sorrindo ao mesmo tempo em que correm para a bola. Ainda não vi imagem mais perfeita para representar essa simbiose entre o Santos e as crianças, entre o Menino Neymar e seus pequenos súditos.

Bem, mas como eu estava dizendo, a Vila estava florida e dava vontade de ficar. Amigos se espalhavam por toda a parte. E lá na praia haveria o evento do relógio e o show musical com Chitãozinho e Xoxoró. Multidões de santistas se movimentavam para a festa. Mas nós nos sentíamos na obrigação de reverenciar os fundadores do clube, que, temíamos, seriam ignorados em meio à muvuca.

Eu e Suzana chegamos à Rua João Pessoa, 10, exatos quatro minutos antes das 14 horas. Hoje lá fica uma loja Proplastik. Éramos esperados pela gerente da loja, a Leia, o seu supervisor e diretores. Lá estavam também o amigo Khayat, um dos fundadores deste blog, e sua esposa; um pai com suas duas filhinhas, o jovem médico João Nóbrega, o chinês Tah, que me dá a honra de ter todos os meus livros, e o casal Carlos e Isaura, amigos que fizemos no Cruzeiro do Centenário.

Em nenhum momento me iludi de que teríamos uma multidão pronta para reverenciar os fundadores do Santos. Para os leigos pareceria um evento simples, sem graça. Porém, os que me acompanham desde o lançamento do primeiro dos 10 livros que escrevi sobre o Santos, o Time dos Sonhos, sabem que adoto como lema para os santistas a frase bíblica: “Muitos são os chamados, poucos os escolhidos”. Não se pode exigir que ninguém participe de uma homenagem aparentemente chata. Estava até preparado para fazer o percurso apenas com a Suzana. Mas, felizmente, ainda havia outras pessoas que abriram mão da festa para homenagear os fundadores do clube.

No salão secular, a energia dos primeiros Meninos


No salão em que, um século atrás, o Santos foi fundado. De pé, o chinês Tah, o médico João Nóbrega, o pai das duas garotinhas, Carlos, Leia e Isaura. Agachados: Suzana, eu, a mulher do Khayat e o diretor da Proplastik (o Khayat não apareceu porque fez a foto). Dali, saimos para a caminhada até a Vila Belmiro.

Por uma gentileza dos diretores da Proplastik, pudemos subir um lance de escadas até o salão onde o Santos foi fundado, há um século, por 39 rapazes, quase todos estudantes e comerciários. Mesmo hoje dedicado ao depósito da loja, sentimos no ar do amplo salão a energia secular, imaginamos o momento da fundação do clube e exatamente às 14 horas, instante em que a assembléia de fundação do Santos foi iniciada, nós nos lembramos dos maiores responsáveis pela existência do clube, e após algumas palavras do Carlos, do Khayat e minhas, cantamos, felizes e emocionados, o hino oficial do Santos.

É mesmo um orgulho nascer, viver e morrer ligado ao Santos. Por isso, enquanto a cidade fervia lá fora, embalada por várias comemorações, voltamos nossos pensamos para os garotos Adolpho Millon Jr. e Arnaldo Silveira, os primeiros meninos craques do Santos, para o líder Raymundo Marques, e para todos os 39 fundadores que criaram o motivo de boa parte de nossas lágrimas e emoção.

Como o prometido, fomos a pé até a Vila Belmiro. Lá visitamos a exposição do notável artista plástico Paulo Consentino, no Memorial das Conquistas. No mesmo Memorial fiquei muito feliz ao ver o filme que Wesley Miranda, colaborador deste blog, produziu para mostrar algumas defesas preciosas do lendário goleiro Gylmar dos Santos Neves. Wesley é alguém que deve ser mais aproveitado pelo clube.

Voltamos a pé até onde o Santos foi fundado, desta vez acompanhados pelos conselheiros Reynaldo e Olivério, mais amigos e dois pequenos irmãos nisseis vestidos com a camisa do Santos. Concluímos nossa singela homenagem aos pioneiros, os responsáveis por tudo. Depois, passamos pela praia, nos alegramos com a multidão que acompanhava o show e com a infindável quantidade de camisas e bandeiras.

Jantamos no Mar del Plata, onde se come a melhor lula à milanesa do mundo, e voltamos para casa com a alma lavada. Neste domingo tem jogo na Vila, mas, com todo o respeito ao Catanduvense, hoje não há como impedir a felicidade santista. Vivemos um fim de semana de sonho. E ele terá um final feliz.

E você, o que fez ontem, dia do aniversário do Santos?